24/12/2012 às 09h22
As intertextualidades míticas do Natal
 

Essa utilização da Bíblia para atender a interesses diabólicos de muitas religiões e igrejas acaba criando no leitor mais inteligente certo preconceito contra esta coletânea de livros sagrados para as religiões judaico-cristãs e não menos sagrados, embora não no sentido religioso do termo, para historiadores e estudiosos da cultura e da literatura.

Apesar de, nas religiões que se referem à Bíblia como Palavra de Deus, muitos se servirem de pedaços descontextualizados desta Palavra, para legitimar a sua própria, a Bíblia é o primeiro grande conjunto de textos que, embora produzidos em épocas e espaços diferentes, por autores diferentes, com propósitos e destinatários também diferentes, relacionam-se mutuamente, numa intertextualidade extraordinária que dá um suporte racional e intelectual para a fé.

Como hoje é Natal, quero propor aqui uma leitura de alguns versículos bíblicos do Antigo Testamento que se referem ao iminente nascimento de Jesus. Uma análise textual entre o Antigo e o Novo Testamento, nos termos da literatura comparada, revela que o nascimento de um Rei, que viria ao mundo com uma missão especial de salvar o seu povo, de libertá-lo do jugo escravizador que lhe fazia refém de povos inimigos, constituía um pouco mais que uma esperança do povo de Israel. Parece haver sido este “um pouco mais” o que passou despercebido aos judeus.

Por isso a religião judaica não se tornou cristã; por isso o Cristianismo é universal onde houver uma nova criatura que haja crido que este Rei é Jesus. E por isso o Natal, este acontecimento profético e histórico, é também simbólico e permeado de lendas que o mitificam e de rituais que o atualizam.

No livro de Miquéias 5:2 está escrito “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”.

Efrata é uma palavra hebraica que significa “terra frutífera”. De fato, o fruto que dela nasceu espalhou-se como semente por todo o restante do mundo. A cidade de Belém da Judeia era também chamada de Belém Efrata porque havia outra Belém em Zebulom.

O relato do nascimento de Jesus, nas versões evangélicas de São Mateus 2:1 e de São Lucas 2:4-7, confirma o cumprimento desta profecia relativa ao lugar onde nasceria o Messias esperado. “E, tendo nascido Jesus em Belém de Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém (Mateus 2:1)”. O mesmo relato nos dá uma luz sobre o tempo em que Jesus nasceu, ou seja, se ele nasceu no reinado de Herodes e se Herodes morreu no ano 4 d. C. então Jesus nasceu antes do ano 4.

O relato de São Lucas afirma que “naqueles dias saiu um decreto da parte de César Augusto, para que todo o mundo se alistasse (Este primeiro alistamento foi feito sendo Quirino presidente da Síria). E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. E subiu também José da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de Davi, chamada Belém (porque era da casa e família de Davi), a fim de se alistar com Maria, sua esposa, que estava grávida. E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz.” (Lucas 2:1-6).

Segundo historiadores que teriam consultado os registos governamentais de Roma, lá o recenseamento aconteceu no ano 8 a.C., quatro anos antes de Herodes morrer, mas na Judeia o recenseamento a que se refere o texto bíblico aconteceu somente em Agosto de 7 a.C. Em Belém Efrata, o recenseamento ocorreu de 10 a 24 de Agosto do ano 7 a. C., e por isso Jesus teria nascido entre essas datas.

Segundo a religião judaica, toda mulher judia que houvesse tido um menino, permaneceria impura durante sete dias após o parto e, no 8º dia, o menino deveria ser circuncidado. Para se purificar, a mulher deveria se resguardar por 33 dias. Ao cabo desse período, deveria trazer ao templo um cordeiro de um ano por holocausto ou, caso fosse pobre, como era o caso da mãe de Jesus, um pombinho ou uma rola para expiação do pecado, diante da porta da tenda da congregação, ao sacerdote (Levítico 12:2-8). Os primogênitos machos também deveriam ser consagrados ao Senhor.(Êxodo 13,2). Se tomarmos a especulação histórica como referência, o fato relatado no capítulo 2 de Lucas teria acontecido no final de setembro e início de outubro do ano 7 a.C.

A Bíblia, porém, não está preocupada em situar no tempo o nascimento de Jesus, mas os narradores evangélicos querem destacar a divindade de Jesus, já que escreviam nos primeiros anos da era cristã. E é nesta tentativa de destacar-lhe a divindade que essas narrativas se constituem como signo literário e legitimam os aspectos proféticos do Antigo Testamento.

Em Isaías 7:14 está escrito “Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: A virgem conceberá e dará à luz um filho e será o seu nome Emanuel”. Em Mateus 1:18 e Lucas 1:26-35, lemos: “Ora, o nascimento de Jesus foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes que coabitassem, achou-se grávida pelo Espírito Santo”. Podemos afirmar, portanto, que o mito da virgindade de Maria, que veio a se tornar depois um dogma da Igreja Católica, foi construído historicamente pelo modo de como os judeus viam a sexualidade feminina e pelo modo de como criam religiosamente a respeito da virgindade e depois, já no Cristianismo, pela própria divindade de seu Filho Jesus.

No Salmo 72:10 está escrito: “Paguem-lhe tributos os reis de Tarsis e das ilhas; os reis de Sabá e de Seba lhe ofereçam presentes”. Em Mateus 2:1-2 afirma-se que “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém. E perguntaram: Onde está o recém nascido Rei dos Judeus? Porque vimos a estrela no Oriente e viemos adorá-lo”. O relato da visita dos reis magos afirma que eles ofereceram presentes tributáveis a reis: ouro, incenso e mirra: “Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram e, abrindo os tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra”. Isaías 60:6 escreveu “A multidão  de camelos te cobrirá, os dromedários de Midiã e de Efá: todos virão de Sabá; trarão ouro e incenso e publicarão os louvores do Senhor”.

Se estes fatos foram ou não históricos, se aconteceram ou não exatamente como estão narrados na Bíblia, é assunto para outro departamento. Interessa-nos aqui a necessidade de estabelecer intertextualidade entre o Antigo e o Novo testamento como signo literário da mais alta grandeza, não pelo valor religioso dessas narrativas, mas pelo que elas trazem de mítico, simbólico, de síntese discursiva profética como elementos de composição narrativa.

Feliz Natal a todos os leitores da coluna e um 2013 de muitas e boas leituras.

 
 
 
29/10/2012 às 19h00
Hudson Andrade lança em Belém seu primeiro livro individual
 

Batizada de “Quadra de Encantarias”, obra foi publicada pela Giostri Editora, de São Paulo, e tem apresentação de Hugo Possolo, criador dos Parlapatões

Toda estreia é sempre um acontecimento especial para um artista. E é exatamente esse o tom do momento que vive o ator, diretor e dramaturgo Hudson Andrade. Já dedicado há vários anos ao exercício das cenas e das letras, o escritor lança seu primeiro livro individual nesta terça, dia 30, a partir das 19h, no Sesc Boulevard. Intitulada “Quadra de Encantarias”, a obra é uma publicação da Giostri Editora, de São Paulo, e reúne quatro dramaturgias de Andrade. O livro faz parte da série Dramaturgia Brasileira, um segmento editorial da Giostri que apresenta nacionalmente um extrato da criação de autores teatrais contemporâneos. O projeto sempre convida um abalizado nome do teatro para fazer a apresentação do dramaturgo publicado. Quem assina o prefácio do livro de Hudson é o ator e diretor Hugo Possolo, criador do célebre grupo Parlapatões. A sessão de autógrafos contará com performances inspiradas em trechos das peças de Andrade e um show especial da cantora e atriz Cacau Novais. O evento conta com o apoio do Sesc Pará e da Parla Página.

Os leitores poderão ler nesta primeira publicação solo de Andrade os textos cênicos “Deus Ex Machina”, “O Auto de Judas Iscariotes”, “Kojiki” e “O Glorioso Auto do Nascimento do Cristo-Rei”. Dramaturgias que traduzem a lírica e as marcas pessoais do artista, conforme ele próprio revela: “São narrativas povoadas de seres fantásticos, reais ou não. Quatro histórias que trazem minha fé cênica, minha crença religiosa, meu ardor pela escrita, por dizer, por contar e, mais, por encantar, na única pretensão de fazer ninar curumim”.

Hugo Possolo conta que o mergulho na escrita teatral do autor foi uma oportunidade relevante de firmar intercâmbio com a criação dramatúrgica que não está setorizada no eixo sudeste. “É o aspecto terreno da obra de Hudson Andrade que aproxima o público, leitores de várias regiões, a conhecer uma importante face da dramaturgia paraense. Sua poesia voa para nos arremessar ao plano terreno e nos levar a uma reflexão sobre a vida no dia-a-dia”.

Para Andrade, entregar aos leitores a edição de “Quadra de Encantarias” representa ainda completar uma saga iniciada na infância: “Quando menino, ler, escrever, criar histórias era meu passatempo. Talvez venha daí o gosto pelas letras: absorvê-las e criá-las. Pelo contar e reinventar fábulas e lendas. Agora um novo passo. Um livro. E esse livro que contém quatro das minhas dramaturgias. Quatro peças. Uma quadra de enredos recheados de personagens míticos, fantásticos, gente feita de sonhos, de emoções”.

Trajetória

Ator formado pela Escola de Teatro e Dança da UFPA, Hudson Andrade é fundador e diretor da Companhia Teatral Nós Outros, diretor teatral, contista e dramaturgo premiado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte, 2003 e 2004).

Dono de vivências plurais no teatro, já esteve sob a direção de artistas adeptos de escolas diversas. Por conta disso, desenvolveu um sentido próprio na criação dos seus personagens, mesclando todas essas experiências. Hoje, dedica-se ao seu próprio caminho, seu método particular, entendendo-o como fórmula dinâmica, como todas as ações dentro do teatro.

A Editora

Dedicada a publicar, distribuir e divulgar nacionalmente os valores da escrita contemporânea, a Giostri Editora vem ganhando destaque entre diversos e abalizados órgãos da imprensa nacional. A série Dramaturgia Brasileira tem rompido fronteiras e estreitado as distâncias entre os centros culturais do país. Nomes célebres do teatro e da TV têm publicado suas obras através da editora, artistas como Edwin Luisi, Claudia Alencar e Pitty Webbo. Nomes relevantes de outros cenários, como o deputado Jean Willys também fazem parte do rol de autores da Giostri.

De acordo com sua assessoria, o maior propósito da editora é possibilitar aos autores brasileiros, principalmente aos novos, através da publicação e distribuição das suas obras, alcançar as pessoas, chegar aos leitores e existir perante às redações de jornal e formadores de opinião.

Serviço:

Lançamento de “Quadra de Encantarias”, primeiro livro individual do ator, diretor e dramaturgo Hudson Andrade. Uma publicação da Giostri Editora. Nesta terça, a partir das 19h, no Sesc Boulevard. Atrações especiais: leituras dramatizadas e show da atriz e cantora Cacau Novais. A entrada para o evento é franca e o livro custa R$ 30,00. Informações: 8199-1322

 
 
 
09/09/2012 às 14h38
A confraria da loucura dos escritores paraenses
 

A eterna crise da cidadania cultural brasileira, a falta de investimento em cultura em todos os cantos deste território de proporções continentais e de múltiplas interfaces, a falta de patrocínio para a publicação de obras literárias tem sido causa de choro sentido a muitos escritores brasileiros, inclusive os nascidos e criados na Amazônia paraense ou que para cá imigraram com seu talento, de mala e cuia. Essa situação merece um olhar atento, uma reflexão crítica, científica de quem se ocupa dos estudos literários e conhece de perto a realidade humana, social, política, econômica e cultural do homem amazônida.

Sem dúvida nenhuma, o norte brasileiro tem um potencial incrivelmente literário e pessoas com veia literária suficientemente talentosa para criar, a partir da matéria-prima amazônica. Mas há um elemento que dificulta deveras o fazer literário aqui no norte. Refiro-me à falta de preparo de alguns escritores para lidar com os sinalizadores de suas raízes regionais e os recursos de linguagem que imprimem literatura ao texto.

Fazer literatura paraense não é mencionar as iguarias da culinária local, nomes de rua ou de bairros ou de cidades paraenses, mangueiras, Círio de Nazaré, personagens da história da Amazônia esquecidos pela historiografia oficial, ou criar personagens cujas falas reproduzam as marcas linguísticas de um típico caboclo amazônida.

Quem faz literatura, faz literatura. Se você já começa a escrever com a pretensão de produzir um texto pátrio, você está se impondo uma limitação realmente perigosa, porque daí teria que refletir filosófica e cientificamente sobre o que é o pátrio no universo globalizado. Já parou para pensar em como o avanço tecnológico rompe as fronteiras que você, pretenso escritor regional, quer porque quer impor com sua literatura pátria? O que é uma nação ou um estado, enquanto unidade política, social, econômica, cultural e artística no mundo de hoje?

Quem faz literatura, se quer dar a uma obra o adjetivo regional, não pode se esquecer de que: 1 – Quem tem a função de adjetivar sua obra não é você; 2 – O regional tem menos a ver com a criação literária que com a geografia; 3 – Escritor que presta hoje é o que usa seu repertório de leitura, de conhecimento, de informação; seu senso crítico, especulativo; sua própria humanização, em benefício de seu talento para lidar com as virtualidades da linguagem. O regional, portanto, mesmo quando proposital, deve parecer um acidente no labor de um escritor. Temos todo um histórico de cânones literários universais que, a despeito de terem uma pátria, tornaram-se universais porque sabiam fazer literatura, e ninguém no Pará os toma como modelo do fazer literário, porque fica preso a esse complexo colonialista. 

Por que os recursos destinados à cultura aqui no norte são poucos? O que é um cidadão cultural paraense? Aquele que aprecia as coisas daqui, que vive se definindo por comparação ao sudeste brasileiro ou que finge não ver as limitações de sua terra, para não pecar contra o paraensismo colonialista? O que é fazer cultura no Pará? Por que os escritores paraenses não conseguem patrocínio para suas obras?

Essa supervalorização do regional, em parte, deve-se às leis governamentais de incentivo à cultura, cujos editais, via de regra, impõem a valorização da cultura local como um pré-requisito para que os projetos sejam aprovados. Mas por que, mesmo com o incentivo fiscal garantido, muitas empresas negam-se a patrocinar?

As empresas não são românticas como nossos escritores. O tempo da literatura nacionalista e laudatória, da exaltação pátria, do romantismo, já ficou pra trás! Precisamos parar de acreditar no certificado de aprovação da Tó Teixeira e da Semear e acreditar mais em nosso potencial criador numa sociedade globalizada.

Caro escritor, em tempos de sonegação de imposto, ninguém vai patrocinar sua obra porque seu projeto foi aprovado por uma lei de incentivo à cultura. Mas, se você conseguir provar que sua obra vai agregar valor monetário ao produto ou serviço do patrocinador, nem precisa se humilhar. É uma lógica perversa? É. Mas o que se espera que um empresário queira de um artista? Que ele acredite no seu talento, no sucesso que você faz como escritor junto à crítica e ao público? Que público?

Se ninguém tem coragem de dizer, eu lhe digo: “Caro escritor, há livros seus autografados que já foram parar no lixão do Aurá. E quem os jogou lá foi o cidadão cultural que vive lhe aplaudindo”. Aliás, antes que me perca na raiva que tenho dessa megalomania de artistas, sempre maior que seus talentos, eu quero sinalizar a questão da formação de um público como um elemento mais importante que as leis de incentivo e mais pertinente que as ingênuas vingancinhas de autores que acreditam ser uma vergonha para o empresariado local não patrocinar a pretensa cultura paraense. Se você acredita nisso, saiba que somente você e seus confrades paraensistas compartilham dessa fé cega, porque, para uma empresa, vergonha é não ganhar dinheiro. 

Um bom livro é consumido quando dizem a quem gosta de ler ou a quem está a fim de gostar: "Este livro é bom!". As ações estratégicas baseadas na indicação: "Este livro é bom!" valem também para conseguir patrocínio, pois formam leitores. Fazer literatura e não fazer o público é desperdiçar talento, tempo e dinheiro. Acho que precisamos parar com essa ingenuidade artística de achar que a globalização não atinge a literatura e que seremos reconhecidos pelos sujeitos da ação mercadológica do mesmo jeito que o somos por nosso modesto e iniciado público. Numa mentalidade colonialista como a nossa, ou somamos força para iniciar e formar nosso público ou vamos morrer indignados por não apostarem no talento que acreditamos ter.

É impressionante ver como alguns escritores se referem ao Estado como se ele fosse uma entidade autônoma movida por consciência crítica, senso estético e boa vontade. A impressão que se tem é de que esses caras só leem as coisas que eles próprios escrevem, numa autocontemplação narcisista grotesca e ridícula. E ainda se ressentem com a crítica, com a falta de patrocínio, com quem não os lê, não os conhece e, pior, com os confrades que não se orientam por suas convicções a respeito da criação que, sinceramente, nem podemos chamar literária.

Como fazer cultura na cultura do lucro? Esta é uma questão que exige a discussão a respeito do que é cultura, das múltiplas possibilidades semânticas que esta palavra evoca no mundo em que nós vivemos e que sempre foi de usura. Quando vejo um escritor sustentando um discurso humanista, mas descontextualizado do capitalismo, penso que o cara é doido ou marciano, lunático, sei lá...

Se as empresas paraenses não patrocinam os autores daqui, isso não deve ser motivo de mágoa, mas de autocrítica. Há um público leitor para o que chamam literatura no norte? Se a literatura que se faz por aqui fala de coisas daqui e, mesmo assim, os autores paraenses precisam abrir caminhos, para conquistar aplausos e plateias, não seria o caso de (re) significarem seu fazer literário considerando a recepção? Para quem estão escrevendo? O que estão escrevendo? Qual o horizonte de expectativas não somente do potencial leitor, mas de todos os sujeitos envolvidos no processo literário que vai da criação à disponibilização do produto cultural no mercado?

Eu sou a favor da divisão das funções. Produção cultural é uma coisa, tarefa para especialistas em marketing e comunicação mercadológica. Criação literária é outra, função artística que não pode estar alienada ou dissociada dos horizontes reais, virtuais e ideais que a receberão.

A inteligência do mercado não é a mesma de um escritor. Nem adianta apelar para a responsabilidade social dos potenciais patrocinadores, porque, para eles, este é um conceito em construção. E patrocinar uma obra literária que ninguém vai ler, além de desperdício, pode ser crime ambiental.

Precisamos aprender a fazer literatura no norte. Isso não quer dizer que estejamos atrasados em relação a outras regiões brasileiras. A carência de um público leitor, a falta de formação e de iniciação desse público infelizmente não é uma realidade apenas nortista. Se o fosse, talvez a resolvêssemos mais rapidamente. Precisamos refletir diariamente não somente sobre o ato literário em si, pois não se trata de um ato isolado. Há linguagens sociais que o regulam, influenciam-no. Só assim chegaremos a uma linguagem literária que seja explorada como recurso na formação de públicos leitores.

 
 
 
13/05/2012 às 12h13
A literatura remodeladora das funções maternas
 

A maternidade é um mistério que singulariza as mulheres, pelo menos em termos ordinários, que também há mulheres que não podem gerar ou parir um filho, o que não lhes desmerece o potencial materno que, aliás, independe do sexo da pessoa, pois há muitos homens que exercem esse papel tipicamente feminino melhor que muitas mulheres o fariam.

 

 O dia das mães é um dia comercial, sem dúvida. No segundo domingo de maio, renovam-se os rituais em torno da maternidade, para movimentar a economia. Mas para quem tem mãe dentro dos padrões de comercial de margarina, o que interessa é o almoço em família, os presentes que mamãe ganha e toda aquela xaropada que não corresponde à realidade de muitas famílias cujas mães são “desnaturadas”.

 

 A força do papel social da mãe (e dos filhos e dos pais e da esposa ou do marido) é tão grande, que o senso comum refere-se às mulheres que se rebelam contra seus excessos como “mães desnaturadas”, pois se trata de uma função natural. De fato, ser mãe, no sentido de engravidar e parir, é natural, mas as imperiosas funções que se atribuem em nível social às mulheres potencialmente férteis são um atentado contra outros aspectos de sua natureza feminina e humana. E o pior é que há mesmo muitas mulheres que deveriam ter nascido sem útero, de tão inadequadas que são com sua prole.

 

 

 A literatura muito contribuiu para a proliferação dessas ideologias em torno da figura materna, fazendo dela um mito, fazendo do engravidar, parir, adotar ou criar uma criança um ritual atualizador das funções sociais da maternidade. Quando a mulher se rebela contra os fardos abusivos que a maternidade lhe impõe, numa tentativa de reconquistar o respeito à sua dignidade humana de mulher, dificilmente é compreendida.

 

 A maternidade é uma escolha consciente e imperiosa a um só tempo. Toda mulher deveria ser educada para isso. Todas deveriam aprender que este papel social lhes impõe mitos e realidades. E quando a realidade do ser mãe é ignorada pela mãe legitimamente constituída, bebê nenhum pode deixar de ter uma mãe de fato. Aí começa o problema, porque a mãe factual nem sempre corresponde aos ideais que ornamentam o mito da mãe que é mãe. E o resultado disso é muita, deveras muita frustração.

 

 No livro “Mãe que faz e acontece”, de Edi Lima, esses ideais recorrem na importância da figura materna ao longo da vida do filho. Moacyr Scliar tem uma coletânea de crônicas chamada “Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar”, que mostra o cotidiano como espaço de construção de vínculos afetivos e familiares nos quais se assenta a maternidade. Terezinha Alvarenga escreveu “A mãe da mãe da minha mãe”, em que uma criança vai conhecer a bisavó e, em meio à pureza da infância, vai estranhando a maternidade como função que se atualiza a cada geração. O dia em que troquei de mãe, de Jaqueline de Mattos, é outro texto que reconstrói o mito da mãe ordinária. A personagem Bruna, não aguentando mais a mãe, as exigências e obrigações de ser filha, foge de casa e vai morar na casa de Susan, mas a vida lá revela que talvez seja melhor aguentar a mãe de verdade, já que é para ter uma mãe. Em todos esses textos, a literatura vai revelando a maternidade em termos ordinários e conquistando a apreciação de quem tem sua mente já condicionada por esta rede de sugestão coletiva que determina um dia consagrado às mães.

 

 

Mas nem sempre a literatura diz amém aos imperativos em vigor na sociedade. A originalidade literária também faz eco ao grito de liberdade das “mães desnaturadas”. Em “Mãe em noite de lua cheia”, por exemplo, de Luiz Antônio Aguiar, uma mãe de 36 anos escolhe realizar seus sonhos, mesmo que isso magoe sua filha adolescente. Ao se separar do marido, esta mulher escreve à sua filha, relembrando os momentos de quando viviam juntas e os conflitos entre ser uma “bruxa” ou uma “fada”, entre lutar para ser feliz ou atender às expectativas dos outros. O romance “Dois Irmãos”, de Milton Hatoun, conta a história de Mãe Zana, a mãe de dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar. Neste texto a mãe também é descrita em termos mais realistas e menos ideológicos.

 

O escritor brasileiro Rubem Braga tem uma crônica dedicada ao dia das mães em que a personagem, tomada pelo zelo materno, torna-se uma figura chata aos olhos do pequeno João, de oito anos de idade. No caso desta crônica, a chatice materna consiste na raiva que a mãe sente quando sua prole sai de seu controle. O texto de Rubem Braga propõe uma reflexão entre controle e cuidado, revela a humanidade da mãe que sente raiva e desconta no filho inocente a ponto deste classificá-la como chata. Na verdade, qualquer papel social que se caracterize pela utilidade funcional do educar é chato por excelência. Nenhum de nós é suficientemente preparado para exercê-lo a contento.

 

 Mas voltando a falar das mães na literatura, essa fonte de inculcação ideológica precisa de escritores que resolvam um problema sério da sociedade. O mito da mãe matriarca, a mãe do núcleo familiar tradicional, a mãe como DNA da tradição social, a mãe moldada segundo padrões ordinários de normalidade, que tem a função de cuidar da casa, do marido e dos filhos, a mãe religiosa, que deixa de ser fêmea ao parir, essa mãe precisa desaparecer das criações literárias.

 

 Já que este tipo de arte é apreciado cada vez mais pelas categorias letradas da sociedade e, portanto, por uma classe social influente, na literatura devem aparecer mães solteiras, famílias uniparentais, a maternidade deve ser descrita como aquilo que ela de fato é, um papel difícil de ser exercido, tendo em vista o tempo e a atenção que os filhos demandam. Cuidar de uma criança não é tarefa para uma só pessoa, mas não está dito que esta outra pessoa tenha de ser necessariamente um pai ou uma mãe. A realidade revela que toda ausência pode e deve ser compensada pela dedicação de outras pessoas: avós, parentes e amigos, o que pode e tem substituído o papel do pai e da mãe. A ausência do pai ou da mãe não traz, necessariamente, consequências negativas para a interação familiar. Não há um único modelo de família saudável. As necessidades de uma criança podem ser supridas por vários arranjos sociais que divergem deste modelo tradicional de maternidade. O que garante o bom exercício da maternidade são os recursos emocionais, sociais e materiais adequados para este fim.

 

 Hoje em dia a psicologia não pode mais alimentar a importância da paternidade ou da maternidade em termos ordinários para o desenvolvimento infantil, haja vista que é cada vez maior o número de homens e mulheres que se recusam a assumir essas funções sociais.
 

 

A literatura deve valorizar as eventuais implicações de ser mãe solteira, mãe viúva, mãe divorciada, mãe que também fica, que tem vários namorados e orgasmos, que trabalha fora, que banca as despesas do lar, que divide tarefas domésticas com outros membros da casa ou da família, mães que viajam a trabalho, mães que cuidam de filhos dos outros e de filhos que não pariram, mães egoístas, que não estão nem aí para seus filhos, mães que não gostam de seus filhos, mães que não queriam e continuam não querendo ser mães, mesmo depois de terem parido, mães alcoólatras, viciadas em jogatina ou drogas, mães de bandidos, mães que exploram seus filhos, mães que abusam do ser mãe, enfim, atitudes e comportamentos maternos, nível social e econômico das mães, inclusive seu grau de instrução escolar, profissão da mãe, a rede de apoio social e familiar que se forma em torno da educação de uma criança, aspectos subjetivos como depressão e estresse, que afetam diversamente a dinâmica e o funcionamento da família real. Tudo isso deve ser tema da criação literária.

 

 A maternidade é antes uma condição subjetiva. Não está dito que toda mulher potencialmente fértil esteja apta a ser mãe, nem que a maternidade é uma espécie de mágica transformadora do caráter de uma mulher, que vai modelando-a para exercer este papel a contento. Isto é o que queriam os segmentos dominantes da sociedade, que têm alianças de poder entre si. Mas a literatura deve educar o povo para reagir contra isso. Expectativas negativas quanto às famílias extraordinárias – como de mães e pais solteiros, casais de gays e lésbicas, enfim, de famílias formadas fora dos padrões de normalidade do núcleo familiar tradicional – podem ser meros preconceitos, sobretudo se resguardadas as condições básicas para o exercício da tutela de uma criança.
 

 

Gostaria de encerrar este post desejando um feliz dia das mães a todas as mães de fato, mães que, tendo parido ou não aqueles de quem cuidam, exercem a maternidade com excelência, mães adotivas, mães substitutas, mães que também são pais, pais que também são mães, avós ou avôs, tias ou tios, irmãos ou irmãs, primos ou primas, amigos ou amigas, mães tradicionais ou mães extraordinárias, enfim, a todas as mães. E também aos filhos que sofrem neste dia das mães, seja pelo falecimento de sua mãe ou pela falta de consciência crítica em face de toda essa ideologia em torno da figura materna. Dia das mães é todo dia, porque, como diria Renato Russo, que também foi mãe, “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque, se você parar pra pensar, na verdade não há”. 

 

 
 
Helder Bentes é Crítico de arte e Professor universitário. Graduado em Letras, especializou-se em Literatura e hoje é pesquisador na área de Estudos Literários. Foi Professor de Teoria Literária, Literatura Luso-Brasileira, Prática de ensino de Literatura e Metodologia da Língua Portuguesa nos cursos de Letras e Pedagogia de várias faculdades paraenses. Sempre preocupado com a formação de professores, atua na área de linguagens, códigos e suas tecnologias e na formação de pesquisadores em educação.
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