Santa Maria de Belém do Grão Pará faz 390 anos hoje. O que você diria a ela? Parabéns? Só isso? É pouco. Hoje você tem a chance de mimar esta morena de curvas cheirosas, de caminhos que em outubro exalam o perfume das delícias do Círio. Você já parou para se perguntar o que é Belém hoje? Mistura de novo e velho? Cidade de gente acolhedora, que leva o visitante para dentro de casa como se conhecesse há muitos anos?
Belém é tudo isso sim. É a volta de carro no final da tarde que começa na Doca até chegar à Estação. Na Estação, Belém é o pôr-do-sol amazônida, que merece o aplauso dos hippies, como no Rio de Janeiro. É a juventude das modinhas, das moças e moços de sorrisos bonitos, de domingos calorentos, desses que é preciso sair de casa para passear na praça da República. O final do dia pode ser em algum bar à beira da baía. Pode ser no cinema. O Cine Olímpia é o mais antigo do Brasil e fica na sua cidade, sabia? Ao lado dele, coladinho, coladinho, fica o Rosário - que muitos conhecem como 'Maranhão', por conta da origem do dono do negócio - carrinho que serve o melhor cachorro-quente da cidade. Tudo bem, pode não ser o melhor, o da sua esquina (eles estão em todas, repare) deve ser ainda mais gostoso.
Belém também é ópera. Poucos lugares reúnem tanta gente ao ar livre para ouvir com muita atenção sopranos e outros craques da música clássica. Por falar em craques, futebol também é sinônimo de Belém. Dois tons de azul dão a cor da paixão. Remo e Paysandu, duas paixões distintas, duas paixões que são a cara da cidade. Jogo aos domingos, radinho de pilha, churrasquinho de 'gato', a rampa do Mangueirão. Dividir esse amor? Nem pensar! Só a seleção canarinho conseguiu e foi de arrepiar. Campo lotado (porque aqui ninguém fala estádio), verde do gramado, amarelo das camisas da torcida. Brasil, Belém.
Leia abaixo algumas demonstrações de carinho de cinco escritores pela aniversariante do dia.
Belém - Luciana Rayol
A cidade palavra - Emanuel Matos
Terço por Belém - Carlos Correia Santos
Belém - Benedito Nunes
A expressão amorosa das mangueiras - João Carlos Pereira
Belém
Luciana Rayol
Talvez janeiro seja mesmo o mês que eu mais goste. Gosto de janeiro por algumas razões bem palpáveis e por outras nascidas daquelas minhas associações malucas de quem vive com um pé no mundo paralelo. Então janeiro, como janela, jarro, jasmim é daquelas palavras que a gente enche a boca pra dizer e quando diz abre um sorriso!
E eu adoro fazer isso. Adoro janeiro porque é um mês todo cheio de chuva, onde a cidade exaustivamente quente em que vivo fica mais úmida e doce. É uma época em que começa a chover pra valer em Belém, o que soa como uma bênção sobre nossas vidas. Como se fosse impossível deixar de ser feliz – ano novo e abençoado.
Janeiro é o mês do aniversário da cidade onde moro há tanto tempo que nem me lembro mais. Não vou contar aqui a história da cidade, como é, porque é. Belém é, como diria Jorge Amado acerca de Gabriela e do amor, algo que não se prova nem se mede – existe e basta.
É uma cidade meio azul, meio caos chamada, muito metrópole e bastante província. Em janeiro, Belém faz jus ao título de “Cidade das Mangueiras” e suas árvores ficam repletas de mangas verde-amarelas. É como se a Santa dissesse: No mês do seu aniversário ninguém vai passar fome, pode deixar! As pessoas andam com aquelas fitinhas coloridas de Nossa Senhora de Nazaré amarradas a três desejos no braço; se afogam em bacuri, tacacá, pato no tucupi, cupuaçu, açaí, guajará, guamá, maniçoba, tamba-tajá, patchouli e lírio.
Tem o Círio, o carimbó, o rio; o cheiro-do-pará, a castanha-do-pará; mas, fundamentalmente, o melhor da cidade seja lá quantos anos ela faça, são as pessoas. A tacacazeira, o peixeiro, a dançarina de carimbó, o maestro que é nome de praça e de teatro. Os senhores da guarda da Santa, os laranjinhas que limpam a cidade, os artesãos da praça e do pólo. Tanta gente, como diria Eneida.
Pra definir Belém existem uns brinquedos de miriti, que nos fazem lembrar que a vida é dura como a madeira, mas essa madeira pode ser leve como o miriti. Um caboclo chamado Plácido me contou assim.
A cidade palavra
Emanuel Matos
Belém do Pará.
A cidade está na palavra
Assim como
A palavra está na cidade
Simetricamente postas.
Ambas não têm limites.
Uma veio do oriente
Ao ocidente
A outra faz o caminho inverso.
As duas têm ruas estreitas
Para nos salvar
Avenidas largas para pecar
Além das rotas estelares
Para se achar novos caminhos.
Belém, a palavra
Contém o mesmo som de sino
Que contém a cidade.
Fiéis aos seus destinos
Cidade e palavra
Me provocam desatinos.
Sinos para os mortos
Sinos para o Natal
Sino para o ano novo
Sino Batismal
Sinos para condenação
Para avisar os inimigos
Ou a chegada do peixe.
Sinos da vitória
Sinos de Belém
Sinos de outrora que me lembro
Tão bem. Anunciando triste
A morte do Cristo, também.
A palavra e a cidade
São como são, dissílabos
Infinitamente silábicas
Ao se reproduzirem em músicas
Variadas.
Valsas para o Palacete Pinho
Polcas para os casarões
Maxixes para as rocinhas
Para as Igrejas cantochão
Carnaval para as pracinhas
Numa nota que seja minha
Para dizer que sou tua
Pode ser um Si
Cuja cifra é um B de Belém
Ave! Cidade amada.
Terço por Belém
Carlos Correia Santos
Cidade Nossa que nos cobre com este céu... Santificado seja o dourado das tuas tardes. Venha a nós cada pingo infalível da tua doce ou violenta chuva. Seja feita a tua vontade assim na estiagem como no mormaço.
A manga nossa de cada túnel de folha nos dá sempre. Perdoa se temos te ofendido com nossa pressa diária. Perdoa-nos assim como perdoamos quem ainda não teve a benção de ter te conhecido. Deixa-nos cair na tentação de adorar as curvas dos teus prédios. Livra-nos do mal de partir daqui. Que todos te amem. Que todos te amem.
Cremos em teu calor todo poderoso. Criador da nossa sede por teus sabores. E em teus artistas, teus mais loucos filhos. Que te cantam, que te pintam, que te interpretam, que te escrevem e reescrevem. Cremos na ressurreição da tua memória, na perpetuação do teu folclore, na comunhão das tuas raças, na tua beleza eterna.
Ave, Belém cheia de praças. Nazaré é conosco. Bendita és tu entre as capitais. Bendito é o fruto desse teu ventre: o rio. Santa cidade, mãe de nós. Roga por teus moradores. Agora e em todas as horas do teu futuro. Amém.
Belém
Benedito Nunes
É em fins do século XVIII que o atual traçado de Belém se esboçaria graças à tomada de uma decisão
contrária à natureza fluvial de sua topografia. O engenheiro Gaspar João Gronfelts apresentou ao governador, Ataide Teive, a idéia, tecnicamente realizável, de abrir canais no Piri, construindo-se um lagamar, em cujas entradas, providas de um caes de pedra, se plantariam ár vores fecundas e de ornato. A favor da Natureza, a solução, contrária ao aterramento, predisporia Belém a tornar-se, segundo ponderava o engenheiro, uma nova Veneza. O Governador, que não aceitou a proposta, firmaria a tendência, quase uma fobia hídrica, que norteou a urbanização, da drenagem de quantos cursos d´água - e foram muitos - recortassem o espaço urbano. Em 1803, na administração do Conde de Arcos, começou a aterrar o caudaloso e extenso igarapé do Pirí, o que permitiu que a cidade, principiando a ganhar arborização regular, depois de instalado um Horto Botânico, com espécimes vindos de Caiena, sob a administração de um francês, já tivesse avançado consideravelmente para leste, a Campina, até Nazaré - então o extremo limite da capital - por ocasião das lutas pela Independência, à qual o Pará aderiu em 1823, forçado pela ação de alguns rebeldes (Felipe Patroni e o Cônego Batista Campos) e pela presença da fração da armada britânica (John Pascoe Grenfell), a serviço do nascente Primério Império do Brasil.
Treze anos depois de terminada a cabanagem (1833-1836) - a grande explosão libertária dos mestiços caboclos do interior, habitantes de cabanas, dos tapuios, com ainda os designou o romancista Inglês de Sousa - explosão libertária antiportuguesa, porque contra os privilegiados e grandes proprietários da terra, no período da Regência - a impressão européia do astrônomo e geógrafo do Institut, La Condamine, seria, de certo modo, retificada, em 1848, desde o momento de sua chegada, pelo naturalista Henry Walter Bates, que tinha vindo buscar na Amazônia, em companhia de Russel Wallace, evidências empíricas favoráveis à teoria evolucionista de Darwin:
'As primeiras impressões que tive nesse primeiro passeio jamais se apagarão. Passamos primeiramente por algumas ruas próximas do porto, margeadas por prédios altos e sombrios semelhando conventos, pelas quais transitavam ociosamente alguns soldados de uniformes rotos, com seus mosquetes apoiados displicentemente no braço, bem como sacerdotes, mulheres negras com potes d´água na cabeça e índias de ar melancólico, carregando os filhos nus escanchados sobre os quadris...
... Nossas primeiras excursões limitaram-se aos arredores da cidade , que fica situada num canto de terra, formado pela junção dos rios Guamá e Pará (Guajará)... a floresta que cobre toda a região, chega até às ruas da cidade; na verdade, a cidade foi construída numa clareira aberta na mata, e unicamente os cuidados constantes do governo impedem que a selva torne a tomar conta dela'
Belém era, desde o sec. XVIII, uma cidade cêntrica: centralizava a paisagem do estuário amazônico num cenário, entre rio e floresta; 'boca de sertão' e porto, centralizava as atividades produtivas das demais cidades e vilas do interior na moldura do intercâmbio comercial com o estrangeiro e com o resto do país, pois que também foi mercado escravo; e centralizava, ainda, depois da subjugação e destruição das culturas indígenas, o prolongamento armado da civilização européia na Amazônia, 'exercendo a vigilência da foz e do curso do Amazonas em favor de Portugal' - com o que geriu uma onda de penetração do poder imperial, como dirá Arthur Cezar Ferreira Reis, qual novo 'bandeirantismo' - e entretendo, à época colonial, relações diretas com Portugal, primeiro como parte do Maranhão, depois como testa da Província do Pará e do Rio Negro, até 1850. Com o dinheiro da tradicional exportação de açúcar e de cacau, principalmente, graças a plantações estimuladas nos tempos do Marquês de Pombal, ganhara uma fisionomia própria, de relevo estético considerável.
Por motivos diferentes, La Condamine e Henry Walter Bates puderam encantar-se com uma cidade que, 'pela sua posição e pelo clima, pela arborização e pela ecologia, e pela exuberância do colorido que a cerca', é 'a mais típica e representativa das capitais tropicais brasileiras'. Antes de fadada pelo ciclo da borracha a um enriquecimento extremamente problemático, benéfico sob certos aspectos, mas prejudicial e até calamitoso por outros, sua posição geográfica, entre rio e floresta, entre a foz do rio e o Oceano - que banha a região do Salgado no Pará - já a predestinara também a centralizar a cultura na região amazônica. O trajeto da expansão do capitalismo da era de industrialização, em que os fados a colocariam, atuou como 'um novo processo de estímulo externo, durável e vigoroso', concentrado porém sobre a atividade extrativa da borracha, a seu desenvolvimento econômico, de resultados sempre inigualitários e à sua expressão cultural, sempre fragmentária.
A expressão amorosa das mangueiras
João Carlos Pereira
Privilegiadas espectadoras da maioria dos Círios de Nossa Senhora de Nazaré que já atravessaram a cidade, elas podem contar, porque também estiveram presentes, como foram todos os governos que mandaram e desmandaram em Belém, no período republicano.
Verdade que nem todas conseguiram escapar da fúria de quem, em nome do nada, as agride há mais de um século. Todas são heróicas e silenciosas personagens da paisagem urbana da metrópole aniversariante, que tem sido tão ingrata com suas mangueiras.
Há décadas somos, as mangueiras e eu, fraternos amigos. Não consigo imaginar Belém sem a sombra que elas oferecem, na pior hora do dia, e sem as mangas caindo na cabeça da gente. Mas preciso ser honesto e confessar que jamais as vi como testemunhas do tempo, tal como as descreveu uma das pessoas mais ocupadas que conheço, o administrador Fernando Nascimento, e que, no meio da agitação de seu cotidiano, cuidando da diretoria de telecomunicações das ORM, ainda encontra uma brecha na hora do almoço para caminhar pela avenida Nazaré e namorar as mangueiras.
As mangueiras estão de tal forma ligadas à vida da cidade, que acabaram por se transformar em gente da família. Descuidado dos sentimentos que deveria cultivar, o homem só se dá conta de um grande amor quando, por culpa de seu descaso, de sua preguiça ou de sua leseira acaba por perdê-lo. Com as mangueiras se dá o mesmo processo. Passamos por elas todos os dias. Reclamamos, nem que seja intimamente, quando vemos aqueles rapazes – todos desempregados – enchendo carrinhos de mão com dezenas, centenas, talvez, de mangas que vão buscar, verdes ainda, no alto das árvores. Podemos ir e voltar trezentas mil vezes pelo mesmo caminho e sequer nos damos conta de que estão ali. Mas se uma delas desaba, ficamos sentidos. Cada mangueira que vai ao chão é como um dente que cai. E Belém está ficando banguela de suas mangueiras.
Um dos sonhos de Eneida era que seu túmulo ficasse debaixo de uma mangueira bem frondosa. Não posso informar se foi atendida, porque cemitério é programa que estou dispensando. Em “Santa Isabel” e no “Soledade” cresceram umas mangueiras enormes e todo mundo diz que produzem frutas deliciosas. Não sei porque nunca provei. De cemitério quero mesmo é distância. Mas seria bom que um dos desejos da cronista que mais amou esta terra fosse atendido. De onde quer que esteja (não ousaria dizer que do Céu, porque ela não fazia questão de ir para lá), a senhora de Aruanda haverá de agradecer.
Além de Eneida, outros autores amavam nossas protetoras. Manuel Bandeira chegou a se obrigar a novas saudades, também por causa delas. Mario de Andrade saiu daqui perdido de amores. Tanta gente era encantado por nossas mangueiras. Será que as veremos sumir para depois, como num poema de Drummond, chorarmos sua perda e confessarmos que não soubemos amá-las?
Acho que a cidade aniversariante sorriria, se, neste 12 de Janeiro, ganhasse milhares de novos pés de manga. Muitas mangueiras, mesmo que fossem as mais baixinhas, enchendo as ruas da graça que só Belém possui. Tanto faz se houvesse muitos vidros de carro quebrados ou que mais capôs aparecessem amassados. Isso tudo se resolve. O que não se pode aceitar é a falta de amor pelas mangueiras.