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09/12/2008 às 15h30
Hoje é dia de Capitu
 

Quando 'Pantanal', de Benedito Ruy Barbosa, estreou na extinta Rede Manchete, em 1990, pipocaram críticas elogiando a direção de Jayme Monjardim por ser “cinematográfica”. Em um formato dominado por closes e planos médios, burocraticamente distribuídos, os planos gerais de Monjardim certamente chamavam atenção.

Planos gerais em telenovelas são geralmente relegados a cenas de transição. Servem como planos de orientação, os “establishing shots” da continuidade clássica, que localizam a ação seguinte e marcam a mudança de cenários entre os diversos núcleos da trama. E muitas vezes funcionam apenas como videoclipe, uma sucessão de cartões-postais ao som de músicas que fazem parte da trilha sonora.

Em 'Pantanal', muitas cenas começavam em plano geral e continuavam assim por longos minutos, com os personagens interagindo à distância. Mas o efeito era mais decorativo que dramático. O plano geral extrapolava sua função de orientação, mas continuava servindo de cartão-postal, até mais sistematicamente do que em telenovelas tradicionais, mostrando a beleza do pantanal mato-grossense.     

Três anos depois, José Venâncio, personagem vivido por Taumaturgo Ferreira, foi assassinado em 'Renascer', novela também assinada por Benedito Ruy Barbosa. Aquilo, sim, foi coisa de cinema. Luiz Fernando Carvalho utilizou com maestria uma série de recursos, da câmera subjetiva à supressão de som direto, de closes a planos gerais, para criar uma seqüência realmente cinematográfica em uma novela repleta de cenas igualmente impressionantes.

No Brasil, pelo menos, a telenovela é o formato mais autoral da TV. O próprio título é menos importante em anúncios do que o nome do noveleiro. Vem aí a próxima novela de Gilberto Braga, ou de Manoel Carlos, ou de Aguinaldo Silva... Mas 'Renascer', para mim, nunca foi uma novela de Benedito Ruy Barbosa. Era autoral, mas o autor era o diretor, Luiz Fernando Carvalho.

Depois de assinar a direção geral de outras telenovelas, sempre com momentos memoráveis, inclusive cenas montadas quase totalmente em supercloses à moda de Sergio Leone, Carvalho lançou em 2001 a minissérie que continua sendo sua obra-prima, 'Os Maias', com uma das mais belas seqüências de abertura da história da televisão (e não me refiro apenas à televisão brasileira). Veja abaixo:

Tanto nas novelas quanto na suntuosa adaptação do romance de Eça de Queirós, Carvalho trabalhou como um contrabandista de Hollywood. 'Renascer' e 'Os Maias' são os equivalentes televisivos de filmes como 'O Poderoso Chefão' e 'Apocalypse Now', de outro diretor com forte tendência ao barroco, Francis Ford Coppola. Resultaram da tensão entre a visão autoral de um artista e o pragmatismo de um sistema de produção que exige retorno financeiro, tanto faz que o sucesso seja medido pela renda das bilheterias ou pelo IBOPE.

Assim como aconteceu com Coppola, o prestígio deu maior liberdade a Carvalho. O cineasta americano aproveitou para se dedicar a projetos, segundo ele, mais pessoais. Saiu do barroco e entrou no rococó, em filmes como 'O Selvagem da Motocicleta' e 'Drácula'. Carvalho seguiu o mesmo caminho nas duas temporadas da minissérie 'Hoje é Dia de Maria' e na microssérie 'A Pedra do Reino'. Coppola e Carvalho ganharam mais liberdade. Quem perdeu foi o espectador. E hoje é dia de 'Capitu'. Será que Carvalho descobriu que liberdade demais enjoa? É esperar para ver. 
 

 
 
 
04/12/2008 às 14h00
Filme de horror ou um horror de filme?
 

Já escrevi para a coluna ZOOM sobre o alucinadamente superestimado 'REC', de Jaume Balagueró e Paco Plaza. Li críticas elogiando o filme, não só como o melhor do gênero exibido este ano, mas como um dos melhores da década. Ou dos últimos vinte anos. Ou, juro, de todos os tempos. Ou eu não vi o filme direito ou tem gente por aí que assistiu a poucos filmes de horror.

'REC' não tem vísceras nem para entrar em listas de melhores filmes de zumbi. Pelo visto, a referência desse povo é 'Extermínio', de Danny Boyle. Precisam conhecer melhor Romero, Fulci, Deodato... Até o quase sempre medíocre Antonio Magheriti dá um banho de sangue e estilo na dupla espanhola com 'Cannibal Apocalypse', assinando como Anthony M. Dawson.

No próximo domingo, vou escrever sobre 'Os Estranhos', do estreante Bryan Bertino. É doloroso falar mal de filmes do meu gênero favorito que entram em cartaz por aqui. São tão poucos. A maioria é lançada diretamente em dvd. Mas não dá para elogiar 'Os Estranhos'. Está certo que é filme de estreante, mas não precisava ser tão amadorístico. Bertino não tem nenhuma noção de ritmo. A tensão é inversamente proporcional à progressão da trama. Quanto mais perigo o casal de protagonistas corre, mais chato o filme fica. É o que dá ficar na dúvida entre rodar um filme de horror convencional ou um clone de 'Violência Gratuita', de 1977, dirigido por Michael Haneke, que clonou seu próprio filme no ano passado.

Dois outros estreantes, David Moreau e Xavier Palud, se deram bem melhor seguindo as convenções do gênero em 'Eles', de 2006, lançado em dvd no Brasil, que parte da mesma premissa de 'Os Estranhos'. Mas esse é o assunto da coluna do próximo domingo.

Na falta de bons filmes de horror em cartaz no cinema este ano, o melhor que apareceu por aqui deve ser mesmo 'Arquivo X – Eu Quero Acreditar', de Chris Carter. Perdi na telona, mas não fiquei nem um pouco chateado em vê-lo na telinha. Não é bom cinema, nem quer ser, mas é um ótimo telefilme e faz jus aos melhores episódios da série, ao contrário do longa-metragem anterior, que é uma bagunça.

Dizem que o teatro é a arte do ator, assim como o cinema é, com certeza, a arte do diretor. A televisão fica no meio do caminho. Assim como no teatro, na tevê quem escreve é mais importante do que quem dirige (apesar do ego dos diretores de televisão ser geralmente, mas nem sempre, menor que o dos diretores de teatro). E o ator tem mais tempo de desenvolver seu personagem, seja pelos longos ensaios na preparação das peças, seja pela duração das temporadas de séries de televisão.

O que mais interessa no segundo longa-metragem para o cinema da série 'Arquivo X' é a relação entre Fox Mulder e Dana Scully, mesmo quando não estão juntos em cena, como ocorre na maior parte do filme. Graças aos muitos anos em que interpretaram os agentes do FBI, David Duchovny e Gillian Anderson sentem-se tão à vontade na pele de Mulder e Scully quanto quem veste uma roupa velha e confortável, dessas de ficar em casa.

Chris Carter sabe de tudo isso e foi muito esperto em abandonar a pirotecnia do primeiro longa e se concentrar no que mais interessava na série, os protagonistas. E também não se esqueceu de contar uma boa história de horror, do subgênero cientista maluco, com direito a vislumbres de um vilão que parece um cruzamento de dois discípulos na vida real do fictício doutor Frankenstein, os cirurgiões Serge Voronoff e Robert White. Isso sem falar em um mediúnico padre pedófilo. Mas não há porque ir ao cinema para conhecer esses sujeitos. São ótimos convidados para receber em casa, na telinha. 

 
 
 
Vanessa Liborio

Ronaldo Passarinho é documentarista, jornalista e tradutor. Assinou, por dez anos, a coluna ZOOM do jornal O Liberal, foi redator da revista Cinética e do Jornal do Brasil. Seus dois primeiros livros como tradutor devem ser lançados ainda este ano. Seu novo blog, Contos da Escuridão , traz traduções inéditas para obras-primas do horror e do sobrenatural

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