Inácio Araújo é um dos melhores críticos brasileiros em atividade. Foi assistente de direção de Ozualdo Candeias e Carlos Reichenbach, cineastas que entendem de cinema, o que deveria ser a norma, mas não é. Foi roteirista, editor e, desde 1983, escreve para a Folha de São Paulo. É um crítico de cinema que escreve sobre cinema, o que também deveria ser a norma, mas não é. Interessa-se menos por tema, trama e atuações do que por mise-en-scène, enquadramento e montagem.
Em 2003, Inácio escreveu: “Amigos vivem tentando me convencer da genialidade de Michael Mann. Pode ser, não descarto. Mas devo admitir que não a compreendo, ao menos até agora. Isso não me impede de ver em ‘Colateral’ um dos filmes americanos mais divertidos dos últimos anos.” Seis anos depois, ao sair, em suas próprias palavras, “boquiaberto” de uma sessão de “Inimigos Públicos”, Inácio disse: “Faz muito tempo pessoas que eu respeito, que sabem o que falam, tentam me convencer da beleza dos filmes de M. Mann. Até aqui, na maior parte das vezes eu não tinha me impressionado, embora, claro, seja nítido que não são filmes de qualquer um. A partir daqui a história é outra. É um cineasta realmente invulgar.”
A primeira conclusão a se tirar disso é que Inácio tem amigos que entendem de cinema. A segunda é que Mann é gosto adquirido. Se cinema fosse futebol, eu diria que sou Martin Scorsese desde criancinha e, assim como o Inácio, demorei a dar valor para as jogadas de craque de Michael Mann. Se amar Scorsese é como ser torcedor do Botafogo, que vive de glórias passadas, mas sem perder a fé, aprender a admirar Mann só traz alegrias. É cinema de categoria.
Já escrevi antes neste espaço que a maior dificuldade em dar valor a Mann é que seu estilo nunca entra em confronto óbvio com o estilo predominante em Hollywood. “Profissão Ladrão” (Thief, 81), “Fortaleza Infernal” (The Keep, 83) e “Caçador de Assassinos” (Manhunter, 86) são filmes típicos dos anos 80. No visual, na trilha sonora, nos efeitos especiais. “O Último dos Moicanos” (The Last of the Mohicans, 92) é uma obra de transição entre o estilo “estiloso” da década anterior e o estilo “estilizado” que adota a partir de “Fogo Contra Fogo” (Heat, 95).
O primeiro filme dele que me lembro de ter visto foi “Profissão Ladrão”, com James Caan. É sobre um ladrão de jóias que quer dar um último golpe antes de se aposentar e vir morar no Brasil ou algo assim. E se apaixona sem querer. É o mesmo personagem vivido por Robert De Niro em “Fogo Contra Fogo” e por Johnny Depp em “Inimigos Públicos” (Public Enemies, 2009).
O segundo que vi foi “Caçador de Assassinos”. É sobre um policial obcecado pelo trabalho, que entra na mente dos criminosos que caça, o que prejudica sua vida em família. Mann juntou o ladrão daquele com o policial deste no telefilme “L.A. Takedown”, de 89, que refilmou seis anos mais tarde como “Fogo Contra Fogo”. Gostei muito e continuando gostando do mesmo modo de “Profissão Ladrão” e “Caçador de Assassinos”. Mas se alguém me dissesse que um dia Mann se tornaria um dos estilistas mais sofisticados de sua geração, eu teria achado graça. Não é o Scorsese.
Afinal, não dava para levar a sério o diretor de “Fortaleza Infernal” e “O Último dos Moicanos”. Mas aí veio “Fogo Contra Fogo”, seguido por “O Informante” (The Insider, 99) e pelo subestimado “Ali” (2001). Três filmaços. Mas não, eu ainda não estava convencido de que ele era um cineasta de primeiro time. Talentoso, sem dúvida, brilhante até, mas não era um Scorsese. O filme que realmente me fez virar casaca foi “Colateral”, de 2004. É outro filme de transição, abrindo espaço para a experimentação com o digital em “Miami Vice” (2006) e “Inimigos Públicos”. Mas na época eu não sabia disso.
Saí do cinema com a impressão de ter visto exatamente o que o filme é: um filme menor. E foi então que a ficha caiu. Se “Colateral” era um filme menor, Mann só poderia ser um cineasta maior. “Miami Vice” e “Inimigos Públicos” provaram que eu não estava errado. Mann é mais que um cineasta invulgar. Parece ser um simples artesão, mas é um artista. Não é Scorsese, nem quer ser. Tem luz própria, nome próprio. É o cara: “he’s the Mann”.
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