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10/08/2009 às 09h00
Gângster é a mãe
 

Antes de Hollywood descobrir Freud na década de 40, um gângster era apenas um gângster. Rico Bandello e Tom Powers, protagonistas, respectivamente, de 'Alma no Lodo' e 'Inimigo Público', ambos de 1931, não tinham psicologia. Não se assemelhavam a “seres humanos reais”, a “indivíduos”. Na terminologia de E. M. Foster, não eram personagens “redondos” (round), eram “planos” (flat). Eram tipos. E o mais nobre dos tipos: eram arquétipos. 

O Tony Camonte de “Scarface – A Vergonha de uma Nação” (32) tem um relacionamento incestuoso com a irmã, mas é um incesto que nada tem de freudiano, assim como Édipo foi para a cama com a mãe muito antes de virar complexo (Howard Hawks, o diretor do filme, aliás, fundamentou sua arte em um cinema sem psicologia). Rico, Tom e Tony são, ao mesmo tempo, personagens trágicos e da commedia dell’arte. Tony é Tom que é Rico.

O gângster não se reformou quando Hollywood descobriu Freud. O Cody Jarrett do magnífico “Fúria Sanguinária” (49), de Raoul Walsh – um dos fundadores do gênero com o insuperável “Regeneration”, de 1915 -, é ainda mais sanguinário que o Tom Powers de “Inimigo Público”, ambos vividos por James Cagney e ambos sofrendo de um severo Complexo de Édipo. Mas reparem na diferença do relacionamento entre mãe e filho nos dois filmes (e quem acha Cagney ator de uma nota só deveria ver os filmes em sessão dupla). Aos poucos, porém, a psicologia foi minando a vitalidade dos gangsteres no cinema. A vitalidade do cinema, aliás.

O novo filme de Michael Mann não é intitulado “Public Enemies” por acaso. Estamos de volta a 1931, quando William Wellman lançou “The Public Enemy”. Mas não como pastiche e nunca como paródia. O que interessa a Mann é capturar aquela vitalidade perdida no divã cinematográfico ao longo dos anos. O que John Dillinger quer? Tudo: a glória, a grana, a garota. O que Melvin Purvis quer? Prender Dillinger.

Quando a bela Billie Frechette reluta em abandonar o emprego para viver com Dillinger por não saber nada sobre ele, o gângster retruca: “Cresci numa fazenda em Morrisville, Indiana. Minha mãe nos deixou quando eu tinha três anos, meu pai me enchia de pancada porque não sabia outro modo de me criar. Eu gosto de beisebol, de cinema, de boas roupas, de carros velozes, de uísque e de você... O que mais você precisa saber?”. E o que mais o espectador precisa saber? John é Tony que é Tom que é Rico.

E não venham me dizer que, ao contrário de Rico, Tom e Tony, John é um personagem histórico. O Dillinger do filme assalta bancos como o Dillinger da vida real e ambos têm o mesmo fim. Mas o Dillinger do filme é tão real quanto o cachimbo pintado por René Magritte. A estrutura também não tem nada de realista. É um filme com dois antagonistas que se complementam, como “Vencido pela Lei” (Manhattan Melodrama), que Dillinger foi ver na vida real e vai ver no filme. Ou como “Fogo Contra Fogo”, do próprio Mann. E com a quase obrigatória trama paralela romântica, só que neste caso o romance atropela a trama principal e Mann consegue o feito invejável de nos dar não só um grande filme de gângster como uma bela história de amor (e não pela história em si, que é puro clichê, mas pelo virtuosismo como ela é encenada).

O conteúdo da trama importa cada vez menos para Mann. O enredo de “Inimigos Públicos” é um mero arcabouço. As convenções do gênero aliviam o filme de boa parte do fardo da exposição e tornam irrelevante qualquer psicologia. A função do roteiro se aproxima à do libreto. Serve apenas de suporte para a música criada pelo estilo. E a música é de pedir bis. Bravo!

 
 
 
Vanessa Liborio

Ronaldo Passarinho é documentarista, jornalista e tradutor. Assinou, por dez anos, a coluna ZOOM do jornal O Liberal, foi redator da revista Cinética e do Jornal do Brasil. Seus dois primeiros livros como tradutor devem ser lançados ainda este ano. Seu novo blog, Contos da Escuridão , traz traduções inéditas para obras-primas do horror e do sobrenatural

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