Já dava por certo que 'Inimigos Públicos' não teria competição para melhor filme do ano quando dou de cara com 'Amantes'. Nem esperava mais que 'Two Lovers' estreasse por aqui. Mas entrou em cartaz no Brasil, pelo menos em algumas capitais, dentre as quais o Rio de Janeiro, e sou grato por isso.
James Gray, mestre da ironia dramática, não é um cineasta de subtextos, é um cineasta de falsos subentendidos. Nada é preto e branco no mundo cinzento de Gray. 'Amantes' não é uma comédia romântica desconstruída como'Embriagados de Amor', de Paul Thomas Anderson. É uma comédia romântica virada do avesso. Anderson descarta e distorce convenções para celebrar o que há de mais convencional no gênero: o final feliz. Gray parte do final feliz para demolir o gênero. A sinopse é o bocejo do crítico. Resumir a trama de filmes é encher linguiça. Nem sempre foi assim, mas hoje, com a internet, é. Basta visitar o IMDb (Internet Movie Database), o Adoro Cinema ou outros sites similares para saber “sobre” o que é o filme. Mas a trama de 'Amantes' pede para ser resumida. A simplicidade é sua razão de ser.
E o enredo é tão enganosamente simples quanto o de 'Quadrilha', de Carlos Drummond de Andrade. Sandra ama Leonard que ama Michelle que ama Ronald. Um tal de Joaquim suicida-se no poema de Drummond. No filme de Gray, Leonard começa o filme tentando o suicídio. E logo ficamos sabendo que não foi a primeira vez.
Vamos ao resumo, portanto: Leonard é um trintão quase quarentão que ainda mora com os pais. Foi abandonado pela noiva por razões médicas que não vem ao caso (ou vem, já que o fim do relacionamento foi por questões clínicas, não românticas). Trabalha no negócio da família, uma lavanderia, como entregador de roupas. É apresentado a uma moça linda e muito legal, imediatamente aprovada por seus pais, mas se apaixona por uma porra-louca que mora em seu prédio e que é, por sua vez, apaixonada por um homem casado.
Quadrilha armada, os finais felizes possíveis são basicamente dois: ele ganha a garota por quem é apaixonado ou descobre que seu verdadeiro amor é a moça legal que era a fim dele desde o princípio. O final mais infeliz é óbvio: ele perde as duas. Mas o cinema de Gray pode ser tudo, menos óbvio.
Se você ainda não viu o filme, pare de ler por aqui. 'Amantes' foi concebido de trás para frente: e se o final feliz mais convencional possível de uma comédia romântica, com direito a pedido de casamento e lágrimas nos olhos do proponente, fosse feliz para todos os personagens, menos para o protagonista? E se ninguém soubesse de sua infelicidade a não ser ele mesmo e o espectador?
O fim do filme de Gray tem um ilustre precedente na sequencia magistral em que uma dona de casa é consolada por seus filhos depois que abre mão, temporariamente, de seu amor proibido pelo jardineiro em 'Tudo que o Céu Permite', do genial Douglas Sirk, com quem Gray aprendeu muito. Mas o falso final feliz de 'Amantes' é mesmo infeliz, como o de 'Donos da Noite', seu filme anterior? Ou é um final feliz disfarçado de falso final infeliz disfarçado de falso final feliz? É melhor um amor possível ou um amor de perdição? Não que Leonard tenha escolha.
Volto a falar de 'Amantes', até porque não tenho escolha. O filme não sai da minha cabeça.
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