Médicos acusam grupo de "furar" a greve no HPSM da 14 de março Um desentendimento entre a Associação dos Servidores de Saúde do Município de Belém (Assesmub) e o Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa) marcou o segundo dia da greve dos profissionais de saúde, em Belém. A confusão aconteceu porque a presidente da Associação, Rosana Oliveira, entendeu que os médicos do Hospital de Pronto-Socorro Municipal Mário Pinotti, na travessa 14 de Março, no Umarizal, estariam "furando" a greve ao deixar passar pela triagem pacientes clínicos. A orientação do movimento era que somente os casos graves fossem atendidos nas unidades de urgência e emergência, incluindo os dois prontos-socorros da capital. "Essa é uma atitude covarde", acusou Rosana, que tentou fazer com que os próprios manifestantes assumissem a triagem de pacientes no setor de acolhida do hospital.
Insatisfeito com a declaração, o presidente do Sindmepa, João Gouveia, pediu calma aos manifestantes e ameaçou retirar o sindicato da paralisação caso os ânimos não serenassem. "Existe uma decisão judicial na qual o Sindicato é citado, precisamos manter a calma, não vamos admitir que os médicos sejam ofendidos publicamente, nessas condições o Sindmepa não continua", rebateu. De acordo com Gouveia não houve tentativa de enfraquecer o movimento por parte dos médicos. "O que acontece é que, muitas vezes, um paciente chega andando ao pronto-socorro, mas isso não significa que seu risco seja baixo. O que não podemos fazer é liberar um paciente porque aparentemente ele está bem e, depois, ele morrer em casa. Os médicos precisam ter essa responsabilidade", disse. Além do Sindmepa e da Assesmub, outros 10 sindicatos da área de saúde fazem parte da greve.
Ontem de manhã, apesar da decisão judicial que considerou a paralisação abusiva, os manifestantes voltaram a fazer piquetes em frente aos prontos-socorros nos bairros do Guamá e Umarizal. O balanço dos grevistas era de que, até o final da manhã, mais de 60% dos profissionais estavam fora dos hospitais. "Nossa meta é retirar do atendimento 70% dos trabalhadores, respeitando apenas os 30% determinados por lei", enfatizou Rosana. O argumento de que os 30% obrigatórios estão sendo mantidos será usado pelo Sindmepa para tentar reverter a decisão do juiz Marco Antônio Castelo Branco, da 2ª Vara da Fazenda, que considerou abusiva a greve dos profissionais da saúde e determinou o retorno imediato às atividades sob pena do pagamento de multa diária de R$ 10 mil. "A decisão foi tomada com base em informação passadas erradamente pela Secretária Municipal de Saúde (Sesma). A greve está respeitando os 30%, por isso não pode ser considerada abusiva. Abusivos são os salários que a prefeitura paga aos profissionais de saúde e as condições dos prontos-socorros e postos de saúde na capital", rebateu Gouveia. Na segunda-feira, 6, a categoria volta a se reunir em uma Assembleia Geral para decidir os rumos da paralisação.
Precariedade domina atendimento nas unidades públicas de Belém
O sofrimento faz parte do cotidiano daqueles que buscam a rede de saúde pública municipal de Belém. Os relatos da falta de educação de servidores, falta de atendimento e penúria para conseguir uma consulta ou exame são frequentes. Com a deflagração de greve dos servidores do setor, na última quinta-feira, 2, a preocupação da população aumentou.
Na madrugada de ontem, Pedro Aguiar, 58 anos, morador da passagem Bom Sossego, no Guamá, acordou às 4h30 com receio de conseguir realizar o exame de próstata na Unidade de Saúde do Guamá, distante a cinco quarteirões de sua casa. Ele foi o primeiro a chegar à unidade, caminhou pelas ruas desertas e com o céu ainda escuro. Às 5h27, esperava em frente a Unidade. Naquele momento, sua maior preocupação era ser assaltado. "Dá medo, né? Eu já fui assaltado quando vim para fila da outra vez", conta.
No outro lado da cidade, na Unidade de Saúde da Marambaia, situada na rodovia Augusto Montenegro, Andréia Pantoja, 29, queria a carteirinha necessária para consultas do filho Gabriel Pantoja, 3, que a acompanhava. Somente no mês de julho, Andréia foi três vezes à Unidade de Saúde da Tavares Bastos, também na Marambaia, em busca do cadastro. Ela tem um nódulo na tireoide e tenta marcar uma cirurgia de remoção na rede pública há três meses. "Eu sinto falta de ar, tontura e fraqueza. É muito ruim. A minha chefa (sic) me demitiu porque não tinha mais como eu trabalhar", fala.
Às 6h, a fila em frente à Unidade da Sacramenta já se formava. Seis idosos esperavam. Dentre eles, o casal José Maria Martins e Durcelina Campos Martins, ambos com 72 anos, que relataram mau atendimento. "Eu cheguei aqui e perguntei se iríamos ser atendidos, se iriam realizar exames. O guarda falou para mim, na falta de educação: ‘fica ai, espera, o senhor tem que esperar’", reclamou José Maria. Esta não foi a primeira vez que o idoso foi destratado. Certa vez, ele afirma que chegou a registrar boletim de ocorrência contra um servidor da Unidade de Saúde da Pedreira pelos maus-tratos. "Quem sofre mais somos nós aqui fora. Quem paga o salário deles somos nós", ressalta o idoso.
Na Unidade de Saúde do Guamá, Adriana Tavares, 71, aguardava a chamada da servidora para entregar sua carteira de paciente e reclamava que não há atendimento odontológico. "O consultório dentário faz três meses que está com aparelhos quebrados e não tem material. Eu queria fazer uma restauração e não posso". Para ela, a greve afastou bastante as pessoas do local. "Normalmente, tem muita gente aqui. Com certeza, quem mora longe pensou que não iria conseguir e não veio", diz.
Serviço ruim serve de estímulo para comprar de planos de saúde
Os idosos são o público-alvo do vendedor de planos de saúde Kleberton Kleiton dos Santos, 37. Talvez tenha encontrado o local oportuno para conseguir clientes, em frente à Unidade do Guamá. "Eu falo sobre os serviços que os planos oferecem, não preciso fazer muita coisa. É mais difícil vender planos de saúde na minha cidade. Quanto pior a saúde pública mais fácil de vender", revela. Kleberton é natural de Aracajú (SE). Aqui, ele vende o dobro do que em sua cidade. Seus clientes são como dona Maria Lourdes Ataíde, 47, que mora próxima a uma unidade de saúde ao Hospital Pronto-Socorro Municipal do Guamá, mas que prefere ter outra garantia. "Eu acho que, em vez de melhorar, só piora", confirma.
Maria de Lourdes não quer passar pela peregrinação atrás de uma consulta, como Maria Raimunda Ramos e Carolina Reis Ramos passaram com as crianças Luan Gomes, 4, e Livi Caroline Gomes, 1. A família passou por duas unidades de saúde e um hospital. A garota Livi Caroline chorava com dor. "Eles estão com feridas na boca, febre e diarreia. Não tinha médico na primeira unidade, na outra, mandaram a gente para cá e, aqui no hospital, eles dizem que não é um tratamento de urgência, por isso não vão atender", relatou Maria.
O taxista Guirl Cecim Gondin viu em frente ao pronto-socorro do Guamá pessoas voltando para casa, pois os médicos só aceitavam casos de urgência e emergência. "Eu fiz R$ 50,00 rapidinho, porque as pessoas pegavam o táxi para voltar para casa. Iam reclamando que não tinham conseguido. Alguns pediam desconto, porque não tinham muito dinheiro. Eu dei."
Enquanto a odisseia para conseguir atendimento na saúde pública de Belém persistir, Kleberton dos Santos continuará, sendo um dos exemplos da contradição brasileira, vendendo planos de privados na frente de um local que deveria oferecer um serviço de qualidade. Apesar disso, como todo cidadão, Kleberton espera que um dia o serviço seja oferecido para qualquer pessoa, sem distinção. "Você paga os seus impostos, todo mundo paga", finaliza.
Esclarecimentos - A Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) informou, por meio de nota, que não procede a situação de formação de filas durante a madrugada na Unidade Básica de Saúde (UBS) do Guamá. Segunda a direção da unidade, os atendimentos são realizados a partir das 7h. Apenas pacientes vindos de regiões ribeirinhas costumam chegar horas antes, devido ao horário de travessia dos barcos. Já os pacientes que necessitam de atendimento odontológico, estão sendo encaminhados para a unidade mais próxima, como no Jurunas, e também para o Centro de Especialidades Médico-Odontológicas (Cemo).
A Sesma informa, ainda, que se há denuncias de mau atendimento por parte de funcionários, o caso deve ser notificado com a direção da própria unidade para que seja investigado e o profissional responder por seus atos. Em relação a denúncia de cadastramento restrito na UBS Tavares Bastos, a direção informa que o cadastramento é feito de acordo com a demanda espontânea recebida. A criança que se dirigir a unidade é avaliada pela equipe médica e, de acordo com seu perfil, é cadastrada nos programas oferecidos pela UBS.
Pacientes de salinópolis acusam sespa de não repassar benefício
Pacientes que moram em Salinópolis, nordeste do Estado, e fazem tratamento de saúde em Belém reclamam que estão sem receber da 4ª Regional de Saúde de Capanema da Secretaria de Estado de Saúde (Sespa) ajuda de custo e passagens para viagens, por meio do Tratamento Fora de Domicílio (TFD), há quase um ano. Entre os pacientes, há uma criança portadora de deficiência e uma idosa. Segundo familiares e acompanhantes, existem mais pessoas no município que também estão prejudicadas pelo atraso do benefício.
Zenaide Carvalho, 33 anos, mãe de um menino autista, de apenas três anos, conta que não recebe o TFD desde outubro de 2011. "Dei entrada no benefício em setembro e recebemos somente uma vez, em outubro. De lá pra cá, não tivemos mais. Quando vou atrás do recurso na 4ª Regional, eles falam coisa com coisa e não explicam o que realmente acontece. Tenho que ir a Belém com meu filho duas vezes na semana e, sem o TFD, fica muito difícil continuar o acompanhamento da saúde dele", desabafa a mãe do garoto.
Outra acompanhante que reclama no atraso do pagamento do TFD é a doméstica Maria do Socorro da Costa, filha da idosa Maria da Costa Maciel, 67 anos, que faz tratamento de câncer no útero há cinco anos no do Hospital Ofir Loyola, em São Brás. "Temos que ir três vezes ao mês no hospital porque minha mãe se prepara para se submeter à cirurgia, mas, desde dezembro do ano passado, a gente não consegue receber o TFD. Se dependesse disso para irmos a Belém, talvez minha mãe estivesse pior. A gente se vira como pode para conseguir dinheiro", fala Maria do Socorro.
Eliana Reis de Souza, 49, precisa vir menos vezes a Belém, mas também padece com o atraso no repasse do TFD. "Hoje faço consulta uma vez ao mês para acompanhamento médico da cirurgia para retirada de câncer na mama esquerda que realizei há cinco anos e, há oito meses, viajo sem ter o benefício", reclama Eliana.
A coordenadora do Programa TFD da 4ª Regional de Capanema, de prenome Jane Luci, informou que os pagamentos estão empenhados, mas ainda não chegaram recursos da Sespa para fazê-los. "O problema é que a demanda é muito grande, tem muita gente doente, a cada dia temos novos processos", comentou.
Por meio da assessoria da Sespa, a regional Capanema informou que atende 13 municípios jurisdicionados e, por conta disso, há uma grande demanda de usuários. Ressaltou também que, entre hemodiálise e outras nosologias, tem um custo médio de R$ 170 mil por mês com as pessoas atendidas pelo Programa TFD. Acrescentou que os processos dos pacientes estão empenhados aguardando a liberação do financeiro. O recurso será repassado pela Sespa já na próxima semana.
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