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25/08/2008 às 09h30
Roteiro para um filme que eu não gostaria de ver |
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FADE IN:
Em 29 de fevereiro deste ano, o site do Grupo Estação anunciou que “O Cinema Estação Paissandu, templo sagrado dos cinéfilos de todas as gerações, reabre com poltronas reclináveis na primeira fileira, menos poltronas para maior conforto do público, revestimento acústico, melhorias na projeção, banheiros e saguão reformados. O charmoso fumoir, apesar de não funcionar mais como fumódromo, continua charmoso, com mais sofás e um espaço reservado para os cadeirantes.”
CORTA PARA:
Apenas seis meses se passaram e o recém-reinaugurado “templo sagrado dos cinéfilos de todas as gerações” vai fechar de vez as suas portas. A nova geração parece não levar muito a sério esse papo de cinema como religião. Já faz tempo que salas de cinema deixaram de ser templos. Na era do paganismo digital, filmes podem ser vistos até em iPods. Não há mais templo, só sinagogas (que podem ser de bolso).
FLASHBACK:
“Os menores de 30 anos podem não acreditar, mas já houve um cinema no Brasil – uma sala de espetáculos, quero dizer – que resumiu todo o cenário de uma época e, em seu tempo, batizou uma geração que a protagonizou. O cinema era o Paissandu, uma modesta sala de 742 lugares na rua Senador Vergueiro, no bairro do Flamengo, no Rio. A época, os anos 1964-1968, os quatro primeiros do regime militar (que ainda se envergonhava de ser chamado de ditadura). E os jovens que o freqüentavam eram então conhecidos (mais pelos seus detratores) como a Geração Paissandu – uma vasta classificação que incluía rapazes e moças radicais em arte, política e comportamento, embora alguns ainda tivessem de dar satisfações à mãe quanto à hora de chegar em casa.”
De “Um filme é para sempre – 60 artigos sobre cinema”. O resto do texto de Ruy Castro, que pertenceu à Geração Paissandu, pode ser lido aqui: http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=180.
FLASHFORWARD:
Daqui a alguns anos será difícil acreditar que um dia existiram cinemas de rua “auto-sustentáveis”. O Olympia, em Belém, é mantido pela prefeitura. O Odeon, no Rio, é bancado pela Petrobras. Cinema em sala de cinema? Só em shopping center.
BACK TO THE FUTURE:
“Os exibidores geralmente estabeleciam seus nickelodeons em vias comerciais, perto de rotas de tráfego intenso, e nas cercanias ou dentro de áreas de compras ou entretenimento. Esses locais tiravam proveito do consumidor casual, de qualquer classe econômica, que poderia entrar nas salas para um breve período de relaxamento antes de continuar seu caminho”.
Do décimo segundo capítulo, assinado por Janet Staiger, do livro “The Classical Hollywood Cinema” (David Bordwell, Janet Staiger e Kristin Thompson) sobre os nickelodeons, as primeiras salas de exibição voltadas exclusivamente para o cinema, surgidas nos Estados Unidos no início do século XX.
FLASHBACK DE NOVO:
“Ronaldo Passarinho, Marco Moreira e o dono deste blog, se encontraram no comecinho deste ano, para um papo descontraído. É claro que o pilar do encontro cairia em uma paixão comum: o cinema. Tudo muito alegre. Mas algumas palavras me pegaram de surpresa e vieram do Moreira: “o contrato do Moviecom com o Cinearte termina em agosto e provavelmente eles não renovarão, queria que alguém arrendasse o local para fazer um projeto alternativo”. Pude entender como é difícil manter um espaço de exibição. Muitos distribuidores fazem jogo duro. O que resta para o exibidor é dançar conforme a música. Ou a grana aparece ou niente! Moreira naquele dia só nos avisou que o cemitério de cinemas de rua, em Belém, iria cavar mais três covas em agosto. No último dia 21 as portas se fecharam.”
Do blog Cinema na Mangueirosa (link nos meus favoritos aí ao lado), de Aerton 'Mark Lewis' Martins, sobre o fechamento dos cinemas 1, 2 e 3, da São Pedro.
EVERY CLOUD HAS A SILVER LINING:
O Cinema Estação Paissandu não fechará suas portas sem alarde. Em seu último fim de semana, de sexta a domingo, exibirá clássicos do cinema, em película, de meio-dia à meia-noite. A programação ainda não foi divulgada.
EXT. LARGO DE NAZARÉ – DIA OU NOITE, TANTO FAZ
Nas marquises dos cinemas Nazaré 1 e Nazaré 2, os luminosos, que não se acenderão nunca mais, anunciam: “Fechados para reforma”. Reformas que nunca foram sequer planejadas. O Paissandu, pelo menos, fechará suas portas com dignidade.
FADE OUT
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19/08/2008 às 08h00
Peixe grande |
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Estou convicto de que não sou tiete, de que nunca fui tiete e de que jamais serei tiete. Mas às vezes tiro férias. Fugi das minhas convicções na segunda-feira, dia 11. Fui com minha namorada, Sara Burle, à noite de autógrafos de “Em Águas Profundas”, de David Lynch. O livro é vendido como “uma mistura de autobiografia, história do cinema, ensaio espiritual e manual de meditação”. Ao contrário de um filme do Lynch, a capa do livro já desvenda o significado do título: “Se você quer pegar um peixinho, pode ficar em águas rasas. Mas se quiser pegar um peixe grande, terá que entrar em águas profundas”.
Deus do céu, não só dei uma de tiete e entrei em uma fila quilométrica para pegar autógrafo, mas para pegar autógrafo de um escritor de auto-ajuda, como Paulo Coelho. A diferença é que esse escritor de auto-ajuda dirigiu filmes geniais e eu levei DVDs para ele assinar. Mas Coelho é co-autor de algumas das canções que mais gosto de Raul Seixas e eu poderia levar CDs para ele assinar. A diferença é o topete, então. Lynch tem um topetão.
Lynch estava cercado de seguranças que tiravam os livros e DVDs da mão de quem estava na fila para serem assinados com antecedência, minimizando o contato com o ídolo. E os seguranças gritavam: “O livro! O livro”. Foi quase como se aproximar da Mona Lisa, com seguranças que bradam em várias línguas que é proibido tirar fotos com flash.
A Gioconda sorri enigmaticamente para seus visitantes. Lynch sorri francamente, olha no olho e aperta a mão. Foi estranho apertar a mão do Lynch. Foi bom apertar a mão do Lynch. Não sou, não fui e jamais serei tiete. Mas às vezes tiro férias.
A versão da Sara de nossa excursão pelo mundo da tietagem pode ser lida aqui: http://saraburle.blogspot.com.
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14/08/2008 às 09h24
Essa tal de mise-en-scene - parte I |
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Christopher Nolan acha extraordinária a habilidade do público atual, em comparação com a do público de “quarenta anos atrás”, de absorver “uma mise-en-scène fraturada” como a de seu filme “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. A observação de Nolan é acurada. Faz pouco mais de quarenta anos que a audiência começou a se acostumar com a fratura da mise-en-scène em filmes “comerciais” hollywoodianos como “A Primeira Noite de um Homem”, de Mike Nichols, e “Os Doze Condenados”, de Robert Aldrich, ambos de 1967. Mas antes de examinarmos a fratura, o que é, afinal, que foi fraturado? O que é essa tal de mise-en-scène?
O termo vem do teatro, de pôr em cena, encenar. Até François Truffaut e seus colegas dos Cahiers du Cinéma redefinirem o termo na década de 50, mise-en-scène significava, simplesmente, direção. O diretor de um filme era o metteur en scène. Os críticos dos Cahiers insistiram na diferença entre mise-en-scène e edição para justificar a autoria de cineastas hollywoodianos que, na maioria das vezes, não tinham controle na montagem dos filmes que dirigiam. “Soberba” (The Magnificent Ambersons, 42), por exemplo, foi montado por Robert Wise à revelia de Orson Welles, que estava no Brasil, mas é um filme de Welles, e não de Wise, graças à mise-en-scène.
A “politique des auteurs” praticada pelos críticos dos Cahiers nos anos 50 foi revolucionária. “É preciso saber que o roteiro de um filme não é o filme”, sentenciou Truffaut décadas depois, em 1975 no prefácio de sua coletânea de críticas intitulada “Os filmes da minha vida” (que é um dos livros da minha vida). E, ao contrário do que pregavam os primeiros teóricos do cinema, que viam na montagem o diferencial entre a sétima e outras artes, a montagem de um filme também não é o filme. Sergei Eisenstein era admirado pelos críticos dos Cahiers mais como o grande metteur en scène de “Ivan, o Terrível” do que como o frenético montador de “O Encouraçado Potemkin”. Não há mise-en-scène de verdade sem atores em planos diferentes numa mesma tomada, alega Eric Rohmer. Segundo essa formulação radical, não há mise-en-scène, a priori, em qualquer filme onde um personagem se encontre numa ilha deserta. Qualquer versão para o cinema das aventuras de Robinson Crusoé só teria direito à mise-en-scène com a entrada em cena do índio Sexta-Feira.
A definição de François Truffaut para o termo era mais abrangente. Para ele, a mise-en-scène engloba “a posição da câmera, o ângulo escolhido, a duração da tomada, o gesto de um ator”. Já Eisenstein distinguia entre mise-en-scène, como o arranjo da ação, e mise-en-cadre¬, como a encenação em relação à câmera. E, para David Bordwell, movimentos de câmera pertencem à cinematografia, à manipulação da câmera, não à mise-en-scène.
Não é à toa que a mise-en-scène já foi chamada de “o grande termo indefinido” das teorias do cinema. Não por falta, mas por excesso de definições, muitas vezes conflitantes. Outro grande problema é a confusão entre gosto e juízo de valor. Para muitos, a “verdadeira” mise-en-scène só é encontrada em tomadas estáticas com profundidade de campo, o que levou Roger Leenhardt a publicar, em 1948, um famoso artigo intitulado “Abaixo John Ford! Vida longa a William Wyler”.
(continua)
* texto publicado na coluna ZOOM do jornal O Liberal de 10/08/08. |
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06/08/2008 às 17h31
A verdadeira maionese |
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Não agüento mais abrir o jornal e dar de cara com críticas ideológicas pró ou contra “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, de Christopher Nolan. Cansei. Três dos seis colunistas que se revezam na contracapa do Segundo Caderno do Globo já escreveram sobre o filme. Arnaldo Jabor o reviu e repetiu em um segundo texto tudo o que já dissera no anterior. Artur Xexéo também escreveu duas vezes sobre o filme e fez questão de deixar claro que não tem nada a dizer. Arnaldo Bloch defendeu Jabor, atacou Xexéo e aposto que voltará ao assunto esta semana.
“A principal censura que se pode fazer a alguns críticos – ou a algumas críticas – é raramente falarem de cinema”, escreveu François Truffaut no prefácio da coletânea “Os filmes da minha vida”, editado na França em 1975. Justiça seja feita, nem Jabor nem Bloch nem Xexéo são críticos de cinema, portanto não merecem essa censura.
O que li de mais estimulante sobre “Batman – O Cavaleiro das Trevas” foi o comentário que Breno Yared deixou aqui no blog: “o diálogo final entre o Coringa e Batman - com aquele de cabeça para baixo e este, não - tem uma das mais espetaculares composições de mise en scène que vi nos últimos anos. Para quem não prestou atenção, apenas imaginem uma carta de baralho, depois prestem atenção nas coisas que o Coringa diz. Sublime! Eu pretendo rever todos os filmes de Nolan.”
Não vi muita mise-en-scène nem na cena em questão nem no filme em geral. Acho que o efeito da cena, e do filme, deve mais à cinematografia, ou seja, à manipulação da câmera, e à edição do que à encenação, mas o termo mise-en-scène não significa a mesma coisa para todo mundo. Vou tentar decifrar o que é essa tal de mise-en-scène na coluna ZOOM do próximo domingo. E acho a revisão dos filmes de Nolan perda de tempo para entender o fenômeno que é “Batman – O Cavaleiro das Trevas”.
No mesmo prefácio que citei acima, Truffaut escreveu que, aos vinte anos, “censurava André Bazin por considerar os filmes como maioneses que desandavam ou não”. Sua censura virou manifesto em 1954 quando publicou o ensaio “Uma certa tendência do cinema francês”, marco zero da “politique des auteurs”. Truffaut conta que dizia a Bazin: “Você não está vendo que todos os filmes de Hawks são bons e todos os de Huston ruins?”. Depois que se tornou crítico, ele diz ter se esforçado para amenizar essa “fórmula brutal” refinando-a para “O pior filme de Hawks é mais interessante que o melhor filme de Huston”. E quando escreveu o prefácio, já cineasta consagrado, admitiu: “Hoje, muitos hawksianos e hustonianos tornaram-se diretores de cinema. Não sei bem o que uns e outros pensam de La politique des auteurs, mas tenho certeza que todos nós acabamos adotando a política de Bazin sobre a maionese”.
Sempre rezei e continuo rezando pela cartilha do autor. Mas há filmes que não dependem apenas do talento do diretor, assim como não é preciso ser um grande cozinheiro para acertar na maionese. Às vezes basta seguir a receita. Christopher Nolan dirigiu, até agora, dois filmes do Homem-Morcego. “Batman Begins” desandou, “The Dark Knight” não. Pode ser que o próximo da franquia desande, mas “Batman – O Cavaleiro das Trevas” é maionese de primeira. |
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30/07/2008 às 19h09
Batman, o reacionário? |
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“Batman – O Cavaleiro das Trevas” é “chato, ruidoso e reacionário”. Quem escreveu isso foi um dos nossos melhores críticos de cinema, Inácio Araújo. Ruidoso o filme é, mas acho que é um caso raro de blockbuster em relação ao qual não se pode apelar para o lugar-comum de citar Macbeth e dizer que faz muito barulho por nada. Chato? Minha bexiga queria que eu fosse embora da sala meia hora antes do final, mas não consegui me levantar da cadeira. E daí? Música para uns é barulho para outros, o que me desperta faz muita gente dormir, e vice-versa. Questão de gosto. E gosto não se discute. Mas o último atributo dado para o filme por Inácio é discutível.
Há uma grande diferença entre dizer que Batman, o personagem, é reacionário, e que “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, o filme, é reacionário. Inácio complica ainda mais as coisas quando escreve: “Dizem que este é o Batman de Frank Miller (e o Coringa também). Talvez seja isso mais que tudo. Aquele ‘Sin City’ já era isso e não engoli de jeito nenhum. É um investimento no pior, na baixeza, na podridão.”
E agora? Quem ou o que é reacionário? O filme de Christopher Nolan ou as histórias em quadrinhos de Frank Miller? O próprio Batman? Nolan? Miller? Bob Kane, que criou o personagem? Todas as opções acima?
Seguindo a lógica de Inácio, se Bush é Batman, Osama bin Laden ou o arquiinimigo da vez dos Estados Unidos (que já foi Sadam Hussein e hoje é Mahmoud Ahmadinejad) é o Coringa. Mas desde “Batman Begins”, de 2005, Nolan deixou claro que o Coringa só existe por causa do Batman. Se a alegoria for tão clara quanto quer Inácio, o filme acertadamente responsabiliza Bush e seus antecessores por Bin Laden, Sadam e Ahmadinejad. Mas que diabo de filme reacionário é este que atribui ao herói o surgimento do vilão?
“Não haveria este Batman sem Osama; não está no enredo, está no ar”, escreveu Arnaldo Jabor, que compara o Coringa não só a bin Laden, mas a Muhhamed Atta, “o chefe dos terroristas do 9/11. Ele não tinha religião, não cria em Alá, não tinha ideologia política, era químico na Alemanha, não tinha motivos”. Só pode ser o Coringa! Para Jabor, o filme tem “raízes moralizantes e aristotélicas”, que apesar de “bem escondidas, sem dúvida”, estão lá.
Não tão bem escondidas, pelo visto, já que Inácio e Jabor, “sem dúvida”, mataram a charada: o filme é reacionário. Uma alegoria da era Bush. E pró-Bush.Vai ver que os magníficos faroestes de vingança que Anthony Mann dirigiu com James Stewart na década de 50 também são, “sem dúvida”, reacionários. Jabor só não economiza merecidos elogios para o falecido Heath Ledger que, como Johnny Depp em “Piratas do Caribe” e Anthony Hopkins em “O Silêncio dos Inocentes” estariam “adiante dos filmes que lhes pagam”.
Como todo crítico apocalíptico da indústria cultural, fascinado pelo produto que supostamente rejeita, Jabor não consegue conter seu entusiasmo pelo “plano inesquecível” do Coringa “saboreando o vento fresco da noite na janela de um carro, com sua cara de palhaço desenhada por um Pollock ou Rauchenberg”, plano que certamente deve pelo menos um pouquinho ao diretor do filme, Christopher Nolan, a não ser que Ledger também tenha dirigido as cenas em que aparece.
É claro que Nolan sabia que sua obra-prima seria alvo de leituras ideológicas, referenciais, não apenas intertextuais. “Batman – O Cavaleiro das Trevas” propositalmente abre espaço para essas leituras em diálogos como o travado entre Batman e Lucius Fox sobre a ética de invadir a privacidade dos cidadãos rastreando o Coringa através de telefones celulares. O que Nolan certamente não fez foi reduzir seu filme a óbvias metáforas políticas para Inácio e Jabor “decifrarem”.
“Pensava em ver mais um show tipo ‘Missão Impossível’, mas não é. É mais”, escreveu Jabor. Nisso ele tem razão. “Batman – O Cavaleiro das Trevas” merece mais do que supérfluas leituras ideológicas que já foram antecipadas e problematizadas pelos criadores do filme. É bem mais que uma simples alegoria. De simples, aliás, nem o filme nem o personagem têm nada.
Na coluna ZOOM do próximo domingo, vou falar sobre a longa linhagem de vingadores e justiceiros que o “reacionário” Batman representa. Qualquer dia desses, eu talvez até consiga falar do filme de Nolan como cinema.
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De peruca loura e uniforme de enfermeira, com o passo trôpego de uma marionete escangalhada, o Coringa sai do maior hospital de Gotham com um controle remoto na mão. E controle remoto na mão do Coringa é sinal de explosão. Ele avisou que explodiria um hospital se alguém não calasse de vez o estraga-prazer que ameaçara revelar a identidade secreta do Batman e acabar com a brincadeira, deixando o Coringa sem sua cara-metade. E Coringa sem Batman é palhaço sem circo.
James Gordon e Bruce Wayne impedem a morte do delator. Bum! Lá se vai o hospital. Mas o hospital não explode de uma só vez. Depois das primeiras explosões, o controle falha. Como uma criança contrariada porque seu brinquedinho emperrou, o Coringa aperta de novo e de novo o botão até detonar as outras bombas. O espectador não vê, mas imagina a carnificina.
Imediatamente após o atentado terrorista, ou melhor, anarquista, James Gordon é informado de que o hospital fora evacuado a tempo. Mas é tarde demais para o espectador. Já “vimos” os corpos despedaçados dos pacientes e dos funcionários. O efeito da cena é o mesmo do filme. Ninguém se machucou na explosão, o bem vence o mal no final, mas o estrago está feito.
“A existência de gêneros significa que o espectador sabe que tudo vai dar certo no final, que tudo vai terminar a contento, que qualquer ameaça ou perigo no processo narrativo sempre será contida”, escreveu Stephen Neale em 1980. Christopher Nolan, produtor, diretor e co-roteirista de “Batman - O Cavaleiro das Trevas”, não foge da política do “bate e assopra” comum a filmes dos mais diversos gêneros. Mas bate com muito mais força do que assopra. Ele quer que o espectador saia dolorido da sessão. Só que nem todo espectador gosta de apanhar. Pelo menos não de filmes de gênero. E, mesmo entre os que gostam, há quem se ressinta quando o consolo é menor que a pancada. David Edelstein, do New York Times, é um desses.
Ele assinou a primeira das poucas críticas negativas que o filme recebeu até agora (e que pode ser lida aqui). Começa assim: “Ainda que a morte de Heath Ledger já não houvesse envolvido o filme em uma mortalha, ‘Batman – O Cavaleiro das Trevas’ seria um acontecimento mórbido: só poderia ser mais sombrio se Batman morresse (ele morre um pouco, por dentro)”. Para mim, isso soa como elogio. Mas Edelstein diz não ter gostado do que viu. Ou do que sentiu. Apesar de seu evidente fascínio pelo filme, ele o considera “barulhento, confuso e sádico”.
Passando do filme de Nolan à adaptação para o cinema do musical da Broadway “Mamma Mia!”, Edelstein se vale da ópera “O Crepúsculo dos Deuses”, de Richard Wagner, e do poema “A Segunda Vinda”, de W. B. Yeats, para expressar sua perplexidade: “Quem poderia imaginar quando Meryl Streep ganhou seu Oscar por ‘A Escolha de Sofia’ que, 25 anos depois, ela estaria fatuamente cabriolando ao ritmo de canções do ABBA enquanto, na sala ao lado do multiplex, Batman reencenaria o Götterdämmerung? Alta cultura, baixa cultura, o centro não está suportando.”
Sem querer, Edelstein fez um dos maiores elogios que o filme poderia receber. A obra-prima de Christopher Nolan é a indústria cultural explodindo a distinção entre “alta” e “baixa” cultura. Voltamos ao teatro elisabetano. Se o Coringa é a “anarquia solta no mundo” do poema de Yeats, “Batman – O Cavaleiro das Trevas” é a bomba no centro. Bum! |
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23/07/2008 às 15h00
O grande nivelador |
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Adolfo Gomes me perguntou, por email: “Já viu o novo Batman? É o filme da década, meu caro! Pelo que representa de possibilidades... Não se trata de interpretações, atores ou atrizes em grande forma, mas de cinema... Cinema feito por um realizador até então medíocre e dentro dos grandes estúdios. É algo restaurador... Escrevi algumas bobagens no blog, mas nada que se compare com o impacto que senti... O cinema de arte morreu! Ainda bem!”
As “bobagens” que Adolfo escreveu podem ser lidas no blog Bressonianas (link nos meus favoritos aí ao lado). E devem ser lidas. Adolfo faz uma lúcida e apaixonada defesa do cinema de estúdio sendo produzido hoje em Hollywood. Ainda não vi “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, mas não tenho dúvida de que pode, sim, ser uma obra-prima, mesmo tendo sido dirigido por Christopher Nolan, “realizador até então medíocre”, como observou Adolfo em seu email. E justamente por ser um filme de estúdio. O sistema de estúdios de Hollywood é um grande nivelador. E tem nivelado por alto.
Para dar apenas alguns exemplos, Steven Spielberg deixou o sentimentalismo de lado e dirigiu um dos melhores filmes da década, “Munique”, um lodaçal moral e um thriller de espionagem como há muito não se via. Martin Campbell, diretor da medíocre franquia do Zorro com Antonio Banderas, assinou “007 - Cassino Royale” e fez por James Bond o que Frank Miller fizera nos quadrinhos por Batman. Até mesmo Ridley Scott acertou a mão em “O Gângster”.
Diretores agressivamente autorais e funcionários de estúdio têm se aproveitado da crise do modelo blockbuster para revitalizar a indústria, assinando filmes que misturam sofisticação técnica e confusão temática, como no breve período entre o fim dos anos 60 e começo dos 70. Eu já escrevi sobre o assunto para a Revista Cinética, em texto que pode ser lido aqui: www.revistacinetica.com.br/euaronaldo.htm
A maior sacada de Adolfo foi enfatizar que “Esse renascimento do cinema popular, em larga escala, não apenas atualiza um legado, é uma questão de sobrevivência para o formato de distribuição que conhecemos: o da sala de exibição.”
É cinema feito para ser visto em sala de cinema. E isso vale tanto para “Zodíaco”, de David Fincher, quanto para “Síndromes e um Século”, de Apichatpong Weerasethakul. Já telefilmes disfarçados de cinema, sejam representantes do “cinema independente” americano, como “Pequena Miss Sunshine” e “Juno”, ou de “filmes de arte” europeus, como “A Culpa é do Fidel!” e “Adeus, Lênin!”, não exigem nem merecem mais do que a telinha.
O “cinema de arte” morreu! Vida longa ao cinema. |
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