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Violência sem limite muda a vida de paraenses
08/01/2009 - 14h30m
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'Agradeço a Deus todos os dias por ter chegado em casa, mas sempre fico pensando: será que vou chegar no dia seguinte?'. O desabafo é da presidente da Ordem dos Advogados do Brasil Seção-Pará, Angela Sales.

PARTICIPE DO FÓRUM: Você já foi ou conhece alguém que foi vítima da violência em Belém? Conte sua história

O sentimento de impotência diante do crescimento avassalador da violência na capital paraense é comum e o poder público não consegue controlar a situação. Prefere usar outra arma. Sonega informação sobre as reais estatísticas do índice de criminalidade na cidade, que, ao que tudo indica, é muito maior do que chega a conhecimento da imprensa.

O assassinato brutal e sem chance de defesa do procurador da Prefeitura de Belém, Marcelo Castelo Branco Iudice, 33 anos, morto a tiros dentro de seu próprio carro na noite de ontem, no bairro do Umarizal, área nobre de Belém, é mais um exemplo da total falta de segurança na cidade e de planejamento de Segurança Pública, que coloca Belém como uma das capitais mais violentas do país.

'É inadimissível que uma cidade com esse número de habitantes tenha problemas muito maiores como uma cidade como São Paulo, por exemplo. Belém já é, seguramente, a segunda capital mais violenta do país, perde apenas para Recife', denuncia a presidente da OAB.

O que chama atenção no caso da crescente violência na cidade é que ela não escolhe hora nem local. 'Em outras capitais do país, você ainda pode evitar os locais mais violentos, mas aqui não tem mais lugar', ressalta Angela Sales. Essa é uma das principais preocupações que faz com que a população mude seus hábitos. 'Banco não vou mais, posto de gasolina vou com medo, barzinho então, a maioria deixei de ir. Só vou quando tem alguma mesa bem escondida', lamenta.

A cada dia os casos acontecem com maior frequência e cada vez mais próximos de cada um de nós. Há não muito tempo, quando um caso de violência chegava a conhecimento público eram de menor vulto, sem danos à vida.

Hoje o índice de latrocínios e homicídios é assustador, o que para a advogada é apenas a ponta do iceberg, mesmo que a Secretaria de Segurança Pública não divulgue os números.  'Quando chega num nível em que os casos ganham essa visibilidade é porque a situação está bem pior do que pensamos', avalia.

Dados - Em quase vinte anos atuando como promotor de Justiça Criminal no Pará, José Rui de Almeida Barbosa diz que nunca viu Belém numa situação como essa. 'A nossa média de denúncias de latrocínio na Promotoria era de um a cada ano. No ano passado, só no segundo semestre, foram três', revela. Entre os casos a que ele se refere estão o assassinato de um aluno, na porta da Escola Estadual Augusto Meira.

A estatística divulgada pela Promotoria é muito pequena em comparação aos casos que chegam a conhecimento da imprensa e mesmo aos que fazem parte das rodas de conversas na cidade, principalmente pelo fato da Secretaria de Segurança Pública se negar a repassar informações à imprensa, que recebe como resposta de sua assessoria que 'A Segup não divulga estatísticas'.

Até mesmo o Secretário de Segurança, Geraldo Araújo, se nega a vir a entrevistas ao vivo. Como acontece com a TV Liberal, que, há três meses, tenta trazê-lo, sem sucesso, ao estúdio da emissora para falar sobre o assunto no Jornal Liberal 1ª Edição. Aos que foram vítimas da violência, que perderam seus entes queridos, resta apenas lamentar.

Aposentado - A irmã do aposentado Haroldo Moreira, de 61 anos, assassinado mesmo sem ter reagido a um assalto, no bairro do Jurunas, em fevereiro de 2008, se emociona até hoje ao lembrar do crime.

Chorando bastante ao telefone, Ida Maria contou ao Portal ORM que o medo de sair nas ruas, agora, é muito maior e que a única coisa que ainda a prende na capital paraense é sua mãe, uma senhora de 87 anos.

Depois do crime, a vida de todos os familiares mudou. 'Hoje temos que sair sem levar nada que chame a atenção. Ninguém mais tem segurança aqui. Os bandidos matam por um celular, mas do meu irmão nem roubaram nada, só mataram', relembra emocionada.

Ainda segundo ela, a família já pensa em se mudar para uma cidade menos violenta. 'Eu morava em Florianópolis, mas voltei para Belém depois do assassinato do meu irmão. Lamento ter voltado pra cá', diz Ida.

Em relação ao Governo, ela afirma que a família não recebe nenhum tipo de apoio do Estado. 'Pelo contrário, dois dos assassinos estão foragidos', reclama. A família conta ainda que teve informações sobre a localização dos foragidos, informou à polícia, mas que nada foi feito. De acordo com o que foi apurado pela família, após o assassinato, o acusado cometeu mais seis crimes. 'Já falamos com os delegados, mas ninguém o prendeu. A polícia só prende se a família der grana, mas vamos dar dinheiro para eles fazerem o que é a obrigação?', questiona.

Para ela, a dor da perda ainda é muito grande pela impunidade. 'É uma dor que nunca passa. Tudo ainda é muito dificil para nós. Com a prisão deles, talvez haja um alívio nisso tudo, mas parece que a polícia quer que façamos Justiça com as próprias mãos', disse chorando a irmã da vítima.

Médico - A vida dos familiares do cardiologista Salvador Nahmias, que foi assassinado no dia 12 de dezembro, também mudou após o crime. Agora o medo da violência predomina na casa.

De acordo com a esposa de Salvador, Vera Nahmias, a sensação de insegurança aumentou. 'Quando meus filhos ou eu saio ficamos telefonando toda hora e se demoram a atender é um verdadeiro pânico. Eu não me sinto segura', contou a arquiteta.

Para ela, só as pessoas que passaram por situação parecida entendem o sofrimento. 'Você não sabe o que é pânico até passar por isso. Fora a perda que é irreparável, ninguém sabe o que nós sentimos e ontem mais uma pessoa foi vítima dessa violência', comentou Vera, lembrando sobre o assassinato do procurador da Prefeitura de Belém.

Vera já pensou em se mudar de Belém. 'Se não trabalhasse aqui, não pensaria duas vezes antes de ir embora. Meu porteiro foi embora do prédio, depois que foi espacando por causa de R$20 e minha filha também já foi assaltada e colocaram uma arma no peito dela. Como se pode viver numa cidade dessas. Você sente que mudou alguma coisa na cidade? Você se sente segura aqui?', pergunta Vera.

A arquiteta denuncia a falta de policiamento nas ruas. 'Os únicos que tem são aqueles que os estabelecimentos pagam. Não se pode ir à farmácia, a situação é dificílima, me sinto muito amendrontada', afirmou Vera.

A família de Vera também não recebeu nenhuma ajuda do Governo. 'Não recebemos nada, o apoio que temos é da minha família e dos amigos. Meu marido era muito querido, muito amado, ele ajudava muita gente', lembrou.

Reação - A Ordem dos Advogados do Brasil Seção Pará reúne seus 27 conselheiros, ainda esta semana, para definir uma forma de cobrar providências efetivas para conter a onda de violência em Belém. 'Nessa reunião serão discutidas que medidas serão cobradas e de quem vamos cobrar', informou a Presidente da Ordem, Angela Sales.

Outro lado - Procurada pelo Portal ORM, a Secretaria de Comunicação do Governo do Estado informou que deve emitir nota sobre o caso.

Manifestação - Neste sábado (10), milhares de pessoas devem se reunir para protestar contra a violência que assola Belém. Diversos grupos de apoio ao fim da violência e da impunidade querem chamar a atenção da sociedade e das autoridades do Estado que a impunidade é um dos fatores que mais contribuem para o aumento da violência, ressaltando que casos como o da Lílian Obalsk, do jovem Gustavo Russo e outros, ainda não foram resolvidos e os assassinos ainda não foram à júri.

A concentração será às 9h, na travessa do Chaco, esquina com a avenida João Paulo II. 'Precisamos da participação de todos. Peço que as pessoas nos ajude a divulgar para o máximo de pessoas possível. Use seu orkut, email, mensagem no celular, telefone, etc...Vale tudo!', pediu Iranilde Russo, mãe do jovem Gustavo, que foi assassinado após ser mantido refém por assaltantes.



Redação Portal ORM
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