Edição: Belém, Quinta, 02/09/2010   
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Natureza é aliada na hora de dar à luz

Edição de 28/12/2008

Você sabia que, ao fazer uma cesariana, o risco de morte para o bebê é dez vezes maior do que em um parto normal? Exatamente. O parto com cirurgia, que nas últimas décadas teve um crescimento alarmante, pode causar mais problemas do que evitá-los, quando feito de forma indiscriminada. O índice de cesariana no Brasil é um dos mais altos do mundo. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que as cirurgias correspondam a, no máximo, 15% dos partos. Mas a realidade é outra. A cesariana já representa 43% dos procedimentos feitos no Brasil, no setor público e no privado. Nos planos de saúde, esse percentual é ainda maior, chegando a 80%.

Em defesa do parto humanizado, mulheres do Brasil todo montam grupos de apoio a gestantes. Os grupos atribuem este alto índice de partos cirúrgicos à desinformação da mãe e à pressa do obstetra. Desde maio deste ano, um desses grupos vem atuando em Belém. O Ishtar faz reuniões em que se abor um assunto específico relacionado a gravidez. Para dar apoio às gestantes, o grupo também oferece o serviço de doulas, mulheres que dão suporte físico e emocional às grávidas antes, durante e depois do parto.

'Geralmente, as doulas são mulheres que já passaram pela experiência e conseguem passar uma tranqüilidade maior para as mães de primeira viagem', afirma Thayssa Rocha, uma da idealizadoras do grupo no Estado. Thayssa conheceu o grupo quando ainda morava em Recife. Ela conta que, quando engravidou, começou a ter medo da hora do parto e por isso foi procurar em livros e artigos a melhor maneira de dar à luz. 'Todas as evidências levaram ao parto humanizado. Ele é o que melhor atende as necessidades da mãe e do bebê', diz.

Depois disso, ela começou a freqüentar o grupo de gestantes e mudou de equipe médica para achar uma que estivesse mais alinhada aos seus interesses. 'A minha doula foi fundamental na hora do parto. Eu me senti muito mais confiante e por isso decidi me tornar uma. Precisava fazer essa diferença na vida de alguém', diz, emocionada.

segurança

Para ela, o parto humanizado deve ter o atendimento centrado na mulher. Então, se a mulher vai escolher dar à luz de cócoras ou na água, quanto tempo ela vai querer ficar com o bebê no colo após seu nascimento, quem vai estar em sua companhia, se ela vai querer se alimentar e beber líquidos, todas essas decisões deverão ser tomadas por ela, protagonista de seu próprio parto e dona de seu corpo.

Thayssa já participou como doula em sete partos em Belém. Um deles foi o da bióloga Andreza Pinheiro, que conheceu o grupo pela internet e começou a freqüentar as reuniões. Ela fala da dificuldade de conseguir um médico que trabalhe com o parto humanizado. 'Fui em dois médicos antes de achar um que aceitasse. Já conheci pessoas que trocaram de médico cinco vezes'. Sobre o parto, Andreza relata a mesma sensação de segurança com a presença da doula. 'Ela me passou tranqüilidade, o que é muito importante na hora do parto. O apoio e a presença dela foram fundamentais. Ela entendia o que eu estava passando'.

As doulas podem auxiliar no momento do parto apoiando com palavras, dando suporte emocional e também ajudando a mulher a lidar com as 'temidas' dores do parto. Com o uso de métodos não-farmacológicos de alívio da dor - como massagens, banhos, posturas ou simplemsente um abraço quando a mulher estiver se sentindo mais fragilizada ou amedrontada -, elas fazem uma grande diferença.

Pesquisas mostram que partos com acompanhamento de uma doula, além da equipe médica, podem reduzir em 50% as taxas de cesárea, em 20% a duração do trabalho de parto, em 60% os pedidos de anestesia, em 40% o uso da ocitocina (hormônio que tem o papel de promover as contrações uterinas durante o parto) e em 40% o uso de fórceps. Além disso, a mulher assistida por uma doula tem uma experiência mais positiva do parto, a auto-estima e auto-confiança elevadas, recupera-se melhor e amamenta mais.

A médica que atendeu Andreza foi Neyla Dahas, uma das poucas especialistas que apóiam as mães a optarem pelo parto humanizado. O parto do primeiro filho dura em média doze horas, por isso, o profissional precisa dispor de tempo e dedicação. Com médicos melhor remunerados, tanto pelos convênios quanto pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a situação poderia ser diferente.

Segundo a médica, as pacientes que passam primeiramente pelo grupo de apoio a gestantes são muito mais seguras na hora do parto. 'Elas já estão preparadas e chegam a ficar muito tristes quando em um procedimento de emergência precisam recorrer a uma cesariana', afirma Neyla Dahas. Ela diz que não é contra a cesariana, apenas não aprova o uso indiscriminado da técnica. O parto humanizado também é feito dentro do hospital. Caso haja alguma complicação, pode ser feita uma intervenção cirúrgica, mas ela conta que quase nunca é necessário.

Email: redacao@orm.com.br