02/06/2011 às 15h34
Obrigada nada |
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'O céu é lindo... Deveria ser ao contrário. A gente Pisar nas estrelas e ficar olhando a terra de longe. (Raphael Ishak)'
O céu estrelado. Acho que nunca vi tantas estrelas no céu como eu vejo agora nesse exato momento. Na cidade não tem tanta estrela assim no céu. Será que o fato de estar no meio do mato faz o céu se sentir mais tranquilo pra brilhar em paz?
Deitada na esteira, em semicontato com a terra, bem no meio do nada os sentidos ficam aguçados. Não é só a visão das estrelas. É a audição. É incrível como o silêncio faz um barulho ensurdecedor para aqueles que só sabem viver no caos. Sem buzina, sem TV, sem música, sem gritaria, sem barulho de trânsito, construção, sem alguém falando ao seu lado o silêncio parece mais barulhento. Os sons vens em modo estéreo. Incredible Surround Sound. Contemplar o barulho do silêncio é para poucos. Há quem se sinta entediado. Há quem precise o tempo todo de pelo menos uma TV ou som ligado. Talvez essas pessoas tenham medo dos seus próprios pensamentos. A caminho de casa, no carro, muitas vezes prefiro desligar o som. Minha cabeça já faz barulho demais sozinha. Eu gosto do silêncio.
Eu volto a apreciar o silêncio após pensar tudo isso. E tento esvaziar minha cabeça de qualquer pensamento. Olhando para o céu, sentindo o vento, ouvindo as folhas, continuo a contemplar a incrível arte de não fazer nada.
A incrível arte de não fazer nada. Difícil apreciá-la sem culpa. Por que quando nos pegamos em um momento de ócio, vem logo aquela sensação de estar perdendo tempo? Por que nos sentimos culpados quando estamos sem nada para fazer, quando desmarcamos um compromisso porque queremos ficar deitadas, ou quando preferimos ver TV ao estender a roupa no varal? É como se separar um tempinho para não fazer tarefa alguma fosse um crime.
Normalmente se nos ligarem a essa hora e perguntarem o que estamos fazendo, nos sentiremos culpados de responder ‘nada’. Bang! Você foi pego! Nada, como nada? Você não tem nada pra fazer? Não, não tenho, estou apenas descansando pensando em absolutamente coisa alguma. Certamente do outro lado da linha quem ligou sentiria inveja, mas arrumaria um jeito de recriminar.
Eu estou deitada, olhando o céu, no meio do nada, descalça de pernas cruzadas, sem fazer nada. Eu deveria ter ido hoje ao comércio (deveria ou apenas queria?), deveria ter atualizado pendências pessoais, escrito um texto. Mas cá estou de telefone, obrigação e corpo em modo off. Mente em modo on. Sempre.
O cara ao meu lado, que me abraça e olha as estrelas comigo, suspira alto e sem uma palavra divide a mesma opinião sobre o bom do tédio. Eu sinto no aconchegar do corpo dele ao meu. E penso mais. As crianças que vão ali não têm TV. Só tem um livro, um brinquedo, uma árvore e a imaginação. As melhores férias da minha vida, lembro, eram quando eu, pequena, ia a Mosqueiro e passava o dia andando de bicicleta, correndo com meu primo, anos reféns da própria criatividade e imaginação. As crianças de hoje, urbanas, infoxicadas, ao chegar no lugar que eu estou, diriam: não tem nada pra fazer aqui!
Eu estou cheia de ter o que fazer e aqui estou cheia de coisas pra fazer. Como imaginar, por exemplo, como seria se fosse mesmo tudo ao contrário. Pisar nas estrelas e olhar o chão de longe, longe, longe...
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25/05/2011 às 13h15
Os casamentos dos meus sonhos |
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À um passo do sim, faltando apenas três meses para o grande dia, posso dizer que estou oficialmente enlouquecendo. Nos meus mais perfeitos sonhos de planejamento de um evento do porte um casamento a essa altura tudo já deveria estar quase pronto. Mas na minha singela lista de mais de 50 itens a serem cumpridos, produzidos, orçados, nem dez estão com o tão sonhado OK! Alguns me dizem que é isso mesmo, os três meses finais são os decisivos. Mas eu estou noiva desde dezembro! Tive tempo suficiente pra me organizar e fui protelando. Na verdade, eu não queria ter que resolver nada, apenas viajar, ter ideias, pedir e alguém realizar tudo sem eu ter que tocar mais no assunto. Sim. Esse é meu nível de romantismo.
O fato é que agora que caiu a ficha, vendo ontem uma revista de noiva enquanto eu esperava na antessala da designer de bolos (não podemos mais chamar as doceiras de doceiras se não elas se ofendem): eu vou usar vestido branco, caminhar sob os olhares de todos, ser entregue ao cara e ficar na frente de um juiz balançando a cabeça. Por menos tradicional que vá ser meu casamento, ele ainda é um casamento, coisa que nunca pensei que pudesse se realizar. Nas parcas vezes em que imaginei meu casamento – nunca fui muito disso -, eu imaginava como uma fantasia mesmo, pensava na festa mais absurda, nas quebras que eu faria de tradição, nas músicas, mas sem realmente o desejo real. Era como quando eu era pequena e ensaiava debaixo do chuveiro, segurando um vidro de xampu, o que eu diria quando recebesse o Oscar. Eu imaginava até meu vestido e tinha decorado o texto, mas sabia que nunca estaria em Hollywood, óbvio. Era gostoso brincar. Mas agora o casamento é real e acabou que vai ser bem diferente de tudo o que eu já imaginei. Na verdade, vai ser melhor, e olha que eu já viajei de muitas formas.
1. O casamento íntimo praiano Eu e o noivo estamos numa prainha quase deserta. É de dia, é ao ar livre, temos poucos convidados, estamos todos de branco e descalços. Nessa cerimônia meio havaiana, uns caras tocam música ao vivo, meio hula-hula, tem fogueira, tem Buffet servido na folha da palmeira e drink na casca do coco. Primeiro erro: essa não sou eu. Talvez seja quem eu gostaria de ser, mas natureba, poucas pessoas? Eu sou de muitas pessoas, de muitos amigos, de festas homéricas e lotadas, que gosta casa cheia e de aparecer. Eu não combino com isso, apesar de achar lindo.
2. O casamento beatlemaníaco Os drinks se chamariam Helter Skelter e Good Day Sunshine. Toda a trilha seria dos Beatles e a minha música de entrada, Something. Haveria uma tenda psicodélica, o Lonely Heart Club, espaço cheio de corações, puffs, onde eu jogaria o bouquet para as solteiras, o espaço Imagine com fotos do casal e os Beatles Forever tocando. Claro que eu iria embora num carro amarelo batizado de Yellow Submarine. Eta ‘forçação’ de barra do cacete! Eu gosto dos Beatles, mas não sou Beatlemaníaca. E outra: quer coisa mais batida do que música dos Beatles como tema pra qualquer coisa?
3. O casamento regional Eu casaria num barco (podia ser ancorado, ou num lugar como o Píer 47, lá do Ver-o-Rio). As comidas seriam típicas: tacacá, maniçoba, pato no tucupi e açaí de sobremesa. Claro que ia ter Arraial do Pavulagem, Carimbó e La Pupuña pra animar (que na época ainda existia). Decoração de flores naturais, brinde de essências do ver-o-peso e muito patcholi. Provavelmente minha roupa seria quase de uma entidade do candomblé misturada com roupa de carimbó. Só faltava a aliança ser de coquinho e a lua de mel na Ilha do Cumbú. SEM COMENTÁRIOS!!!!
4. O casamento aventureiro Poderia ser num Bungee Jump, poderia ser fazendo escalada e lá em cima trocando alianças. Poderia ser durante um mergulho. Só tem um problema: eu tenho medo de altura e não sei nadar.
5. O casamento rocker Um vestido bem rock and roll, que tivesse um pouco de preto e um pouco de tacha. Os padrinhos e madrinhas totalmente modernos, de coturno e os diabos! A trilha totalmente Sex Pistols. Imagina os noivinhos verdes, tipo zumbi? Os doces com caveirinhas, decoração toda com vermelho, roxo, um verdadeiro inferninho indie. MEDO!
6. O casamento dançante No som: “At first, I was afraid, I was petrified. Kept thinkin' I could never live Without you by my side”. As portas da igreja se abririam e eu viria caminhando lentamente, até que na virada da música eu puxaria o saião do vestido branco e ela daria lugar a uma mini! “Oh no, not I! I will survive! Oh, as long as I know how to love, I know I'll stay alive! Todos dançando! Os padrinhos se remexendo, as madrinhas rodopiando! A igreja inteira com bastonetes de neon, jogando purpurina e o padre rodopiando a Bíblia! Meu noivo já estaria dançando break no chão. O resto eu realmente nunca consegui imaginar. Só sei que seria uma boa ideia para os novos casamentos homoafetivos que virão por aí.
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27/04/2011 às 13h06
O Caso da Fruta (ou O Homem Feminino) |
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Deco está em frente ao computador. Como sempre. Ora no jogo de guerra, futebol, perseguição, ora navegando na internet, trabalhando. Julia perambula pela casa procurando o que arrumar. Como sempre. Ora estende a roupa, guarda, limpa alguma coisa, ora confere a dispensa pra ver o que falta. Está com fome. Deco concentrado não sente fome. Julia procura alguma coisa que preste pra beliscar porque está de dieta. Acha uma maçã, fruta que ela não gosta. Senta ao lado de Deco, hipnotizado em frente à tela. Decide puxar conversa.
- Amor? - Hum? (tectetectectec, Deco continua teclando) - Não tem nada pra comer em casa. - Eu não to com fome. - Eu não perguntei se você estava com fome. Eu disse que não tem nada pra comer em casa. Eu to com fome. - Hum... (tectectectectec) - Deco? - Oi, minha vida. - Nada. Esquece. - O que foi, Julia? (Deco se desconcentra e para de teclar, olha pra mulher, visivelmente injuriada) - É que eu não aguento mais... Ele a interrompe. - Não aguenta mais o que? Eu estou trabalhando, Julia! Fazendo algo pra nós! - O que? Não, não estou falando dis... - O que é, então? Não me aguenta mais, é isso? OLHA, JULIA, VOCÊ QUER SE SEPARAR, É, É? VAI, SEPARA, ENTÃO! - Deco, você tá louco? Espera eu molhar o bico! Eu ia dizer que não aguentava mais fruta! - FRUTA? O que fruta tem a ver com isso? - Ué, é o que eu não aguento mais. Eu só ia fazer um comentário quando você começou a surtar... - Eu comecei? Eu tava quieto aqui e você vem discutir relação? Surtar, surtar... Julia, você é louca! Eu nem sei de que fruta você está falando, eu só comprei fruta pra você uma vez! - Querido, não estamos falando da mesma coisa. Não estou te pedindo pra comprar fruta alguma. - Ótimo! Porque nunca mais, ouça bem, Julia, NUNCA MAIS EU VOU COMPRAR NADA PRA VOCÊ! Nem fruta, nem nada se você não está satisfeita! - Meu Deus, eu não estou acreditando. - Eu é que não acredito! Vocês mulheres sempre procuram briga!!! - André Clóvis, eu apenas sentei ao seu lado pra dizer que não queria comer maçã. Mas você tentou adivinhar o que eu ia dizer antes e começou a brigar comigo do nada! OUÇA VOCÊ MESMO! Ai, não tenho paciência. Parece uma mulherzinha histérica. - Isso, vai, vai. E a culpa ainda é minha. (tectectectectec)
* * *
Bate na porta do quarto e entra. Julia está deitada, lendo. - Julia? - Humf... O que é? – ela repousa o livro na cama, aborrecida. - Vamo parar de brigar, minha vida... Isso é uma bobagem. - Eu não briguei por nada, você brigou sozinho. - Você tem que parar de se estressar por besteira. - EU? QUE ESTRESSE, ANDRÉ? EU NÃO ME ESTRESSEI POR NADA! VOCÊ QUE É LOUCO E COMEÇOU A BRIGAR! - Tá vendo? Não dá pra conversar com você... Eu quero fazer as pazes. Ela respira fundo... - Tudo bem, amor. - Eu te amo, Ju... - Eu também, eu também... - Amanhã eu compro a fruta que você gosta pra você parar de brigar comigo, tá? - DECO, EU NÃO QUERO FRUTA NENHUMA! - Ai, meu Deus, não dá pra entender as mulheres...
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20/04/2011 às 14h51
Utópico |
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Que você de vez em quando me sirva café na cama, mesmo todo desengonçado, mesmo sem saber direito como eu gosto do café e tente sempre acertar a medida certa de leite pra mim. Que me elogie todas as vezes em que saio do quarto arrumada, sem exceção, mesmo que seja para ir ao trabalho. E que não apenas diga da boca pra fora, mas que seus olhos brilhem e reparem no meu sapato, no vestido que ficou perfeito, nos detalhes. Que você tenha orgulho de mim. Que me ache uma mulher muito inteligente e que perdoe quando eu disse alguma asneira e ria comigo, não de mim.
Que você não pare de falar um minuto comigo, porque adora nossas conversas e sempre acha que temos assunto demais. Que você tenha certeza que sou a pessoa que mais amou na vida e diga isso pra todo mundo, mesmo longe de mim. Que me ache linda de manhã, sem maquiagem. Que diga que sou louca quando eu disser que estou gorda, e se eu estiver mesmo acima do peso, ache que estou mais gostosa que nunca. Que sempre me ache a mulher mais bonita de qualquer lugar e diga isso no meu ouvido. Que sinta tesão sempre, muito e muito mais, mesmo me vendo todos os dias. Que me atrapalhe de manhã cedo e na hora do almoço e antes de dormir porque não resiste em querer me jogar na cama. Que mesmo depois de casados e convivendo diariamente com pepinos e rotina, continue sentindo saudade de mim e que me espere ansioso à noite.
Que sem eu pedir, retire as roupas da corda e as dobre em cima da cama. Que não me deixei lavar louça tarde da noite porque fica com dó de me ver cansada do trabalho. Que mesmo entendendo feminismo e igualdade de sexos, continue me tratando como uma dama e nunca me deixe carregar nada, ou ficar em pé ou pagar a conta toda. Que se perca em alguma conversa de bar por estar me olhando e quando eu perguntar 'o que foi?', responda, 'nada, é que você é linda'. Que me peça em casamento como manda o figurino porque realmente quer que seja pra sempre. Que não tenha muita paciência de esperar e me chame logo pra morar junto.
Que me ensine a ter paciência. Que faça as minhas vontades sempre com um sorriso no rosto. Que ame os defeitos que eu mais odeio no meu corpo, porque os acha charmosos. Que mesmo me vendo pelada todos os dias, continue me secando cada vez que saio do chuveiro ou troque de roupa na sua frente. Que pegue na minha mão despretensiosamente em qualquer lugar. Que apareça rápido com um isqueiro, quando pego meu cigarro. Que me faça um jantar delicioso de coisas que sabe que eu gosto. Que me aceite como eu sou e ache isso o máximo.
Que repare nas cores das minhas unhas a cada mudança de esmalte. Que faça de tudo pra eu sorrir quando fico triste. Que queira ter filhos comigo, mesmo que eu mesma não queira. Que seja o homem capaz de me convencer a isso. Que passe uma tarde escolhendo os nomes deles e aceite as ideias mais malucas que eu tiver pra batizá-los. Que compre chocolates pra mim. Que não minta, mesmo que isso custe uma briga. Que seja meu amigo, me dê conselhos, me apóie. E que sempre peça minha opinião sobre decisões importantes e confie nela, porque me acha a melhor amiga que poderia ter. Que me faça rir muito e ria das minhas piadas. Que seja companheiro, leal. Que me inspire e me orgulhe.
Que me ame sem me sufocar. E que tenha um pouquinho de ciúme também. E que, sobretudo, me faça crer mais uma vez no amor monogâmico, ainda que ele seja utópico. E quando disserem que tudo isso é utopia que eu possa responder 'é porque eles ainda não conheceram você'.
P.S. Para meu namorado/noivo/marido/amante/amigo.
P.S.2: E no Diário da Plebeia, um debate sobre a polêmica campanha de peles da Arezzo. Você já fez seu meaculpa? www.diariodaplebeia.com
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