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O almoço do Círio à moda antiga: tradição
e requinte na panela
Os dias que antecedem a grande procissão deixam
Belém mais agitada. A cidade ganha um aspecto novo,
cheia de turistas e com muitas atrações para
apresentar a quem vem passar o Círio. Se nas ruas
o movimento é grande, nas cozinhas o corre-corre
não é menor. Para quem pode manter o costume
de colocar na mesa o tradicional almoço do Círio – que
tem tudo a ver com a fartura que a natureza amazônica
oferece – dois pratos não podem faltar: maniçoba
e pato no tucupi. Prepará-los não é tarefa
das mais fáceis e é preciso muita atenção
a detalhes aparentemente insignificantes, mas que deixam
a comida com um gostinho especial.
Em torno da alegria de reunir familiares e amigos para uma
refeição, no segundo domingo de outubro,
cresce a tradição do almoço. Enquanto
a berlinda não passa,os anfitriões costumam
servir salgadinhos, doces e bolos, acompanhados de refrigerantes,
sucos ou bebidas alcoólicas. Na hora do almoço,
que não tem sido, nos últimos anos, necessariamente,
meio-dia, todos aguardam pelo pato no tucupi e pela maniçoba.
Para recuperar a maneira como as cozinheiras mais antigas,
aquelas do “tempo da vovó”, faziam esses
pratos, basta acompanhar os passos da preparação.
Maniçoba: o aspecto estranho esconde
um sabor essencialmente amazônico
Quem nunca viu uma travessa com maniçoba, ou um panelão
fervendo, não haverá de ter boa impressão.
O aspecto visual não é dos melhores. Mas o
sabor... humm!!! É inesquecível. O preparo
não chega a ser difícil, mas fazer maniçoba
dá muito trabalho. O ideal seria voltar no tempo e
cozinhar em panelões de barro sobre fogão a
lenha. Como é complicado recorrer a uma época
mais romântica na cozinha, se a modernidade oferece
comodidades, melhor é esquecer a panela de barro e
cair na real.
A maniva, retirada da mandioca ou da macaxeira, deve ser
moída (sem os talos, por favor!) até três
vezes. Comprá-la précozida é meio caminho
andado para apresentar prato mal feito. Maniva na panela, é hora
de colocar água e toicinho cru e deixar ferver por
sete ou oito dias, até que, de verde, as folhas moídas
enegreçam.
Quando for secando, deve-se acrescentar mais água
e mais toicinho, para que a gordura vá ganhando espaço.
Após uma semana de fervura (algumas famílias
desligam o fogo à noite e, pela manhã, reiniciam
o trabalho. Quem usa fogareiro, pode dormir sem preocupação), é chegada
a hora de dessalgar as carnes. Primeiro devem ser colocadas
as que custam mais a amolecer: bucho, mocotó, orelha
e rabo de porco, além do charque, do paio, das costelas
e dos chouriços.
Quem gosta de pimenta-do-reino e alho pode usar. Está pronta
a maniçoba, que deve ser servida com arroz branco
(quanto mais branco melhor!) ou farinha. Uma pimentinha sempre
vai bem.O chef de cozinha moderno precisa observar as folhas:
se forem de mandioca, o tempo de fervura dobra. Há quem
coloque uma cuia média de puro leite de Castanha do-Pará novinha.
A castanha antiga contém muito óleo e não
serve. Outro cuidado de quem vai comer maniçoba preparada
fora de casa diz respeito à cor: quanto mais verde
estiver, menos tempo passou no fogo.
Isso significa riscos para a saúde. Quanto mais preta,
tanto mais gostosa e menos danos poderá causar aos
intestinos. Sobretudo aos mais sensíveis, que não
conhecem a preciosidade do sabor.
O pato no tucupi tem lugar especial
no almoço paraense do dia do Círio
Outro prato que desperta fortes emoções é o
pato no tucupi. Prepará-lo com requinte e acerto exige
prática e cuidados especiais. Talvez mais especiais
que os empregados para cozinhar a maniçoba. Primeiro
passo é esquecer o chester, o peru e o frango, indignos
substitutos do pato-cada-vez-maiscaro.
Como a receita é de pato, fale-se apenas dele.Primeiro
passo é encontrar um patarrão (ou dois, ou
três). Quem tem parente no interior até consegue.
Quem depende das criações locais, vai precisar
andar mais. Um aviso: pato congelado não combina com
esta receita. Com a ave em casa, é hora de matá-la.
Em vez de sacrificar o bicho, cortando-lhe, impiedosamente,
o pescoço, o certo é depenar um pouquinho essa
parte do corpo e, com uma seringa enfiada na jugular, ir
retirando o sangue lentamente. Dá trabalho, mas é o
jeito.
Para quem for impaciente há outro conselho: cortar
um pedacinho do pescoço, até que vá perdendo
as forças e morra sem violência. Quem sabe fazer
pato, garante que esse tipo de sacrifício impede que
carne seja “envenenada” por toxinas.
Com o pato morto, o trabalho a seguir consiste em depená-lo
e tirar as tripas e os miúdos. O mau cheiro da proximidade
do “sobre” também deve ser excluído,lavando
a ave apenas com água. Limão nem pensar: endurece
a carne. Realizada esta operação, o pato deve
ser enxuto e, se ainda restarem penas renitentes, retirá-las
com fogo. Os temperos são sal grosso, alho e pimentado-reino.
A recomendação de usar vinho ou vinagre deve
ser considerada uma bobagem, assim como envolver o pato em
tiras de bacon. Esses sabores entram em violento conflito
com o do tucupi. Quem tem tucupi, pode se dar ao luxo de
dispensar o resto. Quanto mais tempo passar descansando,
numa assadeira, (de barro, de preferência) melhor.
Nahora de ir para o forno, o ideal é assar,utilizando
apenas a gordura que escorre.
Quando estiver dourado e com aquele cheirinho delicioso,
nada de colocá-lo para esfriar sobre o fogão.
O certo é “esquecê-lo” no forno
até que fique frio. Mudanças de temperatura
são ótimas para ressecar a carne. O tucupi é um
capítulo à parte. Como quase ninguém
tem tempo para tirar tucupi em casa, o jeito é comprá-lo
na feira ou na casa das senhoras que ganharam fama, em Belém,
vendendo tucupi de boa qualidade. É bom preferir uma “freguesa” que
não adicione anilina para deixá-lo mais amarelo.
Por incrível que pareça, ele deve ficar clarinho
na parte de cima e, em baixo, ter uma espécie de concentrado.
Tucupi na garrafa, com amarelo intenso, o tempo todo, é tucupi
adulterado. Não serve. Para fervê-lo, convém
adicionar alho e chicória. Para mexer, mais original
(e tradicional) é preparar uma “vassourinha” de
alfavaca. O ritual de preparação não
termina aqui. O pato deve ser cortado em seis pedaços,
que serão adicionados ao tucupi. Depois, acrescenta-se
o jambu, que foi cozido, previamente, no vapor e não
na panela.
Dá mais trabalho, é verdade, mas tem que ser
assim para ficar especial. O pato dorme sobre o fogão
(não na geladeira) e, na manhã seguinte, antes
de sair para ver o Círio passar ou acompanhar a procissão,
a cozinheira dá uma última fervura. Depois, é esperar
a hora do almoço e fazer um pirão de farinha,
tucupi e pimenta para acompanhar esse quitute raro, talvez
o mais saboroso da cozinha paraense.
A Barraca da Santa preserva uma deliciosa história
de solidariedade
Quando o primeiro Círio foi realizado, o Governo
local havia programado a realização de uma
feira agropecuária, com a produção de
vários municípios. Logo depois, surgiu uma
pequena cabana, onde eram vendidos objetos e alimentos. A
renda era destinada à Capela da santinha. Com os anos,
a cabaninha virou espaço para que fossem leiloadas,
ao final da festa, as ofertas que o povo trazia para Nossa
Senhora. Como aumentava sem parar, a devoção
trazia a Belém um número cada vez maior de
devotos. A Barraca da Santa crescia e lá passaram
a ser servidas refeições. Mudaram os tempos,
mudaram os costumes.
Em vez de famílias patrocinando as noites na Barraca,
os Governos do Estado e do Município, além
de repartições públicas, bancavam as
noites. A organização tomava corpo e, no final
da década de 60, a programação da festa
trazia a relação dos noitários. Participar
de um jantar na Barraca da Santa era sinônimo de prestígio.
Receber convite para estar em um evento
dessa natureza era sinal de bom relacionamento na sociedade.
Além disso, alguns noitários preparavam um
cardápio tão bom, que acabava virando tradição.
Se para muitas pessoas ser distinguido com um convite para
jantar na Barraca da Santa, localizada ao lado da Basílica,
era uma festa, para entidades religiosas e assistenciais,
que passaram a ter direito a uma parte do lucro, esse era
um instante privilegiado, pois garantia uma forma de conseguir
mais ajuda para as causas que defendiam. Que o digam a República
de Emaús,o Movimento Focolari e o Encontro de Casais
com Cristo, entre outros. Na década de 90, a comida
já era feita na cozinha industrial da Barraca que,
constantemente, ganha melhorias.
De todas as noites, a que mais se reveste de caráter
humanitário é promovida pela Diretoria da Festa,
na segunda-feira após o Círio. Os convidados
são pessoas carentes da comunidade, pedintes de rua,
ou escolhidas em asilos, creches ou orfanatos. Eles jantam
na Barraca, sendo servidos pelos diretores da Festa e suas
esposas: é a noite dos eleitos.
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Fascículo 4 - Basílica de Nazaré
Fascículo 5 - O Almoço
Fascículo 6 - Arraial, Miriti e Festa
Fascículo 7 - Eventos, Imagens e Diretoria
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