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Mais uma vítima de “guerra”

Edição de 13/02/2008
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Madson da silva pinheiro, que seria membro da “terror bicolor”, foi assassinado após jogo no domingo

LEANDRO LAGE

Da Redação

Parazão 2008 começou manchado de sangue. No último domingo, depois da partida entre Paysandu e São Raimundo, um componente da torcida organizada Terror Bicolor foi assassinado a tiros no bairro do Distrito Industrial. Madson da Silva Pinheiro, 26 anos, é a segunda vítima das brigas entre a Remoçada e a Terror Bicolor em menos de seis meses. Autoridades policiais desconfiam que a guerra entre as duas 'facções' esteja de volta ao futebol paraense.

Madson não foi ao estádio para assistir a partida. Segundo Rosilene Silva de Jesus, mulher da vítima, o marido não participava da Terror Bicolor. Ontem de manhã, porém, durante o cortejo ao cemitério, um grupo de torcedores vestidos com a camisa da organização fez um protesto em frente à sede da facção, que fica ao lado da Curuzu. A bandeira do grupo cobria o caixão de Madson.

O presidente da torcida organizada Raça Bicolor, Domingos Coelho, contou que Madson Pinheiro trabalhava como vendedor na loja da Terror Bicolor. 'Quando voltamos do jogo para a Curuzu, ele se despediu de nós e foi para casa. Quando chegou, desceu do ônibus com a esposa e a filha, que só tem oito anos. Foi quando um homem surgiu por trás dele e deu um tiro na cabeça', relatou Domingos.

Durante o protesto, a equipe de reportagem foi ameaçada. Os torcedores tentaram impedir que fossem tiradas fotografias da manifestação e acusaram a imprensa de jogar uma torcida contra a outra. Além de indignação, o clima era de vingança. O grupo seguiu para o cemitério em ônibus fretado, cantando as músicas entoadas pela torcida do Paysandu, dentro dos estádios de futebol.

Guerra - A morte de Madson Pinheiro será incluída no inquérito policial aberto para investigar a morte de Juvêncio Afonso de Melo, vice-presidente da Remoçada, assassinado em outubro de 2007. Outras ameaças e tentativas de homicídio também estão no processo. O delegado José Maria Pereira, da Seccional de São Brás, suspeita que o motivo do crime seja vingança. 'E ainda vai morrer mais gente nessa briga', afirmou.

Para o delegado, é evidente que há uma guerra entre as torcidas organizadas de Remo e Paysandu. 'Estou apurando os casos. No histórico, temos a morte do Afonso, uma tentativa de homicídio no Curió, o assassinato do ‘Careca’, diretor da sede da Terror Bicolor, e outra tentativa contra um ex-diretor da torcida chamado Adriano', revelou o policial. O delegado José Maria também contou que as torcidas oferecem R$ 5 mil como prêmio pela morte de diretores do grupo rival.

Os diretores e parentes das vítimas, segundo o policial, serão chamados para depor. José Maria atribui a lentidão do caso ao grande número de inquéritos para resolver. 'Não tenho dedicação exclusiva a esse caso. Nem os delegados do caso da Ceasa tiveram. A polícia não trabalha assim. Também vou chamar delegados de outros bairros para reunir informações e prosseguir com o inquérito', explicou.

Apesar de extintas no papel, torcidas continuam nos estádios

Ao menos legalmente, as torcidas organizadas Terror Bicolor e Remoçada foram extintas em novembro do ano passado. Mas a sentença judicial, proferida pelo juiz Marco Antônio Castelo Branco, da 2ª Vara da Fazenda Pública, não eliminou as organizações na prática. Na partida de domingo, as faixas das torcidas ainda podiam ser vistas, além das músicas e gritos de guerra. O grupo, inclusive, continua ocupando o mesmo lugar dentro do estádio.

As torcidas, atualmente, agem de forma clandestina. Os membros estão proibidos de se organizar em associações e vestir camisas caracterizadas para ir aos estádios. 'Impedimos a existência das torcidas organizadas porque ficou provado que esses grupos eram danosos à sociedade. Eles se transformaram em facções criminosas, que ficam se atacando. Quem se reúne clandestinamente é bandido', disse o juiz.

Para o magistrado, depois da sentença, as torcidas organizadas se tornaram um problema de segurança pública. 'Está faltando uma efetiva aplicação do que foi determinado na sentença. Hoje, esses grupos são facções de criminosos, que devem ser combatidas pela polícia. A segurança pública precisa fazer uma investigação para saber se eles continuam se reunindo', afirmou Marco Antônio. As sedes, segundo o juiz, também foram desativadas legalmente.

O processo está engavetado desde que o magistrado mudou de vara judicial. 'Não sei se entraram com recurso contra a decisão de extinguir as torcidas, mas estamos preocupados', comentou o juiz, que prometeu requisitar novas investigações sobre o assunto. 'Não podemos ficar parados. Afinal, como formar uma nova geração de torcedores dessa forma? Mas o Judiciário precisa ser provocado'.

Organizadas devem ser dissolvidas, afirma promotora

A sentença judicial e o uso da força policial não acabaram com as torcidas organizadas. Como o próprio delegado José Maria confirmou, elas continuam operando, mas com outros nomes e de outras formas.

O papel da polícia, de acordo com a promotora Helena Muniz, do Ministério Público do Estado, é não deixar esses grupos se organizarem. 'É preciso tentar dissolvê-las, mesmo na clandestinidade', explicou.

O problema, segundo ela, tomou proporções maiores. As reuniões que, antes, se restringiam ao espaço dos estádios de futebol, hoje são feitas em outros lugares. 'Essas pessoas estão atrapalhando a paz pública e colocando em risco as famílias', disse. A promotora lembra que as facções criminosas costumam agir por motivações concretas. Por isso, ela sugere que a polícia descubra o que está por trás dessas organizações.

'A constituição legal desses grupos está proibida. Então, temos que saber quem está incentivando. Por que ocorrem essas desavenças e ameaças de morte? Elas (as organizações) devem ser dissolvidas', afgrmou a promotora.

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