Todo filme de James Gray tem (até agora): um protagonista que volta para casa e se sente um peixe fora d’água; pelo menos uma sequencia no metrô; gente que se abraça de verdade (ver as pessoas se abraçando em um filme de Gray é como ver pela primeira vez um abraço); um núcleo familiar tão forte que às vezes parece um buraco negro; vãos de portas e janelas que servem de moldura dentro do quadro fílmico; modulação de cores que vão muito além do funcional, ao contrário de “Traffic”, por exemplo, ou dos filmes de Fernando Meirelles e Alejandro González Iñárritu; corredores; cenas em câmera lenta, mas tão discretas que às vezes passam despercebidas. Assim como tanta coisa passa despercebida no discreto cinema de Gray.
Desses elementos, o único que talvez não seja tão óbvio é o primeiro. Afinal, Leonard diz a Michelle que voltou a morar com os pais em “Amantes” (Two Lovers, 2008), mas isso soa como desculpa. Não seria o filho pródigo, portanto, como são Joshua (e o nome não é bíblico por acaso) em “Fuga para Odessa” (Little Odessa, 1994), Leo em “Caminho Sem Volta” (The Yards, 2000) e Bobby em “Os Donos da Noite” (We Own the Night, 2007). Leonard, contudo, é o filho pródigo por excelência. Sai de casa toda vez que tenta se matar. E o filme começa justamente assim, com uma tentativa de suicídio e a volta para casa.
Três dos filmes de Gray têm a mãe como figura central. A exceção é “Os Donos da Noite”. Se eu fosse um crítico francês, diria que a ausência da mãe é central à trama. Além disso, há uma figura materna forte no filme. As mães em “Fuga para Odessa” e “Caminhos Sem Volta” estão doentes, o que aumenta sua força de atração. Também não por acaso, as três mães são vividas por atrizes de peso: Vanessa Redgrave, Ellen Burstyn (com reforço de Faye Dunaway) e Isabella Rossellini.
Em três dos filmes há cenas em discotecas. Exceto em “Fuga para Odessa”. E ninguém filma o abandono na pista de dança como Gray. Todos os filmes têm triângulos amorosos, mas só o último é entre o protagonista e duas mulheres. Nos três primeiros, o irmão ou o melhor amigo substitui uma das mulheres. Se eu fosse um crítico formalista russo diria que o triângulo é sempre o mesmo. O sexo dos vértices não altera suas funções.
Dos quatro filmes de Gray, todos de alguma maneira terminam mal. Três, de certo modo, e ainda que muito superficialmente, terminam bem. Mais uma vez, a exceção é “Fuga para Odessa”. Há quem ache o final de “Os Donos da Noite” feliz, mas não conheço nenhum maluco que diga o mesmo do final de “Fuga para Odessa”. Em “Caminho Sem Volta” e “Os Donos da Noite”, a trama policial se resolve bem para os protagonistas, mas a que preço? Ao custo da felicidade na trama secundária.
Nove entre dez filmes americanos tem uma trama romântica paralela à principal. Em “Fogo Contra Fogo”, por exemplo, protagonista e antagonista (e eu não sei quem é quem no filme) vivem histórias de amor secundárias à trama policial. Michael Mann inverteu a dinâmica em “Inimigos Públicos”, com a história de amor entre John Dillinger e Billie Frechette sobrepujando o conflito entre Dillinger e Melvin Purvis. Leonard em “Amantes” não tem escolha nem entre amores nem entre tramas. A trama paralela é a trama principal. E a síntese entre final feliz e infeliz se realiza plenamente.
James Gray é um cineasta americano. De filmes de gênero. Com orgulho. Sua grandeza, assim como a de Michael Mann, está em saber manipular as convenções dos gêneros que pratica: o policial, o melodrama, a comédia romântica. E de saber o valor de um enquadramento, de um movimento de câmera, do espaço que existe dentro e fora do quadro. Os elementos que citei no primeiro parágrafo não estão soltos em seus filmes. É cinema de artista por ser cinema de artesão.
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