Dor de cabeça? Confere. Moleza, enjôo, febre? Também. Não sou hipocondríaco, mas um amigo médico confirmou por telefone o meu diagnóstico: gripe suína. E me aconselhou a ficar longe de postos de saúde. Na melhor das hipóteses - ou seja, se eu não estivesse com o vírus -, eu o pegaria se fosse bater em um deles. Disse para eu ficar em repouso, tomar muito líquido (cerveja não vale), não fumar (estou parando, de qualquer jeito) e cuidar do pulmão. Não sei bem como cuidar do pulmão, mas segui as outras instruções à risca.
Passei o fim de semana trancafiado no apartamento - o que não é nenhum sacrifício, adoro ficar em casa (só senti falta da minha namorada, mas não queria contaminá-la). Aproveitei para assistir aos 13 episódios de duas grandes minisséries inglesas de espionagem: “Tinker, Tailor, Soldier, Spy”, de 1979, e “Smiley’s People”, de 82. São baseadas em romances de John le Carré - lançados no Brasil com os títulos “O Espião que Sabia Demais” e “A Vingança de Smiley” -, adaptados pelo próprio escritor em parceria com outros roteiristas. Ambas são inéditas por aqui, até onde eu saiba, e têm como protagonista o grande Alec Guiness, na pele do veterano agente secreto George Smiley. E não, você não vai encontrá-las em uma locadora perto de você.
Smiley não é um sujeito muito agradável. E Guiness em nenhum momento tenta angariar a simpatia do espectador. É estritamente fiel ao personagem. Aos poucos, a humanidade do agente secreto vai se revelando. Não há pressa. Essa é a grande vantagem que minisséries têm sobre filmes na adaptação de romances. Podem ser mais fiéis à estrutura narrativa do original. A dramatização de “Tinker, Tailor, Soldier, Spy” até exagera na fidelidade, com um excesso de flashbacks, e é atravancada por longuíssimos diálogos de exposição. A de “Smiley’s People” é mais refinada: praticamente não há flashbacks e os diálogos são muito mais enxutos.
Guiness é a estrela em ambas as séries, mas está cercado por outros astros de luz própria, como Ian Richardson, Hywel Bennett e Ian Bannen, na primeira, e Eileen Atkins, Curd Jürgens e Barry Foster, na segunda. E Bernard Hepton, soberbo como Toby Esterhase nas duas, rouba a cena em “Smiley’s People”. A participação mais surpreendente, em ambas as séries, porém, é do shakespeariano Patrick Stewart, mais conhecido como o capitão Picard de “Jornada nas Estrelas – A Nova Geração”.
Stewart, que tem como marca registrada sua voz retumbante, entra mudo e sai calado. Não diz uma palavra como Karla, o arquiinimigo de Smiley, e só atua em duas cenas, uma em cada série, sempre contracenando com Guiness. Mas a grandeza de sua participação silenciosa assombra o espectador, assim como Karla assombra Smiley.
Além do prazer de seguir uma trama bem urdida, contada com calma, a série nos permite admirar o hoje tão desvalorizado ofício de atuar. Se a cena do encontro final entre Smiley e Karla, sem palavras, fosse exibida sem querer no meio da programação de um canal qualquer de TV aberta, tenho impressão de que os televisores que estivessem ligados explodiriam, como num encontro entre matéria e antimatéria. Sublime silêncio. Guiness e Stewart não precisam abrir a boca para atuar.
Melhorei rapidamente. Minha gripe provavelmente não era a suína, mas, de qualquer modo, Guiness, Stewart, Hepton e companhia foram meu Tamiflu. |