É difícil falar mal de um filme tão bem intencionado. Anton Corbijn, o diretor, Rowan Joffe, o roteirista (que adaptou o romance de Martin Booth), e George Clooney, astro e produtor do filme, estavam, como se diz em inglês, com o coração no lugar certo. Mas assim como “com o coração no lugar certo” é uma tradução canhestra, apesar de literal, para a expressão inglesa “with the heart in the right place”, “Um Homem Misterioso” (The American) é uma tentativa frustrada, embora louvável, de emular os chamados films policiers, sobretudo os de Jean-Pierre Melville e, em particular, “O Samurai”, de 1967.
Literalmente, film policier não é mais que “filme policial” em francês. Mas a expressão é rotineiramente empregada para definir certos filmes rodados a partir do pós-guerra na França e claramente influenciados pelo film noir americano. Deve ser usada, portanto, com moderação. O que me interessa aqui, por ser o que interessou os realizadores de “Um Homem Misterioso”, são os policiers mais ostensivamente decalcados de uma vertente específica do noir e que têm como protagonista um outsider, meio anjo meio demônio, a favor ou contra a lei, que vive de acordo com seu próprio código de honra.
Em muitos casos, os heróis-vilões ou anti-heróis desses policiers se trajam e agem como os detetives dos romances hard-boiled de Dashiell Hammett ou Raymond Chandler, de trench coat e chapéu de feltro, com um cigarro displicentemente pendurado no canto da boca. O supra-sumo do decalque é Jef Costello, personagem de Alain Delon em “O Samurai”. O Jack (ou Edward) de George Clooney não segue a moda (e só dá uma tragada no filme, porque fumar é politicamente incorreto), mas é fiel ao estilo.
Quando Melville tomou o traiçoeiro caminho da estilização conseguiu um perfeito equilíbrio entre a paráfrase e a paródia. Nem seguiu servilmente o modelo nem se aproveitou dele para outros fins, como fez Jean-Luc Godard em “Alphaville”. Corbijn, Joffe, Clooney e companhia (porque não se trata, definitivamente, de um filme autoral) perderam o equilíbrio já na fase do roteiro e acabaram na paráfrase. Pior, na paráfrase da estilização.
O segundo grande problema do filme é Clooney, um ator muito simpático, simpático demais, que precisa se esforçar para fazer cara de mau. E ter como modelo o Delon de “O Samurai”, em uma das atuações mais sutis da história do cinema, torna o esforço ainda mais inglório. O roteiro tem furos graves, condensados na busca final por uma epifania que simplesmente não acontece, com direito a borboleta CGI voando. O maior problema do filme, entretanto, e esse, sim, incontornável, é a direção frouxa. Corbijn tem o mérito de não picotar as imagens nem abusar da trilha sonora, o que é ainda mais admirável por se tratar de um diretor de videoclipes, mas silêncio e planos longos por si sós não fazem um bom filme.
Daqui a dez ou vinte anos, eu talvez reveja “Um Homem Misterioso” com o mesmo agrado com que hoje revejo os policiers de Henri Verneuil, Jacques Deray e Georges Lautner. Mas com o prazer que revejo os de Melville, nem pensar.
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