21/02/2011 às 17h26
Patinho feio
 

A premiação deste ano será melhor em algum universo paralelo, onde o roteiro de “Cisne Negro” tenha ido parar nas mãos de David Fincher e o de “A Rede Social” nas de Darren Aronofsky. Fincher fez um belíssimo trabalho a partir do roteiro brilhante de Aaron Sorkin, mas faria misérias com a história da bailarina esquizofrênica.

 

No cinema de excessos estilísticos de Aronofsky falta o mais importante: rigor. A única coisa que compensa a falta de rigor em qualquer obra de arte é o vigor, mas Aronofsky é por demais maneirista para ser vigoroso. Há vigor no barroco, não no rococó. Apesar dessas limitações, “Cisne Negro” funciona muito bem como filme de gênero, mais especificamente como um thriller de horror psicológico, na linha de “Repulsa ao Sexo”, de Roman Polanski, que gerou um subgênero ao qual o próprio Polanski voltou em “O Inquilino”, uma de suas obras-primas, e que continua a receber contribuições de cineastas como David Lynch, Brad Anderson e Satoshi Kon.

 

O estilo maneirista dos primeiros filmes de Aronofsky e de Fincher se parece bastante, mas Fincher amadureceu muito como cineasta, e muito rapidamente, enquanto Aronofsky continua em busca de um estilo próprio. Em “Cisne Negro”, o excesso estilístico é temperado pelo registro naturalista que o diretor experimentou em “O Lutador”, com a vantagem de partir de um roteiro mais bem construído, ancorado em regras de gênero, e sem nenhum vestígio de sentimentalismo. Um rococó bem temperado.

 

O forte de Aronofsky sempre foi a direção de atores. Natalie Portman merece o Oscar que vai receber, e essa é a única certeza que tenho sobre a premiação deste ano. Ainda não assisti a “O Discurso do Rei” porque o trailer me dá medo. Aqueles enquadramentos exagerados em grande angular me lembram Terry Gilliam, um cineasta que abomino, ou, pior ainda, as atrocidades dirigidas por Danny DeVito. E estou certo de que James Franco merece todos os elogios que vem recebendo por “127 Horas”, mas é preciso muita coragem para enfrentar um filme de Danny Boyle.

 

Amanhã vou assistir a “Bravura Indômita”, que deve ser um filmaço, apesar de achar que a inconsistência na carreira dos Coen, com altos bastante altos e baixos abissais, se deve ao fato de que nem sempre duas cabeças pensam melhor do que uma, principalmente em artes narrativas, como o cinema. E darei por encerrada esta safra do Oscar em salas de cinema, o resto eu vejo em casa.

 

Ah, sim, não espalhem, mas “Cisne Negro” foi uma surpresa tão boa, vinda de um cineasta cujo estilo não me agrada, que vou torcer para que ganhe o Oscar de melhor filme. É o azarão, um patinho feio na disputa (apesar da beleza da Natalie), e é de gênero, e do gênero de horror, portanto o Fincher que me perdoe, mas merece a torcida.

 

 
 
 
Vanessa Liborio

Ronaldo Passarinho é documentarista, jornalista e tradutor. Assinou, por dez anos, a coluna ZOOM do jornal O Liberal, foi redator da revista Cinética e do Jornal do Brasil. Seus dois primeiros livros como tradutor devem ser lançados ainda este ano. Seu novo blog, Contos da Escuridão , traz traduções inéditas para obras-primas do horror e do sobrenatural

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