A carta de Natal do pequeno Deivid José Pereira da Silva, de apenas 5 anos, endereçada ao Papai Noel, abandona o sonho comum dos colegas da creche onde estuda para abraçar o sonho de, em 2009, calçar tão-somente um par de sapatos novos. Enquanto a criançada pediu brinquedos, David pediu um par de tênis. O surrado sapato do menino, que deixa à mostra, pelos buracos, alguns dedinhos do pé, justificam o pedido inusitado para uma criança de sua idade. O apelo está posto aos homens e mulheres de bom coração.
Deivid usa o mesmo tênis há três anos. O calçado já lhe chegou usado, grande para os seus pés, adquirido num bazar promovido pela Paróquia de Santo Antônio de Lisboa. Deu para o gasto e desgasto. É o único que até hoje o menino tem. Emburacado, o par de tênis chama a atenção nos pés de Deivid, filho do biscateiro Luis Roberto Correa da Silva e da manicure Maria Cristina da Silva Pereira, que ainda abrigam no chão pisado do barraco localizado no Jurunas mais dois filhos, irmãos de Deivid, todos crianças.
Para amenizar o desconforto do menino, a professora Maria José Carneiro fez o que estava ao seu alcance durante todo o segundo semestre. Ela recortava, numa dimensão um pouco maior a dos buracos, pedaços de uma material chamado EVA, uma espécie de látex, evitando o contato dos dedos com o chão.
Deivid estuda há três anos na Unidade Educacional Infantil dos Caripunas, uma creche municipal. Cursa atualmente o Jardim I. Como a creche não tem Jardim II, terá que procurar uma escola convencional. A creche dos Caripunas é uma das 35 sustentadas pela Prefeitura Municipal de Belém. Com ele, outras 75 crianças de famílias carentes estudam a passam a maior parte do dia no estabelecimento, todas na faixa etária de 2 a 5 anos. Entram às 7h30 e só saem às 17h30. Fazem quatro refeições por dia, brincam, participam de atividades lúdicas, tomam banho e tiram uma soneca depois do almoço.
Todas as crianças da creche são de famílias humildes, a maioria do Jurunas. Os funcionários, no entanto, arriscam-se a dizer que a família de Deivid é a mais carente das carentes. Mora num quarto de vilas, atrás da casa de número 1098, na rua São Miguel, entre as avenidas 14 de Março e Generalíssimo Deodoro. Nada de asfalto, como se pode pensar. A mãe do aluno eleito o mais necessitado trabalha como manicure. Faz serviço em domicílio. O pai, ajudante de pedreiro, faz 'bicos' para sustentar a prole.
A professora Maria José até fez além do que pode: doou ao aluno uma par de alpergata, que tirou do próprio filho, mas não durou muito tempo de uso. Em outubro, prometeu um par de sapatos novos, mas não conseguiu cumprir a promessa, que também tem cobranças diárias. Tido como aluno dócil, de pouca fala, Deivid traçou o riscado ao Bom Velhinho, pedindo um sapato novo. Tomara que consiga pisar bem em 2009.
Quem quiser ajudar Deivid a receber um par de sapatos novos neste Natal (ele calça 30), pode fazer a doação na própria creche dos Caripunas, até terça-feira (23), quando a unidade de ensino fecha as portas para recesso. Ou na própria casa do aluno, localizada na rua São Miguel, 1098, no Jurunas, entre as avenidas 14 de Março e Generalíssimo Deodoro. A creche dos Caripunas está localizada na rua dos Caripunas, 1909, esquina com a rua Dr. Moraes. O telefone do estabelecimento é 3224-5399.