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28/01/2010 às 12h30
O triunfo da vaidade
 

A gente sabe que Domingos Oliveira é um dos melhores cineastas brasileiros porque ele faz questão de nos dizer isso: “Já fiz alguns filmes, não sei se o leitor os admira. Isso não importa. É certo que me coloco no melhor nível do cinema brasileiro. E cada vez, na medida em que tenho espaço, é mais difícil para mim fazer um filme. Convenhamos: há alguma coisa errada. Na verdade, creio que está tudo errado.” Lógica implacável. 

O autoproclamado diretor de alto nível começa seu estapafúrdio artigo “Uma nova receita para o cinema brasileiro”, publicado no jornal O Globo no dia 27 de janeiro, afirmando que o “cinema é uma arte, antes de tudo”, mas “nos países ricos, particularmente Estados Unidos, Índia e Japão, o cinema é uma indústria”, o que não acontece no Brasil. 

Concordo que o cinema não é uma indústria por aqui. Mas discordo de todas as outras afirmações de Oliveira. O cinema é, antes de tudo, uma indústria. Se não funciona assim no Brasil, mas funciona em um país “rico” como a Índia, devemos dar um jeito para que funcione. O que impediu o cinema de estagnar, ao contrário do que aconteceu com as artes plásticas, por exemplo, foi justamente o fato de ser indústria, de não ter perdido o contato com o público.

Outro cineasta das antigas, Júlio Bressane, disse com furor adorniano à revista Época que seu cinema “não depende do público porque eu sou o público. Não existe o público. É outra coisa que foi uma das vitórias da tirania, foi se criar essa ideia de público, como se houvesse um público, ou como se houvesse um filme de público. O filme de público foi o que destruiu o cinema brasileiro.” Como todo crítico apocalíptico da chamada indústria cultural, Bressane é claramente fascinado pelo que despreza e se trai ao repetir sete vezes nesse trechinho a palavra “público”. 

As peças de Shakespeare estão entre as mais altas conquistas do espírito humano — e foram escritas para o público, que certamente não foi inventado pela ditadura nem por Hollywood e já existia bem antes do período elisabetano. Mas, para Bressane, o que ocorre hoje “É um processo imenso de mediocrização de tudo. Essa questão das artes foi colocada no campo do entretenimento, no sentido mais bruto e piegas dessa expressão americana, entertainment. Foi reduzida a isso. Esse cinema de arte e de experimento desapareceu.” Oliveira segue a mesma linha de pensamento ao escrever que “Não é necessário que um país pobre como o nosso gaste tanto dinheiro em entretenimento. Não é necessário fazer filmes no Brasil. É necessário fazer bons filmes no Brasil”.

E o que é um bom filme para Oliveira? O bom e velho “filme de arte”. Ele explica: “Material básico não nos falta. Ser brasileiro é ser artista. O filme de arte não é necessariamente impopular. Basta lembrar Charles Chaplin, Scorsese e muitos outros. Ele apenas nega o princípio de que o povo só ri de piadas que já conhece. Isto é menosprezar o público. O cinema brasileiro que quiser alcançar o povo brasileiro não terá que perguntar o que ele quer, porque povo pobre não sabe o que quer. Terá que dar-lhe o que ele precisa. De modo que aqui venho de novo defender a criação urgente do Ministério da Arte.”

Fora o lugar-comum de “ser brasileiro é ser artista” e a falácia de usar como exemplos de artistas dois cineastas que tanto se beneficiaram do fato de o cinema ser antes de tudo uma indústria, o que há de mais repelente no parágrafo acima é sugerir que não menosprezar o público é dar ao público o que ele precisa, “porque povo pobre não sabe o que quer”. E como fazer isso, camaradas? Com a “a criação urgente do Ministério da Arte.” Dirigismo pouco é bobagem.

Não há frase no artigo de Domingos Oliveira que não possa ser refutada. Mas meu estômago é fraco. O Barretão ter subestimado “Avatar” não passou de uma asneira. Mas o artigo de Oliveira é simplesmente asqueroso. Termina assim: “Sei que essa colocação escorrerá pela parede da burocracia, como se tivesse jogado um ovo ali. Não me importa. Estou certo. Portanto, um dia, provavelmente depois da minha morte, vencerei.” Sig heil!

 
 
 
26/01/2010 às 08h00
Dois cavalheiros extraordinários e uma dama fatal
 

'Sherlock Holmes' é filme para se ver em casa. A começar pelo formato não fede nem cheira de 1.85:1. Para filmes que aspiram à condição de blockbusters, a sala de cinema é apenas uma parada ainda obrigatória entre a ilha de edição e os aparelhos de TV 16:9. Seguindo o exemplo de Guy Ritchie, portanto, vou deixar o cinema de lado. O que resta é uma ideia perfeitamente válida e uma história mal contada.

Ao contrário de outros fãs do detetive criado por Conan Doyle, eu acho justíssima a ideia de fazer de Holmes e Watson uma dupla de super-heróis: o Batman e Robin vitorianos. Com direito a Mulher-Gato: a bela Irene Adler. Até porque a comparação não é gratuita. Duplas como Batman e Robin não existiriam sem Holmes e Watson. E o filme presta homenagem a Batman ao dar a Holmes um cinto de utilidades. Holmes, assim como Batman, sempre foi bom de briga, e duas cenas de luta servem de exemplo para o amadorismo do roteiro. Michael Robert Johnson e seus colegas acertaram em aliar dedução e ação para explicar a destreza de Holmes: ele analisa as fraquezas e antecipa os golpes de seus adversários. Frank Miller fez isso antes na graphic novel “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, o que não empana o brilho dos roteiristas. O problema é que tem uma briga a mais ou a menos no filme.

Vemos duas vezes, em câmera lenta, Holmes antecipando os golpes que dará em seus adversários. Depois vemos os golpes em velocidade normal. A segunda vez é desnecessária. Só se justificaria se houvesse uma terceira, no clímax, em que Holmes antecipasse erradamente um dos golpes. Neste caso, um é bom, dois é amadorístico, três seria profissional.

Além de tropeços como esse, o filme peca por tentar agradar a todo mundo. Acaba não agradando totalmente nem aos fãs de Holmes, nem a quem vai ao cinema só para comer pipoca, nem a quem espera um bom filme. Mas quem joga pelo empate não merece a vitória. Guy Ritchie deveria saber que isso é elementar.

 

 
 
 
19/01/2010 às 14h00
Dom Luiz de La Mancha
 

Em matéria publicada no jornal O Globo, Luiz Carlos Barreto explica porque 'Lula, O Filho do Brasil' não emplacou: “subestimamos ‘Avatar’. Em agosto, quando vimos uma sessão prévia de 15 minutos dele, tivemos a impressão de que não seria essa coisa toda. Depois da estreia, vimos que ‘Avatar’ não seria moleza”.

Declaração assombrosa. A multimilionária produção de James Cameron vinha sendo anunciada há anos. Só pelo marketing, mesmo que fracassasse no boca a boca, venderia mais ingressos que qualquer filme nacional. Mas o veterano produtor assistiu a 15 minutos do filme antes do lançamento e decidiu “que não seria essa coisa toda”, que 'Lula' poderia concorrer no circuito de igual para igual. Ao contrário de Dom Quixote, que atacava moinhos de vento achando que eram gigantes, o quixotesco Barretão resolveu peitar um gigante achando que era um moinho de vento.

Luiz Carlos Barreto esperava, no mínimo, 5 milhões de espectadores. Agora diz que se contentaria com 1 milhão. Ainda não conseguiu 700 mil. 'Avatar', por sua vez, já arrecadou mais de 1 bilhão e meio de dólares e se encaminha para quebrar o recorde de 'Titanic', também de Cameron, e se tornar o maior campeão de bilheteria da história do cinema. Não, 'Avatar' não é moleza. E ainda há tempo para o Barretão mudar de profissão.

 

 
 
 
07/01/2010 às 17h49
Os filmes que ainda não vi
 

Uma pessoa se torna cinéfila não porque vê filmes, mas sim porque sente a necessidade imperiosa de ver os filmes que ainda não viu.

 Les oubliés du cinéma français, Jean Charles Tacchella
 

Todo cinéfilo é um inconformista. Não se conforma em ter que assistir apenas aos filmes que entram em cartaz na cidade onde mora, nem aos que estão disponíveis nas locadoras em seu país, nem aos que são exibidos na TV, aberta ou fechada. Quem se conforma com essas coisas pode ser tudo, até viciado em filmes, mas não é um cinéfilo. Cinefilia não é vício, é paixão. 


A definição de Tacchella só não é perfeita por ser incompleta. Eu não quero ver todos os filmes que ainda não vi, longe disso. Seria uma tortura, não um prazer. Mas sinto, sim, a necessidade imperiosa de ver os filmes que ainda não vi e sempre tive vontade de ver. E de descobrir filmes que eu queria ver e nem sabia, como “La Bestia Magnifica (Lucha Libre)”, de 1953, dirigido por Chano Urueta, por exemplo. 


Quem diria que um filme mexicano de luta livre, que inaugurou um dos subgêneros mais toscos da história do cinema, fosse melhor que a maioria dos filmes americanos de boxe do mesmo período? É um filme que eu sempre quis ver e nem sabia que existia, um inesquecível filme esquecido, sem votos nem links externos no IMDB, e que eu só descobri por ser cinéfilo, por não esperar que Maomé venha à montanha. 


Conheço muita gente que se diz cinéfilo e não move uma palha para expandir seus horizontes cinematográficos. Isso é solipsismo, não cinefilia. O melhor filme que eu já vi é um filme que ainda não vi e está esperando por mim.  

 
 
 
06/01/2010 às 08h00
A morte e a morte de Sherlock Holmes
 

Nunca pensei que eu fosse dizer isto, mas estou ansioso pelo novo filme de Guy Ritchie, que é um diretor ordinário. Não pelo filme, aliás, mas para conhecer o Sherlock Holmes de Robert Downey Jr., que é um ator extraordinário. Mas será um Holmes póstumo, por melhor que seja.

Sherlock Holmes morreu no dia 4 de maio de 1891, ao despencar nas cataratas de Reichenbach, na Suíça, levando consigo seu arquiinimigo, o professor Moriarty. O assassino foi seu próprio criador, Sir Arthur Conan Doyle, que matou o personagem no conto “O problema final”, publicado na revista Strand em 1893. Os fãs não perdoaram o homicídio literário, e o criador, por dó ou por dinheiro, ressuscitou oficialmente a criatura em 1903, no conto “A casa vazia”, passado em 1894.

No intervalo, Doyle publicou a mais famosa aventura de Holmes, “O Cão dos Baskerville”, mas a trama se desenrolava antes da “morte” do detetive em 1891. A última notícia que Doyle nos deu de Holmes é que ele se aposentara e se mudara para o campo, onde se dedicou à criação de abelhas.

Em resposta aos fãs de Akira Kurosawa que ousavam comparar o talentoso mas irregular cineasta ao infalível Kenji Mizoguchi, Jean-Luc Godard escreveu que “só se compara o que é comparável”. Esta máxima me vem à cabeça sempre que vejo Jeremy Brett como Sherlock Holmes nas séries de TV produzidas pela emissora inglesa Granada entre 1984 e 94. O Holmes de Brett é incomparável.

O mais famoso detetive da ficção foi vivido por atores de peso, como Basil Rathbone, Peter Cushing, Christopher Plummer e Charlton Heston. Todos privilegiavam um ou outro traço de Holmes, que é um homem de intelecto e ação: alia um conhecimento profundo de química e da natureza humana à destreza no boxe e em artes marciais. E compensa a inevitável inércia com doses de cocaína e morfina. Antes de Brett, todo Holmes do cinema ou da televisão era um Holmes menos alguma coisa.

Basil Rathbone, por exemplo, o mais conhecido dos Holmes do cinema, tinha o physique du role e se assemelhava ao personagem desenhado por Sidney Paget nas ilustrações que acompanhavam os contos na revista Strand. Seu Holmes, além do intelecto, sabia usar os punhos. Mas faltava a alegria esfuziante ao confrontar um enigma e a angústia, a tristeza e a letargia do viciado em cocaína.

Rathbone viveu muito bem um dos Holmes possíveis, mas Jeremy Brett foi todos os Holmes ao mesmo tempo. E mais alguma coisa. Trouxe uma profunda humanidade ao personagem, sem vestígios de sentimentalismo. E um olhar e uma gargalhada sem rivais. “Holmes é o papel mais difícil que já interpretei”, disse o shakespeariano Brett, “mais difícil que Hamlet ou Macbeth. Holmes se tornou o lado negro da lua para mim”. 

A segunda morte de Sherlock Holmes ocorreu mais de um século depois da primeira, no dia 12 de setembro de 1995, em Clapham, Londres. A causa foi um prosaico ataque cardíaco. O nome na lápide é Jeremy Brett, mas não engana ninguém: ali jaz Sherlock Holmes. E deveria ser seguido pela inscrição: Nobody did it better.

http://www.youtube.com/watch?v=Lu5UjujTRD0

A primeira e inesquecível aparição de Brett como Holmes pode ser vista no vídeo abaixo por volta dos 4min30s. Brett declama o texto de Doyle, a profissão de fé de Holmes, como se fosse de Shakespeare. 

http://www.youtube.com/watch?v=uFHBnsu6lYY

Ainda no espírito natalino, divirtam-se com esta deliciosa montagem de Brett sorrindo e rindo como Holmes. Cuidado, a gargalhada dele é contagiante.

http://www.youtube.com/watch?v=HKXdnMtHOqk


 
 
 
Vanessa Liborio

Ronaldo Passarinho é documentarista, jornalista e tradutor. Assinou, por dez anos, a coluna ZOOM do jornal O Liberal, foi redator da revista Cinética e do Jornal do Brasil. Seus dois primeiros livros como tradutor devem ser lançados ainda este ano. Seu novo blog, Contos da Escuridão , traz traduções inéditas para obras-primas do horror e do sobrenatural

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