17/07/2011 às 12h28
Terror no Rio
 

Primeiro, uma boa notícia: o RioFan, festival de cinema fantástico do Rio de Janeiro, ganha nova edição, que começa na próxima terça-feira, dia 19, e vai até o dia 24 de julho. O filme de abertura será do mestre John Carpenter. Agora, a má notícia: “Aterrorizada” (The Ward) é um horror, no pior sentido possível.

 

O novo filme de Carpenter sofre de déjà vu. É mais um exemplar da aparentemente interminável leva de filmes de horror psicológico nos quais todos os eventos insólitos que testemunhamos são explicados no final. Martin Scorsese tirou leite de pedra em “A Ilha do Medo”, que segue a mesma linha, e nos deu um filme problemático, mas recheado de momentos de grande cinema. Carpenter foi bem menos feliz em “Aterrorizada”, que não amedronta, não diverte e sequer é ruim o suficiente para fazer rir.

 

A ruindade do filme de Carpenter, no entanto, não vai empanar o brilho da festa. A programação está mais variada do que na primeira edição e traz pelo menos três filmes imperdíveis: “Vermelho, Branco e Azul”, de Simon Rumley; “A Mulher”, de Lucky McKee; e “Pequenas Mortes”, de Simon Rumley, Sean Hogan e Andrew Parkinson.

 

Dos outros filmes programados, assisti a “Cropsey”, fascinante documentário em primeira pessoa de Joshua Zeman e Barbara Brancaccio sobre a fronteira entre realidade e lenda urbana, e a “Anoitecer Violento” (Stake Land), de Jim Mickle, que vem sendo saudado como uma obra-prima por alguns críticos, mas é apenas mais um entre tantos filmes ambientados em um cenário pós-apocalíptico dominado por zumbis, só que neste caso trata-se de outra raça de mortos-vivos, vampiros (mas com cara de zumbis). Como todo road movie, é episódico, mas isso não justifica a falta de foco do roteiro, que deixa o filme com cara de minissérie condensada. A direção de Mickle é competente, e mais nada.


 
Voltando aos imperdíveis, o inglês “Pequenas Mortes” é uma antologia, formato muito popular no gênero de horror, sobretudo na Inglaterra, onde o brasileiro Alberto Cavalcanti rodou o segmento mais memorável do clássico “Na Solidão da Noite” (Dead of Night, 1945). O título desta nova antologia alude à expressão francesa “La petite mort”, usada para designar o orgasmo, e deixa claro que o tema que une os segmentos é a sexualidade.

 

O primeiro segmento, “House and Home”, dirigido por Sean Hogan, é o mais convencional. Uma história de sadismo e vingança com uma reviravolta na trama, à moda da EC Comics. Os fãs de “Contos da Cripta” e de outras publicações da editora, entre os quais me incluo, não se surpreenderão com o final. “Mutant Tool”, de Andrew Parkinson, vai agradar mais aos fãs de David Cronenberg, entre os quais não me incluo, com quem Parkinson é frequentemente comparado.

 

É o último segmento, “Bitch”, de Simon Rumley, que torna o filme imperdível. Rumley experimenta com as cores e a textura da imagem, mas sua força como cineasta vem do modo oblíquo e elíptico como conduz suas narrativas, sem nunca perder a clareza, e da simpatia que desperta no espectador pelos personagens conturbados que apresenta, como o deficiente mental e seus pais no angustiante “The Living and the Dead”, de 2006. “Bitch”, no fundo, não passa de uma piada de humor negro, e de muito mau gosto, mas contada com admirável verve.

 

O talento de Rumley pode ser comprovado no longa-metragem “Vermelho, Branco e Azul”, que também faz parte do festival. É um filme de vingança, estruturado em três blocos distintos, cada qual dando ênfase a um dos protagonistas: uma ninfomaníaca que não consegue se envolver emocionalmente com ninguém; um jovem músico de rock, em busca do sucesso com sua banda de garagem, com quem a moça vai para a cama (com ele e sua banda, aliás); e um serial killer que “adota” a moça.

 

Rumley flerta com o cinema extremo em voga no gênero, mas, assim como em “Bitch”, deixa para a imaginação do espectador as cenas mais sangrentas. Há diálogos memoráveis. Nenhum deles, entretanto, é indispensável. Rumley organiza fragmentos do dia-a-dia das personagens com tamanha precisão que poderia ter feito um filme mudo. Quem garimpa o horror no cinema sabe como é difícil encontrar preciosidades em meio a tanto cascalho. “Vermelho, Branco e Azul” é ouro puro.

 

No próximo post, falarei sobre o controverso “A Mulher”, outro filme imperdível do RioFan.

 

O site oficial do festival: http://www.riofan.com.br

 
 
 
Vanessa Liborio

Ronaldo Passarinho é documentarista, jornalista e tradutor. Assinou, por dez anos, a coluna ZOOM do jornal O Liberal, foi redator da revista Cinética e do Jornal do Brasil. Seus dois primeiros livros como tradutor devem ser lançados ainda este ano. Seu novo blog, Contos da Escuridão , traz traduções inéditas para obras-primas do horror e do sobrenatural

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