'Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.'
Nelson Rodrigues
É pelo universo de Nelson Rodrigues que o projeto Fatos e Idéias, do Portal ORM, passeia neste mês de novembro. Uma homenagem ao 'anjo pornográfico' que consegue ser quase uma unanimidade entre os amantes da boa literatura brasileira. Na sexta-feira (18), a partir das 19h, no auditório da TV Liberal, o público poderá conhecer mais daquele que sabia retratar traições, mortes e ciúmes como ninguém, daquele que dizia que 'pouco amor, não é amor'.
O Fatos e Idéias promove encontros que discutem pensamentos e obras de grandes nomes, além de fatos relevantes da história da humanidade. O evento é aberto ao público e tem transmissão online, ao vivo, pelo www.orm.com.br e pelo canal 26 da ORM Cabo. A intenção é manter viva na memória e no coração das pessoas a contribuição de grandes personalidades para a arte, a cultura e o conhecimento da humanidade.
O evento começa com a exibição de episódios do 'A Vida Como Ela É', que, durante algum tempo, passou no Fantástico. Depois, haverá o talk show, sempre mediado por Carlos Correia, com a participação dos professores da UFPA Marly Furtado e Joel Cardoso. Durante o talk show, o ator Adriano Barroso fará leitura de três crônicas do Nelson Rodrigues: Dama do Lotação, O Delicado e O Pediatra.
A última edição do Fatos e Idéias do ano, promete ser concorrida.
O homenageado - A história de Nelson Rodrigues começa em Recife (PE), em 23 de agosto de 1912. Nelson foi o quinto filho (dos quatorze) que o casal Maria Esther Falcão e o jornalista Mário Rodrigues tiveram. Mas foi no Rio de Janeiro, cidade para onde a família Rodrigues se mudou em 1916, que a história do escritor teve altos e baixos e se desenvolveu como nas tramas que o tornaram famoso.
Aos 17 anos, perdeu o irmão Roberto, assassinado com um tiro no estômago por Sylvia Thibau. Dois meses depois da tragédia, morreu o pai, Mário Rodrigues. Por causa da tuberculose, Nelson foi internado diversas vezes, uma úlcera causava dores terríveis e uma hemorragia intra-ocular o deixou parcialmente cego. O irmão mais novo, Joffre, morreu vítima da tuberculose, aos 21 anos. Perdeu o irmão Paulinho num desabamento. O filho Nelsinho ficou preso durante sete anos durante o regime militar. A filha Daniela nasceu cega, surda e muda.
As tragédias que viveu na adolescência e vida adulta foram transformadas em peças de teatro, crônicas, contos e romances. Na infância implicava com professores, principalmente os de Português. Suas obras abriram caminho para o uso coloquial da língua e inovações na temática do texto teatral. Além disso tudo, tinha outra paixão: o Fluminense. Não o futebol, o Fluminense.
A fama de tarado o acompanhou desde a infância. Quando ele tinha quatro anos, uma vizinha invadiu a casa da família Rodrigues e disse para a mãe de Nelson: 'Todos os seus filhos podem freqüentar a minha casa, dona Esther. Menos o Nelson. Este seu filho é um tarado! Peguei-o tentando beijar minha filhinha!'. Detalhe: a garota tinha três anos e Nelson foi visto sobre ela em atitude que a vizinha considerava suspeita.
Trabalhou como jornalista em todos os grandes jornais do Rio de Janeiro, apesar de ter sido expulso do colégio na segunda série do ginásio porque era rebelde e questionava os professores sobre tudo o que era ensinado. Mas impressionava a todos por causa da imensa capacidade de criar histórias envolvendo fatos corriqueiros. Atropelamentos viravam assassinatos passionais.
Nelson Rodrigues escrevia como um louco. 'Vestido de Noiva', uma de suas obras mais famosas, foi escrita em 1943 em apenas seis dias. Após o sucesso da montagem, mentia dizendo que o texto fora trabalhado durante meses a fio. Além das obras consideradas escandalosas para a época, o escritor era famoso por frases como 'mulher tem que ser burra', 'adoro visitar cemitérios' e 'nem toda a mulher gosta de apanhar, só as normais'. Jamais batera em alguém, muito menos em mulher. Mas mostrou o lado machista ao se casar com Elza em 1940 e pedir que ela deixasse o emprego para cuidar da casa. Fora um marido dedicado, apesar das muitas amantes, só não trocava um domingo de Flamengo e Fluminense no Maracanã por programas familiares. Por conta da cegueira parcial, tinha dificuldade para ver da tribuna do Maracanã o que acontecia dentro de campo. Era fanático pelo tricolor das Laranjeiras, mas às vezes torcia por engano para o Flamengo. Quando perguntavam sua opinião sobre o jogo, pedia ajuda ao amigo, o jornalista Armando Nogueira: 'E aí, Armando, o que nós achamos do jogo?'
O escritor morreu em 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos, depois de sobreviver a sete paradas cardíacas. Acabou sucumbindo a uma trombose e à insuficiência respiratória e circulatória.
Toda a trajetória de Nelson Rodrigues será visitada durante o Fatos e Idéias. O encontro já está marcado.
Serviço: O Fatos e Idéias acontece sexta-feira (18), a partir das 19h, no auditório da TV Liberal (Av. Nazaré, 350). O evento é gratuito e aberto ao público. Inscrições: 3213-1552 ou 3213-1114