ALINE MONTEIRO
Toda história tem o cara que é o mais inteligente, esperto, engraçado, bom caráter, o melhor amigo de todo mundo, enfim, o mais boa-praça de todos. E tem o outro cara - aquele que fica com a garota. Esse é o princípio da empatia que ganha o público em “Meu Tio Matou um Cara”, filme do gaúcho Jorge Furtado que chega aos cinemas brasileiros no último dia deste ano, mas que pôde ser visto em pré-estréia em Belém anteontem à noite, com a presença na platéia da paraense Dira Paes, que está no elenco.
O outro ponto é que aqui os personagens principais da história são um trio de adolescentes vivendo suas primeiras paixões. E é bem provável que algum dia o espectador tenha vivido um desses três papéis. Ou ainda esteja vivendo. Afinal, é bom lembrar que trata-se de um filme com censura para dez anos.
Mas o discurso do diretor Jorge Furtado e seu co-roteirista Guel Arraes, que entendem para que público estão falando, se confirma na tela: os adolescentes e seus sentimentos não são subestimados. Ao contrário, são tratados com inteligência e delicadeza.
O ator Darlan Cunha é Duca, o cara legal, que acaba se apaixonando pela melhor amiga Isa, a menina descolada, segura de si, inteligente, mas que invariavelmente vai cair de amores pelo amigo do amigo, lindo e nem tão legal assim. Já viu toda a cena? Mas o que faz a diferença, claro, é a forma de contar essa história, numa composição permeada pelo humor, das falas dos personagens à trilha sonora (com a pomposa direção musical de Caetano Veloso, mas com espaço para Rappin Hood e para o ensandecido Zéu Britto e sua “Soraia Queimada”).
Na contracorrente do recente cinema nacional, com filmes na linha a “verdade nua e crua” da violência e da desigualdade social, “Meu Tio Matou um Cara” - um filme fofinho, a despeito do que o título possa indicar - mostra o outro lado de uma realidade do Brasil que, pasmem, pode ser feliz e desencanada. Em resumo no gênero do filme: uma comédia romântica.
Não torçam os narizes. Sabemos que poucas tentativas no Brasil de fazer cinema com temas descompromissados, um “cinema-curtição”, renderam, de fato, bons filmes. Mas Jorge Furtado conseguiu isso no seu filme anterior, “O Homem que Copiava” e repete a dose no novo longa. “Acho que o cinema tem que abranger todas as sedes. E o cinema brasileiro está encontrando seu público. E é legal a gente ver que tem interesse tanto para as comédias românticas e para filmes como o que eu fiz antes desse, o ‘Amarelo Manga’,
que poderia ser considerado um filme pouco palatável. Acho que o sucesso não está vinculado à comédia, mas a bons filmes. E o Jorge Furtado foi um um dos diretores que ajudou a formar esse público”, disse a atriz Dira Paes, na tela como Cléia, mãe de Duca.
Fazer a mãe de um adolescente de 15 anos foi novidade para a atriz, que viu na personagem a possibilidade de encarnar a síntese da mulher moderna: “Digo que ela é o trio mãe, mulher e amiga. Foi o desafio fazer a mãe de um adolescente, mas ela é uma mãe moderna, que malha, que é gatinha, que tem uma relação boa com o marido, com o filho, que é feliz, valores que curiosamente são excessão hoje.”
Mas a atriz conta que, antes mesmo de ler as falas da personagem, já tinha se integrado ao projeto. “Sempre tive o desejo de trabalhar com o Jorge Furtado e ele me fez um convite carinhoso, fiquei feliz quando ele disse que também sempre quis trabalhar comigo. O filme tem muito público para conquistar. É divertido, inteligente e não nivela o público por baixo. Faz com que as pessoas tenham curiosidade de acompanhar o raciocínio do Duca.”
O argumento do filme, tirado de um conto publicado por Jorge Furtado em 2002, é simples. Começa no dia em que o tio desguiado (sim, todo mundo também tem um...) de Duca, Éder, numa interpretação impagável de Lázaro Ramos (o mesmo de “O Homem que Copiava” e do programa televisivo “Sexo Frágil”) confessa que matou o ex-marido da namorada e acaba indo parar na prisão. Intrigado com o descompasso das explicações do tio, resolve provar que ele é inocente e a investigação acaba virando desculpa para ter aventuras a dividir com Isa. Só que entre ele e a menina dos sonhos, tem o amigo boa-pinta Kid e a consciência.