Que tipo de mobilização a ACP está promovendo no movimento contra o separatismo?
Fizemos uma reunião e tivemos a presença e o apoio da Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa), da Agricultura (Faepa), a diretoria e o conselho da ACP. Juntos vamos viabilizar ações para que se possa defender a unidade do Estado, e estamos apoiando o projeto do deputado federal Zenaldo Coutinho, para que o processo de plebiscito não vá à frente.
Vocês temem que o plebiscito não seja representantivo da real vontade dos paraenses?
Santarém estava tentando, não sei se sugerindo ou insinuando, que a consulta fosse só nos municípios que querem se separar, mas aí é jogar com cartas marcadas, e isso não vamos deixar. Até agora o plebiscito só foi aprovado em uma comissão no Senado, então estamos mobilizando os deputados federais e senadores de outros Estados, inclusive mostrando para eles que, se criarem outras áreas no Pará, é bem possível que venham a surgir interesses separatistas em outros Estados, como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e o próprio Amazonas.
Buscar os parlamentares federais é uma estratégia, já que a atual legislatura estadual é a maior em número de representantes do interior do Estado, portanto potencial ou declaradamente favoráveis ao separatismo?
No caso dos deputados estaduais existem muitos interesses pessoais em jogo. Muitos sonham em ser deputados federais, senadores e até governadores nos novos Estados. Então eles querem a separação pela ambição natural, não é uma posição pecaminosa.
Os poucos deputados estaduais anti-separatismo dizem que, ao invés de repartir riquezas, a divisão territorial só irá aumentar a pobreza do Estado...
Não adianta dizer que nosso subsolo é rico. O que teremos é um buraco cavado que vamos ver como vai ficar daqui a alguns anos. Basta ver o exemplo de Macapá, que ficou com muitos rios poluídos. A riqueza é só para os empresários do setor de minérios, isso não chega à população porque a própria legislação não permite que se cobrem impostos sobre o que é extraído aqui. A energia elétrica de Tucuruí, por exemplo, com a qual o Estado poderia ganhar algo em cima de tudo o que se explora do nosso rio, só paga imposto nos Estados para onde é enviada, aqui não fica nada. Se nós tivéssemos horizonte de que todos os novos Estados que fossem criados teriam realmente condições de crescer, caminhar sozinhos, nós seríamos os primeiros a apoiar, mas não estamos vendo isso diante de nós. Temos que nos perguntar: a divisão vai mesmo melhorar a pobreza? Ou podemos ter riqueza de outra forma?
Mas ainda assim os separatistas dizem que, se houver a divisão, regiões pobres poderão ter outras perspectivas.
Se existe uma verba total para criar os dois Estados e mais o território federal do Marajó, então poderia-se pegar esse dinheiro e investir em pólos de desenvolvimento em Santarém, Altamira, Marabá... Ao invés de ter dois ou três bilhões para criar todo esse aparato para um Estado, como tribunais, câmara de vereadores, etc, poderia-se investir em potencial de algum município, em um projeto madeireiro, uma indústria de beneficiamento de minério, laminado de cobre, o que fosse mais interessante e que efetivamente trouxesse riqueza para os municípios.
O senhor acredita que todas as propostas feitas pelo governo do Estado de desenvolvimento territorial, de elaboração do Planejamento Territorial Participativo e outras ações no sentido de descentralizar as decisões e as ações de governo poderão arrefecer esse sentimento separatista?
Só posso dizer que pago para ver, porque tudo é novo, é muito sonhador. Se todas ou pelo menos 50% das promessas feitas pelo Lula para nossa região fossem concretizadas, estaríamos em um mar de rosas. Agora estou esperando as obras do PAC, para saber se elas vêm mesmo para melhorar a região ou só para empacar.
Como o senhor recebeu as críticas de que a ACP não tem representantividade em todo o Estado?
O que leva as pessoas a fazerem confusão é que a Associação Comercial foi a primeira associação desse tipo no Estado, é a mais antiga, a mais representantiva, e por isso é a mais procurada para falar do setor, então os leigos pensam que ela abrange o Estado todo, e não é isso. Respeito a opinião dos companheiros de classe de outras regiões, que discordam da posição da ACP, mas só não aceitei a nota de repúdio que publicaram nos jornais.
O que o incomodou na nota?
Não aceito a palavra repúdio à ACP. Que eles não concordem com a opinião da ACP, que não aceitem a forma como pensamos, mas repúdio de companheiro eu não aceito, pelo que a palavra representa. Não estamos fazendo nada que seja espúrio, desonesto. A palavra repúdio é negativa, é dizer que estamos fazendo algo errado e ilegal, e isso não aceito.
E a Associação Comercial é tem legitimidade para se posicionar quanto ao separatismo?
Tanto a diretoria quanto o conselho da ACP estão se posicionando do lado oposto de quem quer dividir o que nasceu junto. Se criarem o Estado do Tapajós, do Carajás, vamos ficar com a parte degradada da estrada de Bragança, com a faixa de população pobre, e as riquezas, que nem geram tantas riquezas assim para o Pará, vão todas para os outros Estados novos. O que mais incomoda é que não são paraenses que estão querendo o separatismo, mas pessoas que vieram de fora e se elegeram no nosso Estado. É só levantar a vista para ver que não são deputados nascidos no Pará. Se não gostam como está, que eles saiam daqui então. O próprio deputado federal Giovanni Queiroz, que defende tanto o separatismo, não é daqui. Que ele vá criar um outro Estado lá no Estado dele.
Então o senhor diz que a idéia do separatismo vem de fora para dentro do Estado?
Os paraenses não querem isso, nós sempre defendemos o nosso Pará. Dizer que o paraense está satisfeito com essa idéia de separação? Está nada! Estendo que os políticos queiram ganhar mais espaço em suas áreas, mas isso não pode se sobrepor ao que é o sentimento real da população.
Se o plebiscito for aprovado, como será o trabalho da ACP?
Temos que trabalhar para buscar dados concretos e mostrar um lado da história que, na hora da propaganda a favor do separatismo, a população não vai ter. Dizer que simplesmente não queremos dividir o Estado é um aspecto, mas emocional, mas se a lei chegar mais à frente vamos demonstrar por questões econômicas os nossos motivos, mostrar que a idéia de riqueza é uma falácia e que todos vamos empobrecer com a separação. A única coisa que espero de toda essa discussão é que ela seja saudável e que, leve a que levar, não traga mágoas futuras, animosidades. Somos todos paraenses, mesmo se houver a divisão, e ainda teremos aí duas ou três gerações de pessoas nesses outros Estados dizendo que são paraenses, que nasceram no Pará. E com muito orgulho disso.