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CONFIRA: As fotos da galera que circula na night paraense
 
11/03/2010 às 10h48
Promessa
 

Se a trama de “Guerra ao Terror” fosse ambientada em uma galáxia distante, em um futuro remoto, será que o filme teria levado tantas estatuetas no Oscar, inclusive a de melhor filme? Acho que teria tantas chances quanto “Distrito 9”. Ficção-científica por ficção-científica, a Academia ficaria com “Avatar”. Por melhor que seja, o filme de Kathryn Bigelow foi premiado por se passar agora e logo ali, no Iraque. 


Não há nada de surpreendente nisso. Por critérios estritamente cinematográficos, acho difícil que algum dos concorrentes desbancasse “Bastardos Inglórios”. Mas nenhuma premiação no mundo se baseia em critérios estritamente cinematográficos. Até por que não existe consenso sobre quais sejam esses critérios. Não sou relativista. Acredito em valores absolutos (ou pelo menos na validade da ficção de que existem valores absolutos). Mas sei que há mais do que julgamento estético em jogo quando David Bordwell, o mais imparcial dos críticos, reclama do abuso de câmeras na mão e sente saudade do bom e velho tripé. E sei disso porque eu também sinto. 


Vou falar mais sobre este assunto na semana que vem. Nesta, vou cumprir a promessa de publicar a explicação que Marco Antônio Moreira me deu sobre a razão de alguns filmes demorarem a entrar em cartaz em Belém. Segue o texto do Marco:


“A questão principal é que, devido à pirataria, que causa altos prejuízos para as distribuidoras, o número de cópias dos filmes para serem lançados nos cinemas foi diminuindo. Claro que não estou me referindo aos ‘blockbusters’, que sempre têm muitas cópias para os cinemas... Só para lembrar, antigamente a maioria dos filmes tinha um lançamento de alcance nacional. Mas nem sempre foi assim.

 

Quem é mais velho, vai se lembrar que até  inicio dos anos oitenta, com algumas exceções, os filmes passavam primeiro no sul do país e depois chegavam às outras praças, do norte e nordeste. De 1982 até mais ou menos 2004, esse esquema mudou e quase todos os filmes eram lançados simultaneamente nas capitais, mas devido à pirataria, entre outros fatores, houve uma diminuição na confecção de cópias dos filmes e geralmente os filmes são lançados primeiro nas praças onde a rentabilidade é maior.


Por isso, não  é só Belém que vive este problema de ‘atraso’ nos lançamentos.

Espero que este panorama mude em breve, mas, por enquanto, esta é uma informação que precisa ser conhecida pelos cinemaníacos da nossa cidade.”


Pronto. Promessa cumprida. Sou velho o bastante para ter vivido todas as fases que o Marco menciona, mas dei sorte de estar morando no Rio de Janeiro durante a última. E senti coceira na minha perna de pau lendo o texto. Ou terá sido no olho de vidro?

 
 
 
02/03/2010 às 13h56
Dourados
 

A disputa pelos carecas dourados este ano está morna. A premiação de melhor filme e melhor diretor virou briga de casal. Dois prêmios merecidos já estão praticamente entregues, o de melhor ator para Jeff Bridges e o de melhor ator coadjuvante para Christoph Waltz. Não vi o filme pelo qual Bridges concorre, mas já está mais do que na hora de “The Dude” ganhar seu Oscar. Sandra Bullock deve reprisar o feito de Gwyneth Paltrow, que ganhou de Fernanda Montenegro, e levar o Oscar de melhor atriz, apesar de concorrer com Helen Mirren e Meryl Streep. A única chance que Quentin Tarantino tem de subir no palco é se ganhar por melhor roteiro.

Bem mais emocionante é a disputa que envolve outro Dourado. O sujeito é uma peça. Sua atitude em relação aos gays da casa é a mesma do racista que diz que não é racista porque tem amigos negros. Desde que o Serginho não fale em sacanagem entre iguais na hora das refeições, tudo bem. Afirma que em mulher não se bate, mas diz que se estivesse fora da casa teria enchido a Angélica de porrada. E nem deve achar isso uma contradição. Afinal, a Morango é lésbica, logo não é mulher. Mas na hora de cortar simbolicamente a cabeça da Anamara durante uma prova, mutilou o rosto e os seios do boneco que a representava, com um prazer tão perverso quanto o de Archibaldo de la Cruz em “Ensaio de um Crime”, de Luis Buñuel, ao queimar um manequim por não poder assassinar a mulher que serviu de modelo. Isso é gostar de mulher?

No entanto, Dourado é o queridinho desta edição. É o macho alfa. O cara que arrota e palita os dentes na mesa depois das refeições (mas pelo menos não lambe o prato, como faz o Eliéser). O brutamontes que não leva desaforo para casa. Acho que boa parte do público que torce pelo ex-Moicano espera que ele se redima. Que termine o programa abraçando fraternalmente o Dicesar e cantando “I Am What I Am”. Vão esperando. O Dourado foi, é e continuará sendo um escroto. Parafraseando Os Paralamas do Sucesso, o BBB não é filme, você não entendeu. Mas continua sendo, em sua décima edição, o melhor programa da TV aberta.   

E já que falei em “I Am What I Am”, deixo este vídeo com a melhor interpretação da música, pelo grande George Hearn, em homenagem ao Dourado:

 
 
 
22/02/2010 às 07h44
Faltou Godzilla
 

Dos dez concorrentes a melhor filme no Oscar deste ano, eu só assisti a dois: 'Bastardos Inglórios' e 'Distrito 9'. Já era um sacrifício ver todos quando eram apenas cinco. Geralmente só um ou dois se salvavam. E raramente os que se salvavam eram premiados. A cerimônia de 2008 foi uma exceção. Só um não valia nada: 'Juno', de Jason Reitman, diretor do igualmente insuportável 'Obrigado por Fumar'. Reitman concorre este ano com 'Amor Sem Escalas', mas é preciso ler três livros do Paulo Coelho para constatar que o cara não sabe escrever?

'Um Sonho Possível', de John Lee Hancock, passou abaixo do meu radar. Não sei se pela sinopse ou por Sandra Bullock. 'Educação' é dirigido por uma dinamarquesa cheia de xaropadas no currículo e tem roteiro de Nick Hornby, especialista em xaropadas. 'Up – Altas Aventuras' está na categoria errada. 'Preciosa' entrou na lista de Quentin Tarantino dos dez melhores filmes de 2009, mas entra de tudo em listas do Tarantino. Estou tomando coragem para ver os filmes do ex-casal 20, James Cameron e Kathryn Bigelow. E o novo filme dos irmãos Coen, os grandes vencedores do Oscar em 2008, ainda não estreou por aqui.

Já falei bastante sobre 'Bastardos Inglórios'. O que dizer de 'Distrito 9'? É um 'fan flick' de grande orçamento e um blockbuster de baixo orçamento. É como se alguém tivesse investido em 'Firelight', o curta-metragem que Steven Spielberg dirigiu em 1964, treze anos antes do lançamento de 'Contatos Imediatos do Terceiro Grau', filme que Neill Blomkamp finge satirizar.

Os filmes de Tarantino e Blomkamp são dirigidos por fãs. Mas enquanto Tarantino põe à mostra suas referências, Blomkamp quer apenas reproduzir o efeito das obras que emula. O protagonista de 'Distrito 9' poderia ter saído da série 'The Office' (a original inglesa ou a cópia americana, tanto faz) e sofre uma mutação no estilo 'Tetsuo', de Shinya Tsukamoto, e 'A Mosca', de David Cronenberg, com momentos de 'Robocop'. O final, depois de uma hora e meia de alegoria pesada, é puro Spielberg.

'Distrito 9' é constrangedor como alegoria, ineficaz como filme de ação e boboca como ficção-científica. Mas tem uma sinopse interessante. Quando perguntaram a Robert Altman por que 'Nashville' não fora bem de bilheteria, ele respondeu: 'Porque não tinha King Kong ou um tubarão'. Entendo a amargura de Altman, mas um monstrinho às vezes faz falta. Pelo menos três dos candidatos ao Oscar melhorariam muito com uma referência a Godzilla em suas sinopses:

'Um jovem negro morador de rua, vindo de um lar destruído, é ajudado por uma família branca que acredita em seu potencial. E NO FINAL SÃO TODOS ESMAGADOS POR GODZILLA!'

'No período após a Segunda Guerra Mundial, nos subúrbios londrinos da era anterior aos Beatles, uma jovem brilhante está dividida entre se preparar para estudar em Oxford e a opção mais empolgante oferecida por um carismático homem mais velho. E O CASAL É DESTROÇADO POR GODZILLA!'

'Logo após dar a luz ao seu segundo filho, adolescente afro-americana começa a buscar um meio para melhorar sua vida e conta com a ajuda de uma professora. E LOGO DEPOIS É DEVORADA POR GODZILLA!'

Assim o Oscar seria bem mais divertido.

 
 
 
10/02/2010 às 08h14
A pátria de chuteiras
 

Eu me rendi ao Twitter, mas não consigo completar um pensamento em 140 caracteres, portanto dividi meu primeiro post em quatro partes. Leiam em twitter.com/ronaldopassaro.

Mesmo levando em conta o alto padrão de redundância dos roteiros hollywoodianos, o de 'Invictus' exagera, enfileirando alguns dos diálogos expositivos mais canhestros dos últimos tempos, muitas vezes recitados por personagens meramente funcionais. É difícil escolher o pior, mas meu favorito ocorre perto do clímax, quando um segurança de Mandela explica para outro o que é prorrogação. Cinema, no entanto, não é roteiro.

O primeiro grande momento cinematográfico do ano é o das ruas desertas de uma cidade, varridas pelo eco da torcida vindo de um estádio. A cena se passa em Joanesburgo, durante a final da Copa do Mundo de Rúgbi, no Ellis Park, em 1995. Mas o estádio poderia ser o Maracanã e a cidade, o Rio de Janeiro. Ou qualquer lugar onde a paixão pelo esporte esvaziasse as ruas durante uma final.

O que seria impensável em um filme brasileiro, ou melhor, em qualquer filme não-hollywoodiano, é a sequência intercalada em que um garoto negro se aproxima de um carro de polícia na porta do estádio para ouvir o jogo transmitido pelo rádio. Os policiais, brancos, a princípio reagem com hostilidade, mas logo o garoto está sentado no capô da viatura, bebendo Coca-Cola oferecida por eles, e termina sendo carregado em comemoração à vitória do time sul-africano.

Imagine a mesma cena em um filme nacional, só que entre policiais e um favelado durante uma final no Maracanã. O diretor e o roteirista seriam, com razão, trucidados pela crítica. Só em comercial de refrigerante a pieguice e o didatismo da cena seriam aceitáveis. Quem já comemorou uma vitória esportiva, contudo, sabe que cenas assim são perfeitamente possíveis. 

No clímax de 'Invictus', a mise-en-scène gira em torno da euforia do torcedor. Assim como Nelson Mandela, então presidente da África do Sul, quis unir o país através do rúgbi na Copa do Mundo, Eastwood quer unir a plateia na torcida pelo time no filme. É o kitsch justificado pelo real, a pieguice pelo possível. Ainda que a euforia tenha durado pouco, Mandela e François Piennar, capitão do time, realmente conseguiram transpor barreiras raciais durante a final da Copa do Mundo de rúgbi de 95.

Quando o jogo termina, Mandela diz aos seus guarda-costas que não tenham pressa em conduzi-lo de carro pelas ruas apinhadas por negros e brancos que comemoram a vitória. Ele sabe que a euforia é passageira e quer aproveitar o momento. Clint Eastwood não quer e não precisa ir além disso. A grandeza de “Invictus” é tornar esteticamente possível o que seria eticamente inaceitável. E isso é direção.

 
 
 
02/02/2010 às 18h00
O Ministério e o mistério da Arte
 

No post anterior, reproduzi trechos do desprezível artigo 'Uma nova receita para o cinema brasileiro', de Domingos Oliveira, no qual ele defende a criação de um Ministério da Arte no Brasil. Mateus Moura, em comentário ao post, escreveu que 'O papo do Ministério e da salvação do pobre pelo Domingos é papo de bêbado nonsense”. Antes fosse. A voz de Oliveira sem dúvida não é a do povo, ainda que ele certamente ache que seja a de Deus, mas é a voz de grande parte dos responsáveis pelo atraso do cinema nacional.

Oliveira se antecipa ao leitor que porventura se pergunte o que é um filme de arte: “arte é aquilo que lembra os homens dos seus melhores valores. A honra, o amor, a dignidade etc. A arte é que ensina o homem a lutar contra a corrupção, contra a discriminação, contra a desigualdade social. E ela é boa nisso. Temos de fazer filmes populares de arte. Ou até impopulares, porém de arte.” Em outras palavras, arte é cartilha.

Ele continua a responder perguntas que todo leitor sensato faria: “Mas como vamos saber o que é um filme de arte? A coisa é muito subjetiva, etc.’ Que comissão julgaria esses filmes de arte? A pergunta é absolutamente inadequada. Mais que isso, é uma falácia imoral (...) A verdade é que qualquer criança, qualquer homem de bem, qualquer pessoa séria, sabe imediatamente distinguir o que é arte e o que não é, o que é o Bem e o Mal, o que é a Ordem ou Caos, o que é motivo de viver ou morrer, o que faz crescer ou diminuir. Estaríamos perdidos se isso não acontecesse.”

'Falácia imoral' é uma boa definição do artigo de Oliveira. Parte de um pressuposto absurdo para justificar uma proposta indecente. Durante anos, cineastas como Howard Hawks, Nicholas Ray e Alfred Hitchcock foram considerados meros artesãos, não artistas. Isso para não falar em Lucio Fulci, Inoshiro Honda e no nosso José Mojica Marins, que não são levados a sério até hoje por muitos homens de bem. Quem seriam esses homens de bem, essas pessoas sérias que formariam comissões para julgar o que é arte e o que não é? Eu confiaria mais em crianças que destinassem verbas ao próximo filme da Xuxa do que em Oliveira e seus pares.
  
O que Domingos Oliveira não leva em conta é o que Kipling sabia de cor. Que desde que Adão se encheu de orgulho ao rabiscar no barro o primeiro desenho do mundo, o Diabo sussurrou em seu ouvido: “It's pretty, but is it Art?” Essa é uma pergunta que nenhum ministério pode responder.


 

 
 
 
28/01/2010 às 12h30
O triunfo da vaidade
 

A gente sabe que Domingos Oliveira é um dos melhores cineastas brasileiros porque ele faz questão de nos dizer isso: “Já fiz alguns filmes, não sei se o leitor os admira. Isso não importa. É certo que me coloco no melhor nível do cinema brasileiro. E cada vez, na medida em que tenho espaço, é mais difícil para mim fazer um filme. Convenhamos: há alguma coisa errada. Na verdade, creio que está tudo errado.” Lógica implacável. 

O autoproclamado diretor de alto nível começa seu estapafúrdio artigo “Uma nova receita para o cinema brasileiro”, publicado no jornal O Globo no dia 27 de janeiro, afirmando que o “cinema é uma arte, antes de tudo”, mas “nos países ricos, particularmente Estados Unidos, Índia e Japão, o cinema é uma indústria”, o que não acontece no Brasil. 

Concordo que o cinema não é uma indústria por aqui. Mas discordo de todas as outras afirmações de Oliveira. O cinema é, antes de tudo, uma indústria. Se não funciona assim no Brasil, mas funciona em um país “rico” como a Índia, devemos dar um jeito para que funcione. O que impediu o cinema de estagnar, ao contrário do que aconteceu com as artes plásticas, por exemplo, foi justamente o fato de ser indústria, de não ter perdido o contato com o público.

Outro cineasta das antigas, Júlio Bressane, disse com furor adorniano à revista Época que seu cinema “não depende do público porque eu sou o público. Não existe o público. É outra coisa que foi uma das vitórias da tirania, foi se criar essa ideia de público, como se houvesse um público, ou como se houvesse um filme de público. O filme de público foi o que destruiu o cinema brasileiro.” Como todo crítico apocalíptico da chamada indústria cultural, Bressane é claramente fascinado pelo que despreza e se trai ao repetir sete vezes nesse trechinho a palavra “público”. 

As peças de Shakespeare estão entre as mais altas conquistas do espírito humano — e foram escritas para o público, que certamente não foi inventado pela ditadura nem por Hollywood e já existia bem antes do período elisabetano. Mas, para Bressane, o que ocorre hoje “É um processo imenso de mediocrização de tudo. Essa questão das artes foi colocada no campo do entretenimento, no sentido mais bruto e piegas dessa expressão americana, entertainment. Foi reduzida a isso. Esse cinema de arte e de experimento desapareceu.” Oliveira segue a mesma linha de pensamento ao escrever que “Não é necessário que um país pobre como o nosso gaste tanto dinheiro em entretenimento. Não é necessário fazer filmes no Brasil. É necessário fazer bons filmes no Brasil”.

E o que é um bom filme para Oliveira? O bom e velho “filme de arte”. Ele explica: “Material básico não nos falta. Ser brasileiro é ser artista. O filme de arte não é necessariamente impopular. Basta lembrar Charles Chaplin, Scorsese e muitos outros. Ele apenas nega o princípio de que o povo só ri de piadas que já conhece. Isto é menosprezar o público. O cinema brasileiro que quiser alcançar o povo brasileiro não terá que perguntar o que ele quer, porque povo pobre não sabe o que quer. Terá que dar-lhe o que ele precisa. De modo que aqui venho de novo defender a criação urgente do Ministério da Arte.”

Fora o lugar-comum de “ser brasileiro é ser artista” e a falácia de usar como exemplos de artistas dois cineastas que tanto se beneficiaram do fato de o cinema ser antes de tudo uma indústria, o que há de mais repelente no parágrafo acima é sugerir que não menosprezar o público é dar ao público o que ele precisa, “porque povo pobre não sabe o que quer”. E como fazer isso, camaradas? Com a “a criação urgente do Ministério da Arte.” Dirigismo pouco é bobagem.

Não há frase no artigo de Domingos Oliveira que não possa ser refutada. Mas meu estômago é fraco. O Barretão ter subestimado “Avatar” não passou de uma asneira. Mas o artigo de Oliveira é simplesmente asqueroso. Termina assim: “Sei que essa colocação escorrerá pela parede da burocracia, como se tivesse jogado um ovo ali. Não me importa. Estou certo. Portanto, um dia, provavelmente depois da minha morte, vencerei.” Sig heil!

 
 
 
26/01/2010 às 08h00
Dois cavalheiros extraordinários e uma dama fatal
 

'Sherlock Holmes' é filme para se ver em casa. A começar pelo formato não fede nem cheira de 1.85:1. Para filmes que aspiram à condição de blockbusters, a sala de cinema é apenas uma parada ainda obrigatória entre a ilha de edição e os aparelhos de TV 16:9. Seguindo o exemplo de Guy Ritchie, portanto, vou deixar o cinema de lado. O que resta é uma ideia perfeitamente válida e uma história mal contada.

Ao contrário de outros fãs do detetive criado por Conan Doyle, eu acho justíssima a ideia de fazer de Holmes e Watson uma dupla de super-heróis: o Batman e Robin vitorianos. Com direito a Mulher-Gato: a bela Irene Adler. Até porque a comparação não é gratuita. Duplas como Batman e Robin não existiriam sem Holmes e Watson. E o filme presta homenagem a Batman ao dar a Holmes um cinto de utilidades. Holmes, assim como Batman, sempre foi bom de briga, e duas cenas de luta servem de exemplo para o amadorismo do roteiro. Michael Robert Johnson e seus colegas acertaram em aliar dedução e ação para explicar a destreza de Holmes: ele analisa as fraquezas e antecipa os golpes de seus adversários. Frank Miller fez isso antes na graphic novel “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, o que não empana o brilho dos roteiristas. O problema é que tem uma briga a mais ou a menos no filme.

Vemos duas vezes, em câmera lenta, Holmes antecipando os golpes que dará em seus adversários. Depois vemos os golpes em velocidade normal. A segunda vez é desnecessária. Só se justificaria se houvesse uma terceira, no clímax, em que Holmes antecipasse erradamente um dos golpes. Neste caso, um é bom, dois é amadorístico, três seria profissional.

Além de tropeços como esse, o filme peca por tentar agradar a todo mundo. Acaba não agradando totalmente nem aos fãs de Holmes, nem a quem vai ao cinema só para comer pipoca, nem a quem espera um bom filme. Mas quem joga pelo empate não merece a vitória. Guy Ritchie deveria saber que isso é elementar.

 

 
 
 
Vanessa Liborio

Ronaldo Passarinho é documentarista, jornalista e tradutor. Assinou, por dez anos, a coluna ZOOM do jornal O Liberal, foi redator da revista Cinética e do Jornal do Brasil. Seus dois primeiros livros como tradutor devem ser lançados ainda este ano. Seu novo blog, Contos da Escuridão , traz traduções inéditas para obras-primas do horror e do sobrenatural

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