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Polícia
Pranto e revolta no enterro de Felipe

Edição de 26/04/2007

Por quê?

Familiares não se conformam com a morte do pequeno torcedor do Paysandu

CASTANHAL
Do correspondente

Mais de 500 pessoas participaram, por volta das 17h de ontem, em Castanhal, do sepultamento do menino Felipe Matheus Lima de Almeida, de 11 anos. Pequeno torcedor bicolor, ele foi mais uma vítima da antiga e truculenta rivalidade entre integrantes das torcidas organizadas que vão aos estádios mais em busca de briga e confusão do que para assistir a uma partida de futebol. Durante todo o dia de ontem, foi enorme a presença dos amigos de escolas, conhecidos, parentes, vizinhos e pessoas do povo na casa onde Felipe morava, na rua Rui Barbosa, bairro Nova Olinda, centro de Castanhal.

Durante o sepultamento, ocorrido debaixo de uma fina chuva, a comoção foi maior ainda, ninguém conseguia esconder as lágrimas e a revolta. Por todo o dia, o que mais deixava as pessoas indignadas e ao mesmo tempo tristes era assistir ao drama vivido pelos pais e pela irmã da pequena vítima. 'Ai, meu bebê, levanta daqui (do caixão), por favor. Que saudades tu já estás fazendo, a alegria da nossa casa. Nunca mais vou poder ouvir tua voz. Uma mãe não merece enterrar um filho', dizia, em prantos, dona Francilene Silva, mãe de Felipe.

Nenhum dirigente, jogador ou representante do Paysandu esteve presente em Castanhal para dar as condolências e confortar a família de Felipe. Um representante da torcida organizada Terror Bicolor foi até o cemitério com um enorme emblema do clube, pendurado no pescoço. Mas ele sequer se manifestou, por sentir que sua presença era indesejada. Saiu de fininho sem ser importunado nem pela imprensa presente ao enterro.

O CRIME

Por volta das 15h30 do último domingo, no Mangueirão, meia-hora antes do RexPa que decidiu o returno do campeonato paraense, Felipe Matheus foi atingido por um rojão, disparado pelo remista Allan Soares Paulino, de 19 anos, no momento em que entrava no estádio. O foguete tinha sido reforçado com pequenas petecas de aço, dessas usadas em jogo de bola de gude. Imediatamente socorrido e logo encaminhado para o hospital Metropolitano, devido à constatação da gravidade do ferimento, Felipe foi operado para a retirada de uma peteca de aço que penetrou em seu crânio. Na tarde da última terça-feira, ele não resistiu, sofreu paradas cardíacas e morreu.

OPINIÕES

André Chaves, coordenador da equipe de esportes da rádio Libera, FM de Castanhal, e Vaninho Oliveira, que faz parte da equipe, manifestaram ontem suas opiniões sobre o episódio que matou Felipe Matheus, enquanto acompanhavam o sepultamento do garoto. 'O problema é que as polícias não conseguem conter o confronto entra as torcidas organizadas até antes de elas chegarem no anel externo do Mangueirão. Foi lá que ocorreu o ataque que matou Felipe. É preciso ser mais severa essa vigilância', afirmou Chaves. Vaninho foi mais contundente: 'O campeonato paraense de futebol foi manchado com esse crime. Sangue derramado fora das quatro linhas. No futebol existem alegrias e tristezas, mas depois dá para recuperar, vencer numa revanche. Mas no caso do menino Felipe, a situação é irreparável', disse Vaninho Oliveira. 'Ele não lembra de notícia sobre morte direta de alguém nos confrontos entre torcidas organizadas de Remo e Paysandu. E dispara contra os políticos que se elegeram por conta de suas passagens como cartolas. 'Não tem um dirigente de clube que queira o fim das torcidas organizadas. O Raimundo Ribeiro vai querer o fim da Remoçada? O Robson ou o Miguel Pinho querem o fim da Terror Bicolor? Todas essas pessoas dependem dessa demagogia, desses votos', afirma o comentarista.

Advogado do acusado de soltar rojão diz que cartolas são culpados

O advogado Andrei Mantovani, que defende Alan Soares Peixoto, acusado de ter atirado o rojão que atingiu a cabeça do estudante Felipe Matheus Lima de Almeida, esteve ontem pela manhã com a delegada Adelina Del PiIlar, diretora da Seccional da Marambaia. O advogado deu entrevista sobre o caso, mas não permitiu que seu cliente fosse retirado da cela para ser fotografado.

O advogado disse que não estava ali para isentar o acusado de culpa, se ela existir. E afirmou que deixará a defesa de Alan se indícios reais apontarem que o acusado é culpado ou se o laudo pericial do Instituto de Perícia Cientifica Renato Chaves apontar para a culpa de Alan.

Mantovani disse, ainda, que queria prestar sua solidariedade à família da criança. Afirmou que como advogado e como pai ficou abalado com o fato.

O advogado levantou questionamentos em defesa de seu cliente. Para ele, inicialmente os indícios contra Alan são frágeis. As testemunhas não disseram exatamente que foi Alan o autor do disparo do rojão e o acusado nada confessou. As testemunhas disseram apenas terem ouvido o estampido de um rojão, mas não viram se foi Alan que atirou a bomba. Alan, segundo ele, tem testemunhas que deporão a seu favor.

Para o advogado, é necessário que o inquérito policial aponte as pessoas que fabricaram o artefato, que para Mantovani são armas fabricadas com a intenção de matar, classificando de absurdo o fato de um rojão ter uma peteca de aço em seu interior, tornando-a uma arma mortal.

Mantovani disse ainda que solicitará ao Ministério Público que identifique os integrantes das torcidas organizadas, entre as quais a Remoçada e a Terror Bicolor. O advogado declarou, ainda, que um juiz ou um promotor deveria auxiliar a Polícia na apuração dos fatos.

Para o advogado, é lamentável que os dirigentes do futebol paraense não sejam chamados para responder pelo fato, se não criminalmente, pelo menos civilmente, já que, para Mantovani, eles também são responsáveis por incentivarem o acirramento de ânimos entre as duas torcidas.

A delegada Adelina Del Pillar disse que Alan foi autuado em flagrante desde o dia do crime e com a morte do menino será indiciado por homicídio. Disse a delegada Adelina que no momento em que Alan foi preso pela Policia MIlitar, o acusado estava na iminência de ser linchado.

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