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Fásciculo 1
Ao longo
dos séculos,
um histórico de mudanças No século XX, novas turbulências aconteceram.
Em 1926, o arcebispo D. Irineu Jofili publicou um documento,
alterando o perfil do Círio. Ele determinava que as
escolas católicas e as irmandades seguissem à frente
da berlinda, entoando hinos e levando estandartes. Atrás
deles viriam o clero e as autoridades. Proibiu que rapazes
descalços e sem paletó participassem do evento.
Vetou igualmente a presença de pessoas usando roupas
de anjo, a pé ou montadas a cavalo; dos membros da
Marujada e dos escoteiros.
Acabou com o carro dos milagres, alegando que as ofertas
em cera deveriam ser levadas diretamente à Basílica,
e orientou que as promessas envolvendo representação
deveriam ser comutadas em ato de piedade. D. Irineu também
aboliu a corda e determinou que a imagem de Nossa Senhora
fosse levada em um andor. O Arcebispo respaldava suas decisões
num documento da Sagrada Congregação dos Ritos,
que proibira, em 1924, a condução do Santíssimo
Sacramento e de imagens em carros alegóricos ou automóveis.
Uma parte da imprensa reagiu. O povo não gostou. A
situação estava de tal modo tensa que, no Círio
daquele ano, o governador Dionísio Bentes mandou a
polícia para a rua, a fim de evitar problemas. A medida
revelou-se inútil.
Belém virou uma praça de guerra. Houve espancamentos
e agressões. Muitos soldados foram apedrejados. A
questão gerou pronunciamentos na Câmara e no
Senado e só foi resolvida em 1931, quando o tenente
Magalhães Barata, que há um ano havia sido
nomeado Interventor e, intimamente, desejava o retorno da
corda, conseguiu, com a ajuda do Ministro do Exterior e do
Núncio Apostólico (que é o Embaixador
do Vaticano), restaurar a tradição. De lá para
cá também houve mudanças. Novos carros
foram introduzidos e a corda continuou gerando polêmica.
Uma outra berlinda, em 1963, de caráter “funcional”,
feita de ferro e vidro, com linhas mais leves, foi imediatamente
rejeitada pela população e uma imagem da Nossa
Senhora de Nazaré foi mandada esculpir na Itália.
É ela que vai nas procissões. A nova imagem
da Virgem Maria traz no rosto uma fisionomia amazônica
e o menino Jesus tem os traços de um indiozinho. A
mídia descobriu o Círio, cujas imagens são
transmitidas, para o mundo todo,
através da Internet. Tudo que envolve maior a festa
dos paraenses vira notícia. Mas nenhuma tão
importante, quanto a demonstração de religiosidade
do povo que confia seu destino à proteção
de Nossa Senhora de Nazaré.
Um achado e uma promessa fizeram o Círio
No final da Idade Média, os portugueses devotos já levavam
as imagens de seus santos padroeiros de uma aldeia a outra.
O cortejo, que nem sempre era breve, às vezes atravessava
a noite. Para iluminar o caminho e louvar o homenageado,
os fiéis levavam grandes velas. Como muitas tradições
lusitanas, essa também atravessou o mar e chegou à colônia.
No Brasil, o hábito de fazer procissões e clarear
os passos caiu no gosto do povo. Mas apenas nas terras do
Grão-Pará a palavra Círio, que vem do
latim cereus e, etimologicamente, significa “grande
vela de cera”, tornouse sinônimo de procissão
e de uma procissão específica: a de Nossa Senhora
de Nazaré. Com o tempo, outras romarias ganharam essa
denominação, mas o grande, o maior entre todos
os Círios, é o de Nazaré.
O primeiro Círio de Nazaré foi às ruas
numa tarde de quarta-feira. A história perde-se no
tempo e o que se sabe é que a manifestação
aconteceu para que o presidente da Província do Pará,
o capitão-mor D. Francisco de Souza Coutinho, pudesse
cumprir uma promessa feita à santinha, cuja imagem
havia aparecido na antiga Estrada do “Maranhão”,
ou do “Utinga,” nome como
também era conhecido o caminho de terra que, hoje,
estaria localizado no bairro de Nazaré.
D. Francisco planejava realizar, na capital, uma grande
feira agropecuária e de artigos produzidos no interior.
Do Marajó viriam bois e animais domésticos;
de Mocajuba e Cametá chegariam patos, tartarugas e
perus da região; do extremo Norte, das terras que
hoje pertencem ao estado do Amapá, seriam trazidos
cacau e castanha; o Acará mandaria cuias, guaraná,
vassouras e tipitis; o Baixo Amazonas participaria com cerâmica
e frutas. Seria um grande evento, ao qual Sua Excelência
não poderia faltar. Três meses antes, D. Francisco
adoeceu e sua ida à Feira estava praticamente cancelada.
Quase um século antes, uma imagem de madeira havia
sido encontrada às margens do igarapé do “Murutucu”.
Esse igarapé, conhecido como “da Santa”,
depois chamado de “das Pedras”, era afluente
do igarapé das “Pedreiras”, cortava a
propriedade de Plácido José de Souza. Ninguém
deve procurá-lo, hoje, na geografia de Belém,
porque, como outros tantos, foi aterrado.
Plácido era um homem simples e devoto. Não
se sabe exatamente que profissão exercia: fala-se
que seria lenhador. Mas poderia ter sido caçador ou
agricultor. Isso não é importante. O que conta é que,
ao retornar para casa, encontrou a imagem de uma santa, esquecida
(ou deixada) sobre pedras, às margens do igarapé.
Como o registro pertence mais ao domínio da lenda
do que propriamente ao da História, contase que a
imagem também poderia ter sido achada entre os galhos
de uma árvore. O certo é que Plácido
José de Souza levou para casa a santinha, envolvida
com um manto de seda brilhante. No dia seguinte, quando foi
procurará-la, encontrou o pequeno altar onde a guardou
completamente vazio.
Sem poder imaginar quem a havia tirado dali, (era improvável,
no último ano do século XVII, em plena floresta
amazônica, que os ladrões de peças sacras
estivessem na ativa!) voltou ao local onde a encontrou e
eis que estava lá, quietinha, como se houvesse retornado
ao lar. Plácido recuperou a santinha e levou-a, novamente,
para casa. No dia seguinte, ela não amanhecera onde
fora deixada e já era possível saber seu paradeiro.
Não há memória de quantas vezes o teimoso
Plácido a reconduziu e ela voltou - sozinha! - para
o seu lugarzinho de origem. Certo de que sua santinha gostaria
de ficar exatamente na beira do igarapé, ele construiu
um pequeno oratório, que batizou de “O Coração
do Humilde”. O Governador da época, curioso,
talvez descrente, mandou buscar a imagem e trancou-a, sob
proteção policial, em um dos cômodos
do Palácio.No dia seguinte, ela reapareceu em seu
nicho original. Brotava, assim, na alma do paraense, a devoção à Virgem
Maria de Nazaré.
De 1700, ano em que a imagem foi encontrada, até 1793,
data da realização da Feira idealizada por
D. Francisco de Souza Coutinho, a confiança em Nossa
Senhora de Nazaré só fazia aumentar. As pessoas
vinham de longe para pedir a ajuda da Mãe de Jesus.
O Presidente da Província sabia disso e valeu-se do
auxílio de Nossa Senhora, prometendo que, se ficasse
curado e pudesse participar da Feira, cujos preparativos
começaram em 1791, levaria a imagem até o Palácio
do Governo e, de lá, sairia em procissão até a
capelinha, edificada no lugar onde Plácido, àquela época
já falecido, construiu o primeiro oratorio. Milagrosamente,
D. Francisco ficou curado e, na noite de 7 de setembro de
1793, a senhora foi levada ao Palácio. Nascia, ali,o
Círio de Nazaré.
Na primeira procissão, como a diocese estivesse sem
um Bispo titular, o Capelão do Palácio conduziu
a imagem no colo. O cortejo seguiu pela margem do igarapé do
Piri até chegar ao arraial. Consta que 1.932 soldados
vinham à frente dos vereadores
e do palanquim que trazia a imagem da santa, ao lado do qual
seguiam o Presidente e o Vigário.
Ao centro, seguiam cavaleiros fidalgos,usando casacos pretos
e chapéus de três bicos e formavam alas. O esquadrão
de cavalaria e seus clarins embelezavam o evento. Um agradecido
D. Francisco de Souza Coutinho, já totalmente recuperado,
prestigiou a Feira, durante todas as noites.
A procissão em honra de Nossa Senhora de Nazaré saia
da Cidade Velha, tal como acontece hoje, e, para chegar ao
local onde a santa foi foi achada, era preciso atravessar
a cidade, através da mata. Quando escurecia, os fiéis
acendiam os seus círios. Em 1800, o presidente da
Província, Souza Coutinho, mandou fazer em Portugal
uma grande vela, que abria a procissão. Era mais um
hábito da “terrinha” que chegava ao Pará.
A romaria crescia de ano para ano e, em 1803, surgia a alegoria
de D. Fuas Roupinho. Vinte e três anos mais tarde,
era introduzido um carro com formato de castelo, onde estavam
hasteadas bandeiras das nações cristãs.
Esse mesmo carro levava homens que, ao longo do percurso,
soltavam foguetes.
Em 1855, apareceram, de um só vez, mais três
carros: a Barca dos Milagres, o Anjo Custódio e a
Berlinda. A Barca dos Milagres era representada pelo brigue “São
João Batista”, para lembrar o ajuda de Nossa
Senhora a doze marinheiros que conseguiram escapar de um
naufrágio. Eles invocaram o seu nome e se salvaram.
Os outros não tiveram a mesma sorte, ou melhor, o
mesmo amparo. O navio autêntico foi substituído
por uma réplica em tamanho menor. O carro do Anjo
Custódio foi construído para que a filha do
primeiro vice-presidente da Província, Ângelo
Custódio, pagasse uma promessa. A Berlinda, um dos
mais bonitos símbolos do Círio, tinha o formato
de um pequeno coche português.
Numa data não especificada, (talvez fosse 1868; talvez
fosse 1885) uma tempestade quase inviabilizou a realização
do Círio. Para evitar surpresas causadas pelo tempo,
a procissão teve seu horário alterado e passou
a sair de manhã, quando, no segundo semestre, raramente
chove em, Belém. A partir de então, nunca mais
se ouviu falar em Círio começando à tarde.
Surgiam, ao mesmo tempo, sem que ninguém prestasse
atenção, três tradições:
a do Círio matinal (hoje, é verdade, devido à quantidade
de pessoas, a procissão avança pela tarde.
Em 2000, chegou à Praça Santuário às
16 horas!), o almoço em família e a corda,
que foi usada para desatolar a berlinda do lamaçal
que se formou, às proximidades do Ver-o-Peso, num
dia em que o rio Pará, muito cheio, transbordou. Até 1881,
o Círio saía do Palácio do Governo.
A partir de 1882, um acordo entre o bispo D. Macedo Costa
e o presidente da Província, Justiniano Ferreira Carneiro,
fez com que o cortejo partisse da igreja da Sé. Era
mais uma tradição que se inaugurava. A data
de realização do Círio, contudo, ainda
não estava definida. Há registros de Círios
em setembro, outubro ou novembro. Em 4 de janeiro de 1886,
a Sagrada Congregação dos Ritos marcou o último
domingo de outubro para a realização da festa
de Nazaré. Posteriormente, fixouse o dia do Círio
no segundo domingo de outubro.
Bem diferente de hoje, quando o Círio é motivo
de confraternização e não de brigas,
no século XIX, mais exatamente em 1878, a procissão
gerava discórdia. Questões envolvendo o bispo
D. Macedo Costa e o governador José da Gama Malcher,
por causa da construção da nova igreja de Nazaré,
levaram a Diocese a proibir a realização do
Círio. Um cortejo, de caráter puramente civil,
foi às ruas, sem a presença de um religioso
sequer. O mesmo aconteceu em 79. Somente em 1880 Estado e
Igreja se entenderam e o Círio voltou a ser comandado
pela Diocese, que passaria a ter o domínio do templo.
Fascículo 1 - O Início
Fascículo 2 - Procissões
Fascículo 3 - Carros e Promesseiros
Fascículo 4 - Basílica de Nazaré
Fascículo 5 - O Almoço
Fascículo 6 - Arraial, Miriti e Festa
Fascículo 7 - Eventos, Imagens e Diretoria
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