Quando a cantora Gaby Amarantos subiu no palco armado na Praça do Relógio para a gravação do programa 'Central da Periferia', poucos ali duvidaram que ela seria a grande estrela da noite. Vestida como uma espécie de She-Ra afro-brasileira, ao lado dos Mestres da Guitarrada, do grupo de carimbó Uirapuru e de DJ Iran, da aparelhagem Musistar, ela reafirmou a sua vontade em ser a grande diva pop da Amazônia. Apoiada em uma letra de auto-afirmação da sua identidade cultural ('Sou tecnobrega/Sou calypso', 'Sou a corda do Círio/Sou o carimbó de Verequete e Pinduca'), Gaby liderou e cristalizou em sua figura espetaculosa o cruzamento óbvio, mas até então inédito, das batidas eletrônicas do tecnobrega com os ritmos caribenhos e a música de raiz do interior do Pará.
Avalizada pelo poder de sedução da Rede Globo, Gaby Amarantos é apenas o aspecto mais visível do tecnobrega, o ritmo pelo qual pulsam as baixadas de Belém. Um Kraftwerk de palafita criado quando, no final dos anos 90, DJs como Tony Brasil, Beto Metralha e Iran decidiram que também sabiam fazer música. Mais do que qualquer outro estilo, brasileiro ou não, é o tecnobrega e seus beats acelerados o som oficial dos terreiros e salões de festa da cidade. Inicialmente uma adaptação digital da música romântica brasileira dos anos 70 e 80, feita com samplers e teclados como forma de baratear as gravações dos discos, o tecnobrega modificou-se à medida que estreitou a relação com as festas de aparelhagem. Aos poucos acelerou a batida e incluiu na receita o raggamuffin’, que chega a Belém pelo estado vizinho do Amapá e da Guiana Francesa; o jungle londrino e ritmos caribenhos como a cumbia, o zouk e o calypso.
A radicalização eletrônica do tecnobrega levou os DJs a modificar também as letras, que deixaram as desilusões amorosas de lado e passaram a falar do universo da galera das aparelhagens. Há músicas que falam sobre uma kombi que anuncia as festas do Rubi ('A Kombi da Produção', do DJ Iran), sobre a montagem de uma coluna de alto-falantes, ('Ajustando o Som', de Dee Arimatéia) ou sobre uma turma fã do Popsom ('Galera do Rock', Banda Pintus). É um segmento de mercado considerável, que atrai milhares de pessoas aos salões de festa e terreiros de Belém e gerou uma espécie de metamúsica, cujas letras falam basicamente sobre as turmas de rua, os DJs e suas traquitanas tecnológicas. É o mesmo processo de modernização de ritmos tradicionais pelo qual passaram os estados do Ceará, com o novo forró eletrônico das bandas Aviões do Forró, Limão com Mel e Caviar com Rapadura; Amazonas, através da house amazônica de DJ Maluco e DJ Omena, que mistura ritmos digitais a letras sobre maridos traídos e meninas de moral duvidosa, e da festa do Boi de Parintins, que a cada ano agrega mais e mais novidades tecnológicas, tentando recriar na selva uma versão indígena do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.
Ritmo industrial
No universo urbano de Belém, a festa de aparelhagem é o ponto de convergência da cultura periférica local. Tudo o que o tecnobrega produz diariamente em ritmo industrial tem como destino os sets dos DJs. Espécie de boate itinerante, as aparelhagens surgiram em Belém nos anos 50 e hoje funcionam de maneira semelhante aos soundsystems jamaicanos, enormes sistemas de som e luz que viajam pelos bairros da cidade promovendo festas populares de quinta a domingo. Só na capital paraense existem cerca de 300 aparelhagens em atividade. Nas mais famosas – como Tupinambá, Rubi e Popsom, por exemplo - vigora um código próprio, que inclui gestos, roupas, cores e coreografias. É difícil uma turma fã de uma aparelhagem se misturar a outra, criando assim uma relação de idolatria com os DJs em um cenário meio maluco de simbologia roots e iconografia pop. Pense em uma versão tropical de Blade Runner cuja trilha sonora ecoa por todo o perímetro urbano da cidade.
Com preços que variam entre R$ 5 e R$ 8, a aparelhagem é a boate que vai aonde o povo está. Diversão para uma camada da população que ganha até três salários mínimos e não dispõe de R$ 30 para entrar em uma boate do centro de Belém. Lá dentro, cerveja barata e 'no balde'. No chão de cimento, a parede de alto-falantes despejando o som grave, que bate forte no peito e faz a terra tremer e a batida hipnótica, temperada com ruídos digitais e efeitos sonoros. No cenário, telões, monitores de vídeo empilhados uns sobre outros, lasers e luzes estroboscópicas ajudam a criar o clima cyberpunk de terceiro mundo, onde adolescentes entre 15 e 20 anos dançam freneticamente. À frente desse gigantesco sistema de som, o DJ comanda a tribo incitando o povo a dançar e a entoar gritos de guerra enquanto, pelo microfone, troca recados entre casais de namorados, amigos, turmas de bairro e gangues de rua.
Aparelhagens saem dos guetos sociais
Mas aos poucos as festas de aparelhagem e o tecnobrega saem do gueto. DJ Dinho, do Treme-Terra Tupinambá, já comandou festas em algumas boates de Belém e pôs os filhos da elite local para dançar em uma concorrida apresentação no Salão Nobre da Assembléia Paraense em abril desse ano. Ao mesmo tempo, Gaby Amarantos se desloca do eixo tecnobrega e colabora com a eletrônica cult de DJ Dolores, canta com a banda de rock Cravo Carbono, ganha elogios rasgados de produtores como Carlos Eduardo Miranda (O Rappa) e Kassin (Caetano Veloso e Los Hermanos) e se vê na condição de musa gay após se apresentar na boate A Lôca, em São Paulo, e estrelar uma reportagem na publicação GLS G Magazine.
No palco do Central da Periferia, Gaby sai ovacionada pela platéria para dar lugar ao Treme-Terra Tupinambá. Dinho então emerge fazendo pose por trás de seu 'altar sonoro'. Conclama os presentes a fazer com os braços o 'T' que é o símbolo de sua aparelhagem. Os meninos e meninas - todos moradores de bairros distantes, pele morena, cabelos pintados com mechas loiras e usando versões piratas de roupas da Nike, Reebok, Gang e Adidas – fazem o gesto em saudação ao seu cacique pós-moderno. Nascido nas quebradas do bairro do Jurunas, o tecnobrega se mostra decidido a chutar a porta dos fundos da indústria fonográfica e reclamar o seu lugar no próximo elo evolutivo da música planetária digital. Lado a lado com reggaeton porto-riquenho de Luny Tunes e Daddy Yankee, o dancehall casca-grossa das quebradas jamaicanas e o sexismo favelado do funk carioca. Quando vier, a revolução será digital, pirata e rasteira, no pulso das células mais elementares do ritmo, direto de estúdios de fundo de quintal para as pistas de um planeta em festa. Longe dos olhos do mundo e da indústria fonográfica, Belém começa a definir as suas estratégias de ataque.