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Fascículo
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Carros do Círio embelezam a procissão e lembram
a história
A história aconteceu no monte São Bartolomeu, às
proximidades da cidade de Nazaré, em Portugal. O
cavaleiro D. Fuas Roupinho, devoto de Nossa Senhora, costumava
venerar a imagem de Maria que, segundo a tradição,
havia sido esculpida pelo próprio São José,
pai adotivo de Jesus. Na guerra com os mouros, a peça
ficou protegida e foi levada para a Espanha. Os invasores
avançavam e, sob o risco de uma dominação
islâmica, a imagem e outras relíquias foram
levadas para um local seguro. Era o ano de 714, quando
frei Romano construiu um pequeno nicho entre os rochedos,
onde o ícone da Virgem Maria ficaria seguro.O religioso
morreu e a peça permaneceu esquecida. D. Fuas teria
encontrado a imagem e, sempre que ia ao monte, colocava-se
em oração. Como era dado à prática
da caça, no dia 8 de setembro de 1182, cavalgava à beira
do rochedo, atrás de um veado. Era um dia nublado
e D. Fuas não percebeu que ia em direção
ao abismo. Quando viu, seu cavalo já estava com
as patas dianteiras no ar. O cavaleiro, então, lembrou-se
da Virgem de Nazaré e implorou por salvação.
O cavalo fixou as patas traseiras com tal força,
que a marca dos cascos, diz a lenda, ainda hoje pode ser
vista no local. D. Fuas salvou-se e, em sinal de agradecimento,
doou aquelas terras à Nossa Senhora e mandou edificar,
ali, uma ermida. Este milagre, por ordem de D. Maria I,
rainha de Portugal, foi lembrado no primeiro carro do Círio,
em 1803, e até hoje existe.
Em 1826 surgiu um outro carro: o dos fogos, que tinha o
formato de um castelo e trazia, além de fogueteiros,
bandeiras de todas as nações cristãs.
Até 1981 esse carro saiu no Círio, cumprindo
uma tradição de 155 anos. Em 1855 surgiram
três carros: a barca dos Milagres, que evocava o milagre
com os marujos náufragos e, posteriormente, foi incorporada
ao carro de D. Fuas; o Anjo Custódio, que levava,
ricamente ornamentada, a filha do vicepresidente da Província, Ângelo
Custódio Correia, em pagamento de uma promessa; e
a Berlinda que, na verdade, era um coche europeu, de quatro
lugares, puxado
por animais.
Quando viu o Círio pela primeira vez, o bispo D.
Irineu Jofilly achou que se tratava de uma procissão
muito festiva e proibiu a presença de carros com rodas.
A determinação incluía o fim da corda
e transformava os carros em andores. Em 1931, depois de uma
crise que só foi resolvida pelo interventor Magalhães
Barata, que apelou para o Ministro do Exterior, chanceler
Melo Franco, e para o Núncio Apostólico, D.
Aloísio Masela, a normalidade volta a reinar na procissão:
a Berlinda era puxada pelo povo, e os carros, por animais.
Como sujassem o caminho do Círio, os bois e os cavalos
foram, aos poucos, sendo trocados pela tecnologia. Nos anos
70, aconteceu a substituição dos animais por
pequenos tratores. O povo não gostou da mudança
e os devotos retomaram a condição de condutores
dos veículos. Na década de 80, estudantes de
vários estabelecimentos de ensino receberam a incumbência
de conduzir os Carros do Círio. Essas alegorias eram
tão procuradas que, até a metade da década
de 70, havia nada menos do que quatro carros de Anjos.
Os anos 80 trouxeram outra inovação ao Círio:
a barca com vela. A década seguinte criou o Barco
dos Escoteiros. No Círio do ano 2000 surgiu um novo
Carro: o de Plácido, que traz a cena da descoberta
da imagem. Dois anos mais tarde é introduzido o Carro
da Santíssima Trindade, que contém a representação
do Pai, do Filho e do Espírito Santo, aos pés
dos
quais os fiéis colocam seus ex-votos. Ao todo, doze
carros vão à frente da Berlinda, no Círio
de Nazaré. São eles: Carro de Plácido,
Barca dos Escoteiros, Barca Nova, Carro do Anjo Custódio,
Barco com Vela, Carro do Anjo protetor da Cidade, Barca Portuguesa,
Carro dos Anjos, Barca com Remos, Carro dos Anjos II, Carro
de D. Fuas/brigue São João Batista (nos
anos 80, esse carro ganhou uma corda. Foi uma vã tentativa
de diminuir o número de promesseiros da corda da berlinda)
e Carro da Santíssima Trindade.
Os promesseiros são a imagem da fé em
Nossa Senhora
A figura do promesseiro está de tal modo ligada à corda,
que os demais pagadores de promessa às vezes nem chamam
tanta atenção. São muitos os que levam
velas da altura do próprio corpo, quase sempre embrulhadas
em papel cor de rosa. Casinhas de madeira, de isopor ou de
papelão, réplicas de um sonho realizado com
a ajuda de Nossa Senhora de Nazaré, desfilam sobre
a cabeça do devoto agradecido. Quem enfrentou mais
dificuldade equilibra um tijolo, como sinal de que conseguiu
levantar moradia. Do mesmo modo são levadas na procissão
as mais variadas peças, com formato de órgãos
ou membros humanos, confeccionadas em cera. Homens constroem
barcos de madeira ou de miriti – uns bem grandes, outros
menores – para dizer, no silêncio de seu gesto,
que escaparam do naufrágio graças à ajuda
de Nossa Senhora. Há aqueles que, tendo muito a agradecer,
fazem o percurso de 4,5 quilômetros de joelhos, com
a colaboração de quatro ou mais pessoas, que
vão forrando o asfalto com pedaços de papelão
e amparando o peregrino. Alguns arranjam maneiras tão
diferentes de manifestar gratidão, que acabam entrando
para o imaginário popular: o homem que se cobre de
caranguejos é um deles. Há o que carrega uma
cruz tão pesada que necessidade de ajuda, tal como
Jesus, pelo meio do caminho.
E há quem leve imagens ou um quadro com a uma gravura
da Senhora. Todos estão no Círio, invariavelmente
de pés descalços, certos de que têm compromisso
a honrar. A eles se juntam os que trajam mortalha feita de
tecido barato, para lembrar quem lhes valeu, na hora da morte
que não veio, e os muitos “anjinhos”,
com suas roupas de cetim e asas feitas de penas, que escaparam,
pela intercessão de Maria de Nazaré, de ser
anjos no céu e vestiram fantasia angelical. A nenhum
faltou ajuda providencial no instante em que nenhum recurso
humano poderia ser mais forte do que a fé. Mas entre
os que pagam promessa, quem vai na corda sabe, como poucos,
o significado da palavra sacrifício.
A corda surgiu quase que por acaso, quando a berlinda, ao
passar pelo Ver-o-Peso, ficou atolada e foi necessário
utilizar uma corda para puxá-la. No passado chegou
a ser excluída da procissão. Ao longo dos anos,
muita coisa mudou, mas a fé dos promesseiros permaneceu
intacta. Eles já ficaram separados – homens
para um lado, mulheres para outro – e, no meio do arco
que formavam, iam autoridades civis e militares, clero, seminaristas,
diretoria da Festa, religiosas, leigos de irmandades, jornalistas
e alguns convidados. Havia penetras, muitos penetras, que
desejavam espaço num lugar considerado privilegiado.
Em 1966 foi criado um crachá que, colocado à altura
do peito, identificava quem era convidado. No começou
a prática deu certo, mas, depois de muitas críticas,
por causa da idéia de privilégio, foi abolida.Para
tentar resolver a questão de quem ia mais próximo à berlinda,
foi instituído um sistema de faixas coloridas, cuja
distribuição ficaria a cargo das paróquias.
Uma nova corda foi colocada atrás da berlinda. O problema
dobrou de tamanho e, em vez de uma corda, eram duas.
Muitos esforços têm sido feitos a fim de que
seja encontrada a fórmula ideal para a corda. A Diretoria
da Festa decidiu, em 1995, que a corda seria atrelada à berlinda, à altura
do Mercado de Peixe. Desde então, os guardas de Nossa
Senhora conduzem a berlinda até lá, sem corda.
Milhares de promesseiros aguardam esse momento. Nos últimos
anos, tem sido inevitável o desatrelamento da berlinda
e a corda só chega à Praça Santuário,
depois de a procissão haver sido encerrada. Quando
berlinda e corda cumprem, juntas, (ou não) o percurso,
os promesseiros, assim que alcançam a esquina das
avenidas “Nazaré” com “Generalíssimo
Deodoro”, se ajoelham e levantam a corda, como a mais
completa e fervorosa homenagem à Nossa Senhora.
Em 2004, um sistema de “etapas” foi criado para
substituir o antigo formato em “u” e ajudar a
conduzir a corda que, naquele ano, teve 400 metros de comprimento,
com duas polegadas de espessura. A peça (na verdade,
chegam a Belém duas cordas, porque, às vezes,
ao final da Trasladação, uma precisa ser substituída,
já que muita gente, querendo levar uma lembrança,
fatia a corda), em titam torcido de sisal oleado, é confeccionada
no município de Cuité, a 230 quilômetros
de João Pessoa. Para ajudar na organização
dos promesseiros foi criada uma Associação,
que conta com a participação de cerca de cem
pessoas, de diferentes profissões, que nem sempre
têm promessa a pagar. O amor à Nossa Senhora
move o gesto. Ao longo do ano, eles se reúnem para
a tarefa de evangelização e atos de caridade.
No Círio, são uma espécie de braço
direito da Diretoria da Festa.
Fascículo 1 - O Início
Fascículo 2 - Procissões
Fascículo 3 - Carros e Promesseiros
Fascículo 4 - Basílica de Nazaré
Fascículo 5 - O Almoço
Fascículo 6 - Arraial, Miriti e Festa
Fascículo 7 - Eventos, Imagens e Diretoria
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