Queridos leitores do Blog de Literatura, depois de uns tempos sem atualizar nossa página, aqui estamos para homenagear nosso querido maestro e poeta Waldemar Henrique. Se vivo fosse, este artista paraense que nascera em 15/02/1905, teria feito aniversário ontem.
Waldemar: o gênio desde o nascimento*
Certa vez de montaria Eu descia um paraná E o caboclo que remava Não parava de falar Que caboclo falador! Me contou do lobisomem Da mãe d’água e do tajá Disse do Jurutaí Que se ri pro luar Que caboclo falador Que mangava de visagem Que matou surucucu E jurou por pavulagem Que pegou o uirapuru Que caboclo tentador (...)
Quem lê o trecho da música Uirapuru tem a sensação de estar navegando pelos rios amazônicos e ouvindo as histórias de caboclo. A música, conhecida pelas interpretações de artistas paraenses como Lucinha Bastos e Nilson Chaves, é uma das várias composições do maestro Waldemar Henrique que entrelaçam a música erudita e o folclore da Amazônia. Mas o percurso até o reconhecimento nacional como um compositor amazônico por excelência não foi fácil. É o que afirma a pesquisadora Michelly de Jesus Martins, autora da Dissertação Waldemar Henrique: Só Deus Sabe Por quê, uma análise antropológica a respeito da construção da trajetória de um músico paraense, orientada pela professora Diana Antonaz e defendida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Waldemar teve uma participação ativa na construção da sua imagem, e Michelly Martins procurou entender como isso aconteceu. “O maestro Waldemar Henrique diz que foi coisa do destino, que simplesmente aconteceu. Esse estudo antropológico mostra que não, que ele se empenhou para isso acontecer. Saiu daqui e foi para o Rio de Janeiro, o centro cultural da época. Se um artista quisesse ter renome nacional, acabava indo para lá', afirma a pesquisadora.
Um dos aspectos que chamou a atenção da pesquisadora foi a difícil classificação da obra de Waldemar Henrique. Ao mesmo tempo em que é uma música feita para orquestra e piano, expressa também o folclore paraense e amazônico. Desta maneira, a obra do maestro acaba se situando entre o clássico e o popular.
'Ele não se enquadra nas classificações musicais, e esta é a sua singularidade. Alguns classificam a sua música como folclore; outros, como erudita ou até como erudita popular. Hoje Waldermar Henrique é um ícone da música paraense”, afirma a pesquisadora.
O folclore está presente em várias composições do maestro. Referências às lendas contadas por nossos avós, como o Uirapuru, a Tajapanema e o Boi-Bumbá, são exemplos da influência da cultura popular.
Segundo Michelly Martins, a análise antropológica não considera a obra e a vida do compositor separadamente, mas como uma relação direta. A produção cultural é uma representação das condições sociais em que foi criada, refletindo na linguagem e na estética da canção. Portanto, a música pode ser considerada um discurso social.
A partir deste ponto, é possível entender as composições de Waldemar Henrique como um retrato da sua época histórica. Naquele momento, o Brasil se encontrava sob os efeitos da Semana de Arte Moderna e da aspiração do governo a construir uma nação unificada. As canções amazônicas vieram suprir um espaço destinado ao folclore. 'Ficava mais fácil trabalhar o regional, já que não havia muitos compositores discutindo essa temática. Como é que o maestro poderia ganhar espaço? Justamente levando o amazônida, o regional para dentro do contexto histórico”, esclarece a pesquisadora.
À primeira vista, um estudo antropológico sobre a vida de alguém pode ficar muito próximo a uma biografia, mas existem diferenças fundamentais. Na biografia, o autor pode se deixar influenciar pelo biografado e não focar as relações sociais que criaram aquele personagem.
O estudo sobre trajetória tenta compreender o ponto de vista do próprio compositor sobre sua vida, investigando o sentido que ele conferia a seus atos nos diferentes momentos de sua existência. É possível entender que, mesmo se achando predestinado, o autor jamais deixou de lutar para ocupar um espaço na música e na sociedade. O maestro soube colocar sua criatividade e suas músicas a seu favor no jogo social.
Para entender o quanto a fama de 'gênio desde o nascimento' foi criada em torno de Waldemar Henrique, Michelly Martins precisou pesquisar biografias e reportagens publicadas em jornais, disponíveis em arquivos públicos e particulares, além de entrevistar pessoas que conheceram o músico.
Foram fontes de pesquisa os livros biográficos, como Waldemar Henrique da Costa Pereira e Waldemar Henrique: só Deus sabe por quê, de Sebastião Godinho; Encontro com Waldemar, livro de entrevistas com o compositor, de João Carlos Pereira; e Waldemar Henrique: o Canto da Amazônia, de Cláver Filho.
É neste último livro, principal referência sobre o maestro, que aparecem os mitos sobre a infância e a adolescência do músico. O relato dos primeiros anos, traçado por Cláver Filho, 'é um artefato que nos diz muito da imagem que o próprio Waldemar Henrique desejava que fosse produzida de si'. Na época, o próprio músico teria ficado muito feliz com o trabalho de Cláver Filho, participando, inclusive, do lançamento do livro.
Para a pesquisadora, o biógrafo poderá ver o biografado como o melhor em sua atividade, “fazendo com que o pesquisador/biógrafo não revele tudo. O biografado acaba dizendo o que quer que pensem sobre ele, ajudando a construir uma imagem sobre si”, explica Michelly Martins.
Mesmo não tendo conseguido alcançar a fama de Villa-Lobos, compositor erudito, brasileiro, reconhecido mundialmente, Waldemar Henrique conseguiu conquistar seu espaço em um momento precioso de construção da identidade nacional. A cultura amazônica, característica singular de sua obra, foi uma vantagem frente a outros compositores e artistas. Em contrapartida, o maestro fez com que as histórias da Região Norte ficassem conhecidas no país inteiro.
*Texto publicado originalmente no jornal Beira do Rio, periódico da UFPA, Ano XXVI, Nº 101, Janeiro de 2012, por Vito Ramon Gemaque. E-mail: vito.gemaque@yahoo.com.br
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