Edição:Ano LXIV - nº 32.950 Belém, Quinta, 02/09/2010   
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Edição de 02/11/2008

DULCINÉA PARAENSE

Poeta de bons dotes é o que dizem seus raros versos chegados até nós. Não há memória do tanto que fez e escreveu. Há suposições sobre essa hoje meio lendária artista que parece ter fugido às ordens femininas de seu tempo. Insubmissa, é o que era. Juntava-se a poetas homens (e poucas mulheres, talvez) nos poucos terraços de cafés da Belém de outrora, para falar de arte e escandalizava. Seu nome ressoa a Dom Quixote. Teria sido vibrante declamadora. Não se sabe onde ficaram seus manuscritos, pois livro parece não ter publicado nenhum. Quem foi, de fato, como viveu essa fugidia figura que se idealizou mais poeta que dona de casa? Como seria seu talhe? De folhos e refegos, suas vestes? Grave ou agudo, suave ou nervoso, o timbre de sua voz? Esbelto ou franzino, seu porte? Anguloso seu rosto, angelical seu semblante? Morena ou parda, vai ver, cafusa, ou (quem o saberá?) amulatada, ou bela mameluca, com jeitos e trejeitos de índia, como quase diz uma única foto estampada em livro de Clovis Meira? Impetuosa, arrebatada? Passivo, impulsivo ou qual pluma seu trato? Quem já o saberá?

Pelas interrogações já se avalia tão pouco do muito que teria sido Dulcinéa, poeta de raros traços gravados. Poetisa, diriam os homens de letras assíduos nos cafés, ponto exclusivo de machos, por onde a insubmissa também pontificava. Quanto deviam resmungar os que a olhavam de banda, por insubmeter-se. Quanto deve ter escandalizado as senhoritas só de prendas do lar! Terá cruzado no Grande Hotel com Clarice Lispector, naqueles idos presença também constante nas terraces de Belém? Quem já o saberá?

Por onde, Dulcinéa, largaste teus baús de escritos, tu, que sonegaste a este meu tempo, teu futuro, vestígios mais bem delineados, mais nítidos de ti? Por que largaste tudo assim, no ar, teus trinados, a grafia de tuas bem traçadas linhas? Por que te reduziste a um nome e a poucos fragmentos e linhas? Será que ainda virá alguém nos doar teus guardados à reconstituição desejada, tu com este Paraense por sobrenome, com Dulcinéa a ecoar à primeira Dulcinéa por quem endoidecia Dom Quixote? Se tivesses feito aprendizado de prática com Sancho Pança, terias grafado tuas poesias, deixando-as à gente de agora que zanza atrás de pistas, pedaços de ti.

Um dia ouvi versos seus. Quis mais, mas onde? O Max Martins sabe, sopraram. 'Quem, Max, ela?' 'Terá nascido pelo final dos anos vinte; sentava conosco a falar de poesia'. Cécil Meira o confirma em 'A lira na minha terra - poetas antigos e contemporâneos no Pará'. E sugere suspiros ante sua beleza 'mignon', sua poética intimista, sua maneira (vai ver) dorida de declamar. Max disse ter convivido com uma Dulcinéa frente à sua época e nem aí a falatórios. 'Foi feito o quê, dela?' 'Sumiu. A gente some. Quando se vê, onde, para onde, em que beco, em que fim de estrada se enfiou?'

Dizem que, um dia, Dulcinéa, moça andeja, pronto, arribou ao Maranhão. Se casou, não casou, se amigou; se foi por ir ou por laço de amor partido, quem o saberá? Deve ter amarrado com fita de seda seus versos. E virou mistério. 'Eu existi como a mulher que tinha a carne como um grito. Como a mulher que sem saber foi 'alguém' para inúmeros destinos; pelas noites brancas eu me erguia e ia beijar todas as sombras, os meus olhos subiam para beber o céu e sentia escorrer espumas dos ouvidos – era o mar.' Onde jaz ou ainda vibra e deriva, Dulcinéa? Quem o saberá?

Amarílis Tupiassu
Doutora em letras
lilatupiassu@orm.com.br

Email: redacao@orm.com.br