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O adeus de Benedito Nunes

Edição de 28/02/2011
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O intelectual mais importante do Pará, que estava internado havia oito dias, morreu ontem. Seu corpo será cremado hoje.

Professor, filósofo, crítico e intelectual paraense reconhecido internacionalmente, Benedito Nunes morreu na manhã de ontem aos 81 anos. Ele estava internado havia oito dias no Hospital Beneficente Portuguesa, em Belém. No sábado foi transferido para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Segundo boletim médico, por causa de uma úlcera, Benedito Nunes teve hemorragia no estômago. O quadro se agravou e provocou uma parada cardiorrespiratória, que lhe causou a morte. O corpo do intelectual está sendo velado na igreja de Santo Alexandre, no Complexo Feliz Lusitânia, de onde sairá, hoje, para a cerimônia de cremação no Cemitério Max Domini, em Marituba, às 10h.

Em pleno vigor intelectual, Benedito foi agraciado em 2010 com o Prêmio Machado de Assis - principal láurea oferecida pela Academia Brasileira de Letras (ABL) -, pelo conjunto de sua obra. No mesmo ano, por "A Clave do Poético", recebeu o prêmio Jabuti na categoria crítica literária e preparava-se para o lançamento, em junho deste ano, da edição bilíngue (português e grego) de três volumes da coleção "Diálogo de Platão", da qual era um dos organizadores.

O governador Simão Jatene lamentou o falecimento de Benedito Nunes, em nota enviada aos jornais. "Em nome de todos os paraenses, agradeço a inestimável contribuição do mestre Benedito José Nunes à cultura do País. A sua dedicação como escritor, crítico de arte, filósofo e professor é irretocável. Mais ainda, sua grandeza como paraense se revelou quando recebeu convites irrecusáveis para trabalhar em outros centros, no Brasil e no exterior, mas escolheu o Pará como destino e lugar para viver e construir a sua vasta e admirável trajetória intelectual. O Pará, reconhecido, saberá honrar a sua memória."

Durante todo o domingo, dezenas de pessoas passaram pelo velório do escritor. Eram ex-alunos, estudantes, intelectuais, professores, amigos de longa data, que foram ao local para a despedida ao mestre. Da família, além da viúva Maria Sylvia Nunes, que muito abalada precisou se ausentar por alguns momentos do velório durante a noite, o primo do filósofo, João Batista, disse algumas palavras sobre Benedito. "Meu primo foi um sábio e tinha um bom humor notável", disse ele, ao recordar o último encontro entre os dois, na quarta-feira (23), já no hospital. "Era um autodidata, estudava por conta própria. Não vejo mais o Pará produzindo alguém como ele", assinalou.

Amigos e admiradores ressaltam o grande intelectual

A morte do professor e filósofo Benedito Nunes levou dezenas de pessoas à Igreja de Santo Alexandre, no Complexo Feliz Lusitânia, onde o corpo é velado até a manhã de hoje, quando ocorre cerimônia de cremação às 10h.

Amigo de longa data de Bené, o secretário de Estado de Cultura, Paulo Chaves, foi ao local para se despedir do intelectual, que conheceu ainda na década de 60, quando Benedito era professor no Colégio Moderno. "Tive o privilégio de conviver com o casal, ver filmes, ouvir músicas. Ele era um patrimônio cultural do Brasil. Teve uma vida inteira dedicada ao estudo, à literatura e com certeza essa é uma perda intelectual e, para mim, pessoalmente, pela nossa amizade", disse.

Pesquisador e professor desde a década de 50, Nunes se notabilizou por estudos sobre escritores como Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Escreveu livros como "O Drama da Linguagem - Uma Leitura de Clarice Lispector’’. Fez mestrado na Universidade de Sorbonne, em Paris.

Em 1987, Nunes ganhou o Prêmio Jabuti por "Passagem para o Poético’’, estudo da obra de Martin Heidegger.

Em 2010, o livro "A Clave do Poético’’ recebeu o Prêmio Jabuti, e Nunes venceu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra.

Victor Sales, mestre e doutorando em filosofia, professora da Universidade de São Bento, no Rio de Janeiro, foi uma das pessoas que mais tiveram contato com o filósofo nos último cinco anos. Ele foi o responsável pela reedição das obras de Bené e, por conta disso, pôde conviver durante muito tempo, quase que semanalmente com o escritor. "Foi um contato edificante, não só em termos de conteúdo, de filosofia, mas também um aprendizado de vida, pela seriedade de um intelectual que devotou toda uma vida ao conhecimento. Ele sempre se doou à filosofia, à crítica literária, sem se importar se isso ia fecundar ou não", destacou.

O reitor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Carlos Maneschy, enfatizou que Benedito conseguiu reunir inúmeras qualidade ao mesmo tempo. "Essa é uma perda irreparável para a Universidade, para o Pará e para todos, porque ele conseguiu agregar várias habilidades numa só figura. Foi um grande intelectual, um grande escritor, crítico literário e filósofo. E além de todo o seu talento, tinha uma generosidade enorme", resume.

O diretor-presidente da editora da USP, Plínio Martins Filho, por telefone, destacou a perda do filósofo para a arte. "O conheci há muito tempo e sempre admirei o seu trabalho, como intelectual e pessoa humana. Ele estava muito animado com a edição do ‘Platão’, era como se estivesse começando sua carreira agora", comentou.

Simone Neno, diretora da editora da UFPA, da qual Bené era presidente do conselho editorial, disse que o escritor estava se dedicando bastante ao cargo e à organização da obra de Platão. "Ele compareceu a todas as sessões e estava trabalhando bastante na organização da coleção que teve tradução de seu tio, Carlos Alberto Nunes", contou.

A titular da Secretaria Municipal de Educação, Therezinha Gueiros, também esteve no velório para se despedir do colega e ex-professor. "Pra mim, a morte dele representa a perda de minha referência intelectual", disse.

A escritora Amarilis de Tupiassú fez questão de ressaltar as qualidades do escritor. "Posso dizer com muita certeza que foi o intelectual mais completo e rigoroso no sentido de estudar até o fim. É um estudioso que elevou o estudo da filosofia não só no Pará, mas no Brasil", enfatizou.

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