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Fascículo
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Muitos quilômetros percorridos em nome da
fé
Como se não fosse suficientemente grande para que
o povo pudesse louvar Nossa Senhora de Nazaré, o Círio,
como um Amazonas de fé, produziu afluentes pelas duas
margens. AlÉm da romaria triunfal, outras dez procissões,
de caráter oficial, porque constam do cronograma da
Diretoria da Festa, são realizadas ao longo de duas
semanas e envolvem milhares de pessoas.
Juntas, elas compõem um clima de religiosidade que
já não pertence apenas à comunidade
católica. Os passos do Círio e seu sentido
mais verdadeiro conduzem a Jesus Espetáculo pirotécnico
ilumina, com muitas cores, os céus de Belém
para saudar a imagem da Virgem Maria de Nazaré, na
noite da Trasladação Cristo e os católicos
conhecem bem esta verdade.
A seqüência de procissões começa,
em ordem cronológica, com a do “Traslado para
Ananindeua”, que foi criada em 1997. A idéia
da Diretoria da Festa era dar solenidade ao transporte da
imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré para os
municípios de Ananindeua e Marituba. Nos dois primeiros
anos, a santinha ia em um Cibório (uma armação
em metal, constituída de uma
abóbada sustentada por quatro colunas retorcidas ou
retas) e ia exposta ao vento, à chuva e à poeira.
Para evitar o desgaste da peça, optou-se por uma réplica
da berlinda, em tamanho menor, que é colocada sobre
um carro da Polícia Rodoviária Federal e sai
da Basílica, às 13 horas da sexta-feira que
antecede o Círio. A imagem passa a noite na Matriz
de Ananindeua, após cumprir um trajeto de 40 quilômetros,
ao longo dos quais recebe muitas homenagens.
Apesar de mais antiga que a do “Traslado para Ananindeua”,
a segunda procissão, criada em 7 de outubro de 1989,
pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e chamada
de “Romaria Rodoviária”, parecia, embora
não fosse, um complemento da que lhe antecede. Depois
de algumas mudanças, ficou definido que a procissão
sairia às 6 horas da manhã, da Matriz de Ananindeua,
com destino a Icoaraci, de onde parte a quarta procissão,
batizada de “Romaria Fluvial”. São 24
quilômetros pela Rodovia Augusto Montenegro, tanto
a do “Traslado” quanto a “Rodoviária”,
nasceram em função da “Fluvial”.
A quarta procissão do período do Círio
foi criada em 1986, pelo jornalista Carlos Rocque que, à época,
presidia a Companhia Paraense de Turismo – Paratur.
Na manhã de 8 de outubro, a imagem foi levada até Icoaraci
e recebida com festa e honras de Chefe de Estado, conforme
prevê a Lei 4.731, de 15 de dezembro de 1971. O então
arcebispo D.
Alberto Ramos celebrou a missa e a imagem foi colocada em
uma berlinda, na corveta “Mearim”, do IV Distrito
Naval, onde seguiu até a escadinha do cais do porto,
em Belém. Centenas de barcos, lanchas, balsas e veleiros
fizeram a primeira procissão fluvial. Quando o cortejo
chegou à cidade, um fenômeno surgiu nos céus.
Uma grande auréola se formou em torno do sol, oferecendo
um espetáculo luminoso jamais visto. D. Alberto Ramos,
emocionado, disse que o percebia como um aviso de que a Virgem
Maria aprovara a idéia. Estava institucionalizado
o que o jornalista Raymundo Mario Sobral batizou de “Círio
das Águas”.
Quando o “Círio Fluvial” aporta em Belém,a
imagem de Nossa Senhora de Nazaré recebe, novamente,
as homenagens reservadas aos Governantes e parte em procissão.
Desta vez, a quinta. É a Romaria dos Motoqueiros,
que foi criada em 1990, pela Associação dos
Motoqueiros. O final da manhã do sábado, véspera
do Círio, vê chegar, de todas as partes da cidade,
centenas, talvez milhares de motos. Os motoqueiros vão
receber Nossa Senhora no porto e a conduzem, num percurso
de 3,3 quilômetros, até o Colégio “Gentil
Bittencourt”, de onde, horas mais tarde, sairá a
Trasladação.
A quinta grande manifestação de fé dos
paraenses é a Trasladação. Ela acontece
desde 1793 e, embora não tivesse esse nome, na noite
de 7 de setembro, quando o presidente da província,
D. Francisco de Souza Coutinho, e seu capelão, padre
José Roiz de Moura, apanharam a imagem na capelinha
erguida no local onde foi achada e a levaram para o Palácio,
a idéia de que anunciaria o Círio estava formada.
Quase um século depois, em 1877, seguia do colégio
do Amparo, hoje, “Gentil Bittencourt”, para o
Palácio. Duas décadas mais tarde, a imagem
continuava saindo do mesmo local, agora com destino à igreja
da Sé.
Até 1989, o cortejo seguia por um trecho onde havia
quatro curvas, que dificultavam o deslocamento dos fiéis.
A berlinda trafegava pelas avenidas “Nazaré”, “Generalíssimo”, “São
Jerônimo”, depois “Governador José Malcher”,
dobrava na Travessa “Dr. Moraes” e encontrava
a rota definitiva na avenida “Nazaré”.
A partir dali, descia a avenida “Presidente Vargas”,
até a rua “Santo Antônio” e seu
prolongamento, a “Conselheiro João Alfredo”.
As lojas do antigo centro comercial de Belém ficavam
abertas até a passagem da procissão. Enquanto
os romeiros levavam a imagem pela Rua “Santo Antônio”,
o Sindicato dos Estivadores prestava-lhe uma homenagem, promovendo
um espetáculo pirotécnico. Em 1990, para evitar
tantas curvas, o percurso foi alterado e adotado o caminho
inverso ao do Círio.
Com a quantidade de fiéis crescendo sem parar, a “Trasladação” passou
a ser quase tão grandiosa quanto o Círio e
os fogos, na véspera da grande romaria, ganharam dimensão
cinematográfica. A sexta procissão, na lista
de homenagens à Nossa Senhora, é, em todos
os sentidos, a primeira: o Círio. O primeiro Círio
saiu da capela do Palácio do Governo e desenhou um
itinerário muito parecido com o atual. Há registros
de que dez mil pessoas acompanharam a procissão.A
imagem de Nossa Senhora de Nazaré foi carregada pelo
capelão José Roiz de Moura , num palanquim
azul. Era uma tarde de quartafeira e, quando o Círio
chegou ao Arraial de Nazaré, foi celebrada a missa.
No encerramento, aconteceu a cerimônia de lançamento
da pedra fundamental da nova igreja.
Em duzentos e doze anos de existência, o Círio
só não aconteceu em duas ocasiões ou,
por divergência de informações, em uma:
em 1819, quando um surto de gripe espanhola deixou a cidade
praticamente de cama; e (ou) em 1835, momento em que os cabanos
dominavam Belém. Esse registro, contudo, oscila entre
a verdade e a lenda. Outros problemas atravessaram, ao longo
dos séculos, o trajeto do Círio. Em 1853, uma
chuva torrencial dispersou a multidão que levava a
imagem de Nossa Senhora, à altura da Praça
da República. Dois anos mais tarde, um surto de cólera
abalou a capital. Os doentes caíam nas ruas e a doença
se alastrava rapidamente.Famílias inteiras eram atingidas.
Mesmo assim, houve Círio. A epidemia só foi
debelada em 1856.
Até 1882, a procissão saía da Capela
do Palácio. Um acordo entre a Igreja e o Governo alterou
o local de partida do Círio, levando-o para a frente
da Catedral. Em 1973, o exgovernador Fernando Guilhon, que
havia determinado a restauração da capela da
sede do Executivo Estadual, pediu que o Círio começasse,
naquele ano, no mesmo espaço que até 1882 havia
sido seu ponto inicial. Como a quantidade de fiéis
aumentava de forma nunca vista, os organizadores acertaram
que a missa que antecede a saída da procissão
não mais seria celebrada no interior da Catedral.
Um altar foi montado em um palanque, em frente ao templo,
para que muito mais pessoas pudessem participar da Eucaristia.
Desde 1901, quando o bispo D. Francisco do Rego Maia fixou
o segundo domingo de outubro como data oficial do Círio,
nunca mais houve alterações de calendário.
O percurso também não é modificado há décadas.
Em 2002, porém, um incêndio de grandes proporções,
alterou a rotina da procissão. A Diretoria da Festa
colocou em ação um plano alternativo e desviou
a romaria do Boulevard “Castilhos França” para
a rua “João Alfredo”. A berlinda, que,
naquele ano, não fora atrelada à corda, só retornou
ao Boulevard, depois da passar da travessa “Frutuoso
Guimarães”. Naquele ano, os quatro quilômetros
e meio que separam a Igreja da Sé da Basílica
de Nossa Senhora de Nazaré foram vencidos em pouco
mais de quatro horas.
Passado o momento especial, que é o Círio,
outras procissões, ao longo dos quinze dias de festa,
continuam a ser realizadas. No dia da Padroeira do Brasil,
por ser feriado nacional, os ciclistas de Belém organizam
a sua romaria que, em 2005, sairá às ruas pela
segunda vez. Um carro da Polícia Rodoviária
Federal conduz a réplica da berlinda com a imagem
peregrina. Os ciclistas percorrem um longo caminho, que inclui
os bairros de Nazaré, São Brás e Centro,
até a Praça Santuário. É a sétima
procissão. No dia 15 de outubro, o Movimento Jovem
da Paróquia de Nazaré promove a “Romaria
da Juventude”. Idealizado há quatro anos, o
evento – o oitavo do gênero - não tem
um roteiro definido e, a cada versão, vê multiplicar-se
o número de jovens devotos.
Em 2005, a Coordenação da procissão
definiu a saída do Santuário de Fátima
e a chegada à Praça Santuário.A nona
romaria do tempo do Círio é dedicada aos pequeninos.
O “Círio das Crianças” foi criado
em 1990 e acontece na manhã do primeiro domingo após
o Círio. Inicialmente, a imagem era levada em um andor
que, em 1994, foi substituído pelo Cibório.
As crianças conduzem a santa pelas ruas do bairro
de Nazaré, percorrendo 1,8 quilômetros.
A décima romaria não é recente como
as outras. Na verdade, só não é mais
antiga que o Círio, a Trasladação e
o Recírio. Há informações de
que acontecia desde 1881, antes mesmo da chegada das Barnabitas à Basílica.
Os organizadores da festa idealizaram uma espécie
de procissão particular, em agradecimento à Nossa
Senhora pelas graças alcançadas. Como o Círio,
ela
também saía à tarde, mas a chuva obrigou
a mudança de horário. Atualmente, a Diretoria
da Festa leva a imagem, a partir das 8h30 da manhã,
pelas ruas do bairro de Nazaré, num percurso de 2,5
quilômetros. É uma espécie de “até o
ano que vem”, visitando algumas comunidades assistidas
pela Paróquia de Nazaré, daqueles que, sem
nada receber pelo trabalho realizado, oferecem sua disponibilidade
pela causa do Círio e de Nossa Senhora.
A festividade de Nossa Senhora de Nazaré termina
com a décima primeira romaria. O Recírio conduz
a imagem peregrina de volta ao Colégio “Gentil
Bittencourt”, na manhã da segunda-feira, o décimo
sexto dia após o Círio. Em 1859, ela ainda
era levada de volta ao Palácio, encerrando a quadra
Nazarena.A missa da despedida é celebrada às
6h30 da manhã, no altar da Praça Santuário
e, ao final, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré é colocada
num andor. A multidão acompanha o trajeto que circunda
a Praça, a avenida “Nazaré” e o
pequeno trecho da avenida “Governador Magalhães
Barata”, agitando lenços brancos.
Como se dissesse adeus a um familiar que parte – mas
retorna no ano seguinte – o povo chora e acena. São
imagens de pura devoção.
Fascículo 1 - O Início
Fascículo 2 - Procissões
Fascículo 3 - Carros e Promesseiros
Fascículo 4 - Basílica de Nazaré
Fascículo 5 - O Almoço
Fascículo 6 - Arraial, Miriti e Festa
Fascículo 7 - Eventos, Imagens e Diretoria
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