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Capela é colocada à venda

Edição de 09/02/2010
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Igreja supostamente construída por Antônio Landi há mais de 200 anos pode ser comprada por R$ 1,2 mi

A capela do Senhor Bom Jesus dos Passos, também conhecida como Capela Pombo, localizada na travessa Campos Sales, no centro comercial de Belém, está à venda. O anúncio foi publicado sábado, 6, no caderno 'Classificados', de O LIBERAL e pegou de surpresa alguns católicos da Região Metropolitana de Belém.

Pequena, deteriorada pelo tempo e espremida por casarões antigos, a capela poderia passar despercebida. Mas, com a sua única porta sempre aberta, ela se tornou parada obrigatória para muitas pessoas que trabalham ou passam pelo centro. Além disso, o local, construído há mais de 200 anos, foi projetado, segundo alguns pesquisadores, pelo arquiteto italiano Antônio Landi, o que reforça a sua importância histórica.

'Não há comprovação, não há documentos. Há relatos e comparação com outras obras, atribuídas à ele (Landi). Dá para acreditar pelas características, pela relação do arquiteto com o proprietário do imóvel e pelo período que ele foi feito', explicou o arquiteto Domingos Sávio de Castro Oliveira, de 44 anos, que apresentou trabalho sobre a Capela Pombo durante o seu Curso de Especialização do Patrimônio Artístico de Landi, do Fórum Landi, vinculado à Universidade Federal do Pará.

O proprietário da capela, José Augusto Pombo, espera receber R$ 1,2 milhão pelo prédio, que mede 7 metros de frente e 37 de fundos. 'O prédio em si não sei quanto valeria, o que vale é o valor histórico, por ser uma obra de Landi. É uma obra que tem mais de 200 anos. E Landi é o arquiteto que marcou época no Pará e no Brasil', argumenta o proprietário.

José alega não ter mais condições de manter a preservação do espaço e, por isso, resolveu se desfazer do imóvel. 'Está chegando a um ponto em que aquilo está ficando destruído. Eu não tenho como restaurar. Se eu deixar o prédio se deteriorar, a porrada será muito maior em cima de mim. Eu não tenho condições de manter, sou aposentado, vivo da minha aposentadoria', disse.

As imagens sacras que hoje se encontram no local não pertencem ao aposentado. Mas ele revela que existem duas imagens, uma de Nossa Senhora da Conceição e outra de São João Batista, de cerca de 200 anos e um metro de altura, cada uma, que estão guardadas com a família. Quem se dispor a pagar o preço que ele pede, afirma José Augusto, leva também as duas relíquias. 'Ela (capela) não é tombada. Nunca foi. Se, por acaso, eu começar a fazer obra, o patrimônio histórico vem em cima. Se cair, o patrimônio histórico vem em cima de mim e diz que tenho que restaurar', disse. Mesmo sendo católico, José Augusto Pombo afirma que não fica triste quando pensa em se desfazer de seu patrimônio. 'Não me apego a essas coisas materiais', argumenta.

Fiéis se preocupam com possibilidade de perder lugar de oração

João Veloso, do Iphan, revela que o prédio está em processo de tombamento desde a década de 1980. 'É um bem privado, então requer o interesse do dono em pedir ou aceitar. Todo mundo sabe que a partir do momento que um monumento é tombado, ele entra dentro das normas legais de conservação e, às vezes, as pessoas criam uma certa dificuldade e resistência', justifica. Para Veloso, a igreja católica deve agir diante deste caso. 'A salvaguarda do bem do patrimônio é a comunidade. Se a arquidiocese puder ir ao Ministério Público, acho que esse seria o caminho. Ele vendendo, tudo bem. Mas eu acredito que, a partir do momento que ela (capela) se encontra numa área de entorno tombado, acho difícil fazer a demolição', acredita.

A reportagem entrou em contato com o presidente da Fundação Cultural de Belém (Fumbel), Raimundo Pinheiro, que ficou de averiguar se a Capela Pombo era tombada pelo órgão. Porém, ele não foi mais encontrado para falar sobre o assunto.

Enquanto isso, quem frenquenta o local já se preocupa com a possibilidade de perder o espaço. 'Sempre que eu venho ao comércio eu passo aqui. É uma capela que a gente se sente bem, faz uma higiene mental. Se venderem, será um mau negócio. Porque, apesar dela ser pequenininha, ela é muito procurada. Eu acho ela uma coisa linda. Isso (vender) é afastar mais os católicos das igrejas. Por isso Belém é ‘a terra do já teve’', queixou-se a aposentada Graça Oliveira, de 61 anos.

Já a pedagoga Ana Novo Guerreiro, de 39 anos, se surpreendeu com a notícia de que a capela em que ela costuma rezar quando vai ao Comércio está à venda. 'Gente, isso é um absurdo! Faz parte da história. Eu sempre venho aqui. Sempre rezo. Minha preocupação é que a história vá se acabando. É uma pena', lamentou.

Administrador pensa em recorrer ao Iphan

A igreja católica se revela preocupada com o que pode vir a acontecer com o prédio. Raimundo Possidônio, administrador da Arquidiocese de Belém, diz que foi pego de surpresa com a notícia e, em princípio, não sabe o que pode ser feito, já que trata-se de uma propriedade particular. 'Em geral, a igreja não tem autoridade sobre essas instituições. Mas como se tornou uma coisa pública, está na rua, as pessoas visitam, a gente vai ver se pode acionar o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) ou o Ministério Público'.

O administrador considera que o fechamento da capela Senhor Bom Jesus dos Passos seria uma 'perda lamentável'. Mas, segundo ele, a igreja católica não sabe como impedir, já que não possui recurso suficiente comprar o espaço. 'Tem algumas imagens que talvez a gente pudesse levar ao Museu de Arte Sacra', afirmou.

De acordo com o promotor de Justiça de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural de Belém do Pará, Benedito Wilson Sá, se o patrimônio for tombado, durante a transferência, tem que se dar prioridade ao ente jurídico que o tombou, para que este se manifeste no prazo legal, sob pena de nulidade da transferência. 'Isso daí, na realidade, visa proteger o patrimônio de transferências eventualmente danosas ao meio, dando ao ente que tombou a possibilidade de cuidá-la', explica. No entanto, caso não seja tombado, o proprietário pode vender, sem qualquer restrição.

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