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Em 2000, o pesquisador mineiro Fernando Ribeiro e o seringueiro do Acre Francisco Corrente foram presos no aeroporto de Barájas, na Espanha, acusados de tráfico internacional de drogas. Oriundos do Brasil, os dois carregavam consigo 10 litros de 'ayahuasca', bebida extraída do cipó jagube e da raiz chacrona, ambos da Amazônia. A 'ayahuasca' ficou conhecida mundialmente por ser usada nos rituais religiosos do Santo Daime e da União do Vegetal, mas até então era considerada ilícita na Europa.
Os brasileiros passaram 54 dias em um presídio espanhol de segurança máxima e mais três meses impedidos de deixar o país. O episódio foi o ponto de partida para Fernando Ribeiro escrever o livro 'Os Incas, as plantas de poder e um tribunal espanhol', que será lançado amanhã em Belém. Hoje, o pesquisador participa de uma mesa-redonda na Universidade Federal do Pará. Para Fernando, a prisão na Espanha, no ano 2000, justamente quando o mundo comemorava os 500 anos da chegada dos espanhóis à América, abriu as portas para a percepção de que é preciso quebrar os preconceitos sobre as crenças, costumes e rituais dos povos da Floresta Amazônica e das Américas. 'A prática das plantas sagradas é antiga, surgiu antes da chegada dos europeus'.
Foi na tradição do povo Inca, que se estabeleceu em Cuzco, no Peru, que Fernando buscou um elo com a Amazônia e a tradição das plantas de poder que são originárias da Amazônia. 'Para os colonizadores do século XVI, o tesouro era ouro e prata. Não se deram conta de que, para os incas, o tesouro eram suas crenças e tradições espirituais. Daí a ligação com a bebida cerimonial ‘ayahuasca’, o ‘vinho das almas’, cipó e folhas sagrados que abrem a mente ao conhecimento e permitem uma experiência radical do Sacrado', descreve no prefácio da obra.
Ainda em Madrid, o pesquisador encontrou escritos históricos do mestiço inca Garcilaso de la Vega, considerado por muitos como o primeiro escritor americano. Os registros, que contam desde a formação do povo Inca com a chegada à Terra dos reis filhos do Sol, Manco Capac e Coya Mama Ocllo Huaco, foram trazidos para o livro e são recontados paralelamente às desventuras dos brasileiros na Espanha do ano 2000.
Além do levantamento histórico sobre as tradições das plantas sagradas, Fernando se vale da experiência de ter vivido 11 anos na comunidade Céu do Mapiá, no Acre, o centro mundial irradiador das tradições ritualísticas da ‘ayahuasca’. O autor não cita em seu livro nenhum dos inúmeros grupos que realizam rituais com a 'ayahuasca', mas defende que é preciso esclarecer a sociedade sobre as tradições da Amazônia, que não possuem nenhuma ligação com uso de drogas e não são simplesmente um modismo.
Para os adeptos dos grupos como o Santo Daime, a 'ayahuasca' é uma planta enteógena, que produz um estado de expansão de consciência que permite o contato com a espiritualidade e com o sagrado. Atualmente, Brasil, Holanda, Espanha e Estados Unidos permitem o uso da 'ayahuasca' em cerimônias religiosas.
Serviço
Mesa-Redonda com Fernando Ribeiro. Hoje, às 17 horas, no auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal do Pará. Campus Básico do Guamá.
Amanhã, lançamento do livro 'Os Incas, as plantas do poder e um tribunal espanhol', de Fernando Ribeiro. Às 16 horas, no auditório da reitoria da Universidade do Estado do Pará (UEPA), campus Telégrafo, na travessa Djalma Dutra.
Música e dança para os ouvidos de quem não escuta
Recentemente, pesquisadores ingleses descobriram que os deficientes auditivos sentem vibrações na região do cérebro responsável pela audição, o que ajuda a explicar como eles podem sentir a música e apreciar concertos e outros eventos musicais. A informação, no entanto, não traz nada de novo para o lingüista cearense Nilton Câmara, um dos poucos intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais) do País. O jovem idealizou e dirige um coral intitulado 'Mãos que Encantam', formado por alunos surdos. Com luvas brancas, que dão destaque aos gestos, e utilizando uma rica expressão facial, os alunos interpretam clássicos da Música Popular Brasileira. Nilton está em Belém, onde participa de um seminário sobre surdez e garante: 'os surdos são capazes de cantar e dançar com todo o corpo, basta ter uma orientação adequada'.
O primeiro contato de Nilton com os deficientes auditivos foi em 1998, na Igreja Cristã Evangélica de Messejana, em Fortaleza, onde se realizava um trabalho de educação e musicalização com surdos. Desde então, o jovem começou a se aproximar, buscando mais informações e, é claro, estudando a Libras. 'Nunca pensei que levaria isso profissionalmente, mas as coisas foram acontecendo e, hoje, penso e trabalho com surdos 24 horas por dia, de domingo a domingo', conta.
Uma das atividades desenvolvidas por ele é o Coral 'Mãos que Encantam', que tem como objetivo levar a música aos surdos. 'Não acredito em mundo do silêncio. Os surdos podem ver, sentir e se emocionar com uma música quando é bem interpretada. Ver um surdo sorrir, alegrar-se, chorar com a letra de uma música, é o que incentiva o nosso trabalho', explica.
Para o intérprete, a sociedade ainda não está preparada para acolher os deficientes auditivos tanto no mercado de trabalho como no dia-a-dia. 'O nosso País ainda precisa melhorar muito para respeitar os direitos dos surdos, principalmente na educação, que está totalmente defasada. Não buscamos simplesmente uma educação de inclusão como vem sendo aplicada de maneira errônea, mas sim, queremos uma educação de qualidade', aponta.
Devido à sua experiência de 8 anos como intérprete de Libras, Nilton tem sido convidado para participar de programas de televisão e campanhas publicitárias. Recentemente lançou dois vídeos, direcionado para os deficientes auditivos. E agora no mês de junho prepara-se para lançar um portal e um DVD voltado para as crianças surdas.
Quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho dele pode visitar o endereço eletrônico fotolog.terra.com.br/niltoncamara. |