A espontaneidade de Walter Bandeira ultrapassa os limites do palco. Além de ter um invejável timbre de voz, o cantor tem habilidades artísticas que desafiam a sensibilidade de qualquer um. Se com a voz ele emociona, com as mãos ele cria e recria um mundo de cores que vão do imaginário ao real
Fotos GQ Estúdio
Pouca gente sabe, mas Walter produz obras em aquarela há mais de 20 anos e, até onde ele lembra, os desenhos fazem parte de sua vida desde a infância. Mutante e irrequieto ele já passou por diversas fases. Confessa que há algum tempo fazia desenhos figurativos que lembravam pessoas. Depois, começou a produzir com seus pincéis elementos mais abstratos representando a natureza. Mas a leitura de seus trabalhos não é exata e nunca será, segundo ele. O que para o artista pode ter uma representação tal, acaba por trazer conceitos completamente diferentes e inusitados para quem contempla as pinturas. O abstrato tem disso, aliás. Muitas vezes, nem o próprio Walter sabe ao certo o que quis criar mas, independentemente disso, ele revela que guarda, presenteia ou vende todas aquarelas que faz. 'Não jogo nada fora. Muitas vezes, quadros que fiz há anos se refundem com imagens mais atuais. É um jogo através do qual percebo se meu estilo de pintar mudou', afirma.
Um exemplo desse peculiar processo criativo são os desenhos que envolvem a natureza. 'Sinto que itens como luz e sombra nestas pinturas resgatam desenhos que fiz ainda nos anos 70'. Ou seja, é um comparativo até inconsciente... Para pintar em aquarela, Walter precisa de dois elementos básicos, além dos pincéis e tintas: música e alguma bebida alcoólica. Aliás, ele revela que chega a passar muitas horas pintando e bebericando. 'Eu bebo e faço os desenhos. No outro dia, percebo que os melhores quadros são aqueles que eu fiz quando já estava com algumas doses a mais na cabeça. Os primeiros ficaram cafonas, e os últimos, muito loucos', diverte-se.
O talento de Walter Bandeira com os pincéis já deu origem a quatro exposições individuais e duas coletivas. Há alguns anos, o cantor recebeu um convite para participar do Arte Pará e também tem acervo no Museu da Universidade Federal do Pará. Tudo isso sem ter formação alguma em artes plásticas. 'Sou autodidata. Aprendi sozinho, rabiscando e experimentando. Descobri que pintura em aquarela é a minha expressão. Já tentei pintar em acrílico, mas em todas as tentativas eu não gostei do resultado. Não me convenceu, fica pesado e não é minha praia', explica.
Quando resolve expressar sua arte, Walter começa sem saber exatamente o que vai fazer. Inicia com um rabisco, que vai tomando forma. 'Não decido nada, faço traços e depois surge algo. Não tenho uma inspiração definida, mas a música é uma boa companhia', complementa. Entretanto, quando se trata de inspiração, o imaginário de Walter Bandeira parece não ter limites. Ele relata alguns casos curiosos envolvendo sua arte. Uma vez, ele se deu conta que estava desenhando uma cadeira. Em algum lugar da sua mente, aquela cadeira se escondia sem transmitir um significado. 'Até que um dia eu lembrei que aquela cadeira da pintura era o desenho de uma cadeira inglesa preta que tinha na casa em que eu morava há muitas décadas', conta.
Em outra ocasião, ele desenhou uma mulher deitada, e depois fez um rabisco de uma forma oval, na cor azul clara, perto da mulher. Quando terminou, decidiu que aquela mulher era sua irmã. Mas não sabia o que significava o desenho oval. 'Eu dei de presente o quadro para minha irmã, e algum tempo depois ela engravidou. São elementos engraçados do mundo artístico', enfatiza.
Com relação ao estilo de pintura, Walter Bandeira prefere mesmo as formas abstratas, justamente por poderem representar sempre algo diferente para cada pessoa que aprecia. 'Não gosto de desenhos nítidos e óbvios. A releitura das pessoas é interessante. Depende da experiência de vida de cada um, do momento que a pessoa está vivendo. O que ela entende, ali, é o certo para ela, mesmo que seja diferente daquilo que eu tenha proposto', argumenta. Quanto às tonalidades que utiliza, ele confessa uma certa preferência pela cor malva, mas afirma que usa diversos tons em seus quadros. 'Na verdade, o godê (espécie de tábua onde ficam as cores) acaba não tendo mais uma definição ao longo do tempo. Onde estava o verde, por exemplo, já há uma mistura com outras cores e não se sabe exatamente qual cor vai sair dali quando o pincel tocar o papel. O resultado fica melhor', garante.
Quando compara pintura e música, Walter afirma que as duas artes são apaixonantes, apesar de suas diferenças. 'Cantar é uma relação inter-pessoal. No palco, eu posso ser aplaudido ou vaiado. Na pintura, o imaginário do expectador não tem limites', argumenta o cantor que já está em fase de finalização do seu CD intitulado 'Guardados e Perdidos', gravado no ano passado. O disco tem a participação de diversos convidados, e ele adianta: 'Está ótimo. Estamos ajustando alguns detalhes finais para lançar. São cerca de dez faixas, que variam de Música Popular Brasileira a canções estrangeiras', informa. Atualmente, Walter Bandeira tem feito apresentações na Cervejaria Liverpool (às sextas-feiras) e no Emporium (às quartas).