Já escrevi aqui sobre a angústia de Inácio Araújo em relação ao cinema de Michael Mann. Agora é a vez de David Bordwell. Ele não é exatamente um crítico e não se enquadra no perfil acadêmico de quem usa o cinema como desculpa para falar de outros assuntos. Ao contrário, foi ele quem batizou com sarcasmo esses estudos acadêmicos de teoria SLAB, acrônimo de Saussure, Lacan, Althusser e Barthes. Bordwell é um homem de cinema.
O respeito e a admiração que sinto por ele não me impedem de discordar de muitas de suas análises e opiniões. Ele não gostou de “Os Donos da Noite”, por exemplo, apesar de gostar muito dos filmes anteriores de James Gray. E seus textos sobre “Batman – O Cavaleiro das Trevas” e os dois filmes que Paul Greengrass dirigiu da trilogia Bourne, dos quais ele não gostou e eu gostei, são mais inteligentes do que a maioria dos textos elogiosos que li sobre os filmes.
Foi com prazer (um prazer perverso, admito) que li a crítica negativa de Bordwell a “Inimigos Públicos”. Ele começa dizendo que Michael Mann vem se firmando como um dos mestres do cinema contemporâneo e que o respeita desde que assistiu na estréia a “Profissão: Ladrão”. E que acha “Fogo Contra Fogo” seu melhor filme. Até aí, tudo bem, eu também acho. Mas “Ali” e “Miami Vice” são, para ele, filmes menores. E, com “Inimigos Públicos”, diz que Mann enveredou por um caminho que ele não consegue acompanhar.
Bordwell notou o que pouca gente percebe: que Mann faz questão de se dizer um cineasta realista para não ser visto como um esteta — sabe Deus por que, já que isso é um elogio. E que é, no fundo, um classicista, não um vanguardista: um purista de filmes de gênero. Concordo plenamente, mas discordo totalmente da análise que ele faz de “Inimigos Públicos”. Nem o próprio Bordwell parece estar bem certo do que diz. Tanto que pede desculpas para o leitor que achar sua crítica hesitante. Leiam a análise no blog dele aí ao lado e tirem suas próprias conclusões.
Por fim, Bordwell explica que não gostou de “O Informante” quando assistiu ao filme pela primeira vez, mas que descobriu suas qualidades quando viu o filme de novo. E que, apesar de ter assistido a “Inimigos Públicos” duas vezes, o filme continua sendo uma decepção. Mas escreve: “Maybe I’ll come around eventually”, ou seja, “Talvez eu acabe mudando de ideia”. Vindo de quem vem, isso vale muito mais do que um elogio de quem não sabe do que está falando. Aposto que “he’ll come around”. Todo mundo tem direito a mudar de ideia.
Um conselho para quem vai ler o post de Bordwell: não leiam o que ele escreve sobre “Inglorious Basterds” (com “e” no lugar do “a” mesmo). Está cheio de “spoilers”, como ele faz questão de avisar. Basta saber que ele o considera um dos “filmes americanos mais audaciosos e ambiciosos” que viu nos últimos tempos. Mal posso esperar.
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