Quentin Tarantino incluiu 'Jovens, Loucos e Rebeldes' (Dazed and Confused, 93) em sua lista dos vinte melhores filmes dos últimos 17 anos — desde que lançou seu primeiro longa-metragem, 'Cães de Aluguel', em 92 —, e disse que o filme de Richard Linklater é, junto a 'Onde Começa o Inferno' (Rio Bravo, 59), “the greatest hang out movie ever made”. Mas que diabo é um filme “hang out”?
Aposto que você nunca entrou em uma locadora com uma prateleira dedicada a filmes “hang out”. Nem vai encontrar esse gênero descrito em enciclopédias de cinema. Para entender o que é um filme “hang out”, é preciso primeiro entender o que significa “hang out”, que não é o mesmo que “hangout”. Segundo o Michaelis, “hangout” é um “lugar frequentado”, um “ponto de reunião ou de encontro”. E “hang out” é “passar um tempo em um lugar ou com alguém”, além de outras definições que não vêm ao caso.
'Let’s hang out' equivale a “vamos dar uma volta”, “dá um pulo aqui em casa” e por aí vai. Não é um convite específico, do tipo “vamos ao cinema?” ou “vamos encher a cara?” Às vezes o “encher a cara” pode estar implícito, e pode acabar rolando um filme, mas “hanging out” é um fim em si mesmo. É passar um tempo com alguém, jogando conversa fora ou ficando, simplesmente, de bobeira.
Paulo Emílio Salles Gomes, talvez o maior crítico de cinema já surgido em nossas bandas, admirava profundamente o cinema de John Ford, mas implicava com cenas em que o cineasta suspendia a progressão dramática de certos filmes para mostrar os personagens “hanging out”. Não, ele não usava essa expressão, mas era mais ou menos isso o que queria dizer.
Howard Hawks, o grande diretor de 'Onde Começa o Inferno', pegava ainda mais leve que Ford com seus personagens. Apesar da tensão em que vivem os caubóis sitiados em 'Rio Bravo', sempre há tempo para jogar conversa fora e cantar. E cantam duas canções de enfiada. Primeiro Dean Martin, depois Ricky Nelson. Trata-se do espetáculo suplantando o drama, como diria Paulo Emílio? De mera concessão para atrair espectadores, que pagavam para ver um faroeste e levavam de brinde duas cenas musicais, com ídolos da época (“...and Dean and Ricky sing, too!”, anunciavam os cartazes)?
Ainda que fosse apenas isso, o que haveria de errado? Em minha opinião, nada. Vide o teatro elisabetano. Mas a cena tem outra função: a de não ser funcional, dramaticamente falando. A de mostrar gente que a gente gosta entre gente que se gosta. Nada a ver com tempos mortos. Tem mais em comum com os amigos jogando videogame em 'O Virgem de 40 anos' do que com a incomunicabilidade de Michelangelo Antonioni.
E discordo de Tarantino. 'Rio Bravo' é um dos filmes da vida dele, e da minha, e um dos melhores da história do cinema, mas não é o maior filme “hang out” de todos os tempos. Essa honra vai para outro filme de Hawks, não tão grande quanto 'Onde Começa o Inferno', mas quase. A estrutura dramática de 'Hatari!' é das menos teleológicas já criadas em Hollywood. Funciona como uma gangorra. Os personagens ora saem para caçar, ora jogam conversa fora. A gente não assiste ao filme, passa 157 minutos de bobeira com eles. 'Hatari!' é meu candidato a “the greatest hang out movie ever made”. Qual é o seu?
P.S.: Depois que publiquei o texto aqui, fui procurar o Dean e o Ricky cantando em Rio Bravo no Youtube e dei de cara com o depoimento de um sujeito que escreveu: 'Just a thought. Wouldn't it have been great to have just sat with these 4 guys in this scene having a drink and talking about good times. Could you imagine the laughs? And the stories? '
Ele entendeu tudo. 'Hang out' é isso aí.
* Internautas, nesta quinta-feira (12), Ronaldo Passarinho participará de um chat no Portal ORM. O bate-papo acontecerá às 15h (hora Belém) e terá como assunto principal o cinema, claro!
As novas produções de Hollywood e o que os diretores internacionais têm feito para atrair público para as salas de cinema serão os temas da conversa.
Ronaldo Passarinho é documentarista, jornalista e tradutor. Assinou, por dez anos, a coluna ZOOM do jornal O Liberal, foi redator da revista Cinética e do Jornal do Brasil.
Seus dois primeiros livros como tradutor devem ser lançados ainda este ano. Seu novo blog, Contos da Escuridão , traz traduções inéditas para obras-primas do horror e do sobrenatural