Quem gosta de dar uma volta na roda gigante deve aproveitar o Centro Ita de Diversões no segundo semestre. O parque, que é montado no terreno ao lado da Basílica de Nazaré no período de festividades do Círio, vem a Belém pela última vez em 2009. A decisão é da Diretoria da Festa de Nazaré e foi confirmada pelo presidente, César Neves, que ainda revelou outras ações e medidas que serão tomadas neste ano com o objetivo de impulsionar uma das maiores festas religiosas de todo o mundo em termos de evangelização, cultura e turismo.
A idéia pode surpreender aos mais conservadores, mas não a César Neves, que justificou o veredicto. 'Não vejo motivo para insatisfação, mesmo partindo dos admiradores mais tradicionais da festa. Aposto que nenhum dos moradores da área vai reclamar. O parque gera muito barulho e confusão, além de atrair muita gente para um espaço que não é adequado para receber um número alto de pessoas. Não se trata de separar o sagrado do profano. Estamos apenas querendo deixar o Círio mais tranquilo para romeiros, peregrinos, turistas e até mesmo para os habitantes da cidade. Ainda não temos nada planejado, mas pensamos em erguer uma espécie de complexo de entretenimento na área', revelou.
As opiniões sobre a decisão diferem bastante. O cantor Nilson Chaves, por exemplo, não se mostrou avesso à idéia. 'Acho que se existe uma proposta que parte da própria organização do Círio, que é responsabilidade da Diretoria da Festa de Nazaré, me parece certo. A idéia de não mais termos o Ita como uma parte dos festejos pode tornar as coisas mais ‘homogêneas’, centralizadas', opinou.
Cláudio Valente, que se declara um defensor das tradições do Círio, lamentou a decisão. 'Acho uma pena que terminem o ciclo do Ita em Belém. Quando montado, o parque trazia muita alegria e diversão para todo mundo, principalmente quem veio do interior do Estado para participar dos festejos. Acho a movimentação não chega a ser um grande problema, uma vez que é um lugar que traz sentimentos muito positivos, o que condiz com a energia da festa', comentou.
Arcebispo - A história fala por si só. O Arraial de Nazaré é uma tradição que ocorre desde o primeiro Círio, em 1793. Tem, portanto, 216 anos e, agora, teve o fim decretado pela nova diretoria da Festa de Nazaré. A decisão tem todo o aval do secretário da Cúria Metropolitana de Belém, padre Ronaldo Menezes. Ele declarou ontem que o arcebispo, Dom Orani João Tempesta, deve, sim, apoiar a decisão. 'Se a diretoria tomou a atitude, a diretoria pensa no melhor para a Igreja', afirmou. 'A diretoria sabe o que está fazendo'.
Ontem, o arcebispo não estava disponível para entrevistas porque, segundo padre Ronaldo Menezes, participava de eventos da igreja. Dom Orani passou o dia envolvido com as comemorações do Dia dos Religiosos, o que tomou conta de toda a sua agenda na segunda-feira.
Fumbel desaprova determinação - O presidente da Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel), Raimundo Pinheiro, disse que separar o arraial do Círio é como 'arrancar a página da história'. 'É como se tivessem tirando o próprio Círio das pessoas, a própria corda. Porque, depois de caminhar, é natural que à tarde, à noite, as pessoas peguem as famílias e se desloquem para lá. No momento em que se tira o arraial, não se tem o Círio completo', justificou.
Outro forte motivo para manter o arraial com o parque de diversões é a tradição que não se restringe a Belém. 'Nos outros círios pelo interior do Estado, quase todas as famílias vão para o arraial. É como se fosse a continuidade do Círio. Muita gente nem leva os filhos à procissão, mas faz promessa de levar o filho no arraial', ponderou.
Raimundo Pinheiro não sabe a motivação da diretoria da Festa de Nazaré, mas acredita que nenhum motivo justifica o fim da tradição, mesmo que o espaço físico não atenda mais ou se o verdadeiro motivo é a bebida comercializada na área. 'O Círio é tudo isso, como bem mostra o Auto do Círio. Tem a religião em si e a parte profana', destacou, pontuando que Belém perde dos pontos de vistas econômico, social e cultural. 'O Círio é quem perde no seu conjunto porque durante aqueles 15 dias de festividade temos muito mais gente no arraial do que dentro da basílica. Como é que se vai arrancar isso da história?', atestou.
Na análise do presidente da Fumbel, acabar com o arraial e o parque de diversões é como acabar a corda. 'Pergunta o que o povo acha. Sei que 99% das pessoas não concordarão. Isso já vem junto com o Círio, é cultural. Não tem como separar. Em todas as paróquias, até a de Santa Terezinha, no Jurunas, por exemplo tem o seu arraialzinho', finalizou. A Secretaria de Estado de Cultura (Secult) não se manifestou, embora a Assessoria de Comunicação tenha sido procurada.
Além da construção do complexo de entretenimento, a Diretoria da Festa de Nazaré tem outros projetos. O primeiro deles, já posto em prática, é uma nova réplica da imagem de Nossa Senhora de Nazaré, que ficará o ano inteiro exposta no altar da Praça Santuário sob uma proteção de vidros blindados. É a terceira imagem da Santa, além da chamada peregrina, que acompanha as procissões a cada ano e a original, que fica no Altar da Glória.
Segundo o presidente da Diretoria da Festa, César Neves, a nova imagem, feita por um artesão de Vigia, tem um papel fundamental em outra iniciativa da administração. 'Estamos nos reunindo com membros de Belémtur e Paratur para propor uma espécie de passeio turístico para peregrinos', disse.
'O roteiro contará com um guia turístico e começaria com uma visita à própria Basílica de Nazaré; passaria pela Estação dos Carros (onde são guardados os carros usados nas procissões e a corda); seguiria para o auditório 'D. Vicente Zico', onde os turistas assistiriam a um documentário de 20 a 30 minutos sobre o Círio e depois eles poderiam visitar a Praça Santuário para admirar a nova réplica', detalhou.
Também está sendo planejada uma grande campanha publicitária que tem o objetivo de impulsionar a divulgação do Círio, a nível nacional e internacional. 'O Círio de Nazaré é um grande fenômeno e nós (paraenses) temos que ter orgulho disso. Com essa maior divulgação, estaremos trabalhando três pontos positivos: a religiosidade, a cultura e o turismo. Acredito que é função da diretoria ajudar a elevar o nome da cidade para dentro e para fora do país', comentou.