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Fascículo
6
O arraial atravessa os tempos e mantém viva a tradição
da alegria
O arraial de Nazaré é tão antigo quanto
o Círio. Quando a primeira procissão chegou à ermida
onde ficava a imagem encontrada por Plácido, já estava
montada a grande feira agrícola idealizada por D.
Francisco de Souza Coutinho. Com o tempo, começaram
a surgir barraquinhas que eram usadas para venda de comidas
típicas e ofereciam espaços para a realização
de jogos e sorteios. Entre 1860 e 1940, um grupo, chamado “Sociedade
do Descanso”, alugava cadeiras para as famílias
que desejavam apreciar o movimento da festa. Na segunda
metade do século XIX, a iluminação
do arraial passou a ser feita por gás de hidrogênio
carbonado. Belém contava, então, com a espantosa
quantidade de 700 lampiões. Antes mesmo que a cidade
recebesse o fornecimento de luz elétrica, o arraial
de Nazaré já exibia, em 1892, nas quatro
esquinas do que hoje é a Praça Santuário,
pontos do novo sistema de iluminação, que
só viria a ser inaugurado dois anos mais tarde.
Acredita-se que as três grandes samaumeiras já existiam
em 1873, com o mesmo tamanho de hoje, porque aparecem numa
litogravura assinada por Carlos Wiegandt, naquele ano. Também
no final do século XIX foi construído um pavilhão,
chamado de “Flora”, que, na verdade, era um barracão
sustentado por troncos de árvores, onde aconteciam
apresentações de dança e de pequenos
espetáculos. Novos tempos chegavam ao arraial, que
viu o “Flora” ser demolido e, em seu lugar, surgir
o coreto das “Vestais”. O novo espaço,
agora uma praça digna desse nome, abrigava, em cada
canto, coretos menores. Os anos 30 trouxeram novidades. O
arraial ganhava brilho com a presença do circo e o
produtor Félix Rocque deu ao velho arraial ares de
sofisticação, trazendo a Belém os maiores
nomes da música brasileira e astros internacionais.
A cidade se vestia de festa para ir ao arraial. As moças
mandavam fazer vestidos novos e as famílias sabiam
o quanto era elegante ir à novena e, em seguida, passear
no arraial, vendo bandas de música tocar no coreto.
A época romântica do arraial foi, aos poucos,
se acabando. Os coretos sumiram. Bares tradicionais, como
o “Soberano”, fecharam. Os arcos, que eram quatro,
(dois na avenida Nazaré com a avenida Generalíssimo
Deodoro e com a travessa 14 de Março; um na Generalíssimo
com a Brás de Aguiar; e outro nas avenidas Governador
José Malcher com Generalíssimo Deodoro) hoje
são dois: restaram apenas os da avenida Nazaré.
Uma nova praça foi construída e o arraial popularizou-se.
Era o fim de um tempo elegante. Aos poucos, as antigas rodas-gigantes
e o garboso “cavalinho” a lenha foram cedendo
lugar a brinquedos mais modernos, trazidos por parques de
diversão de outros Estados. Em 1981 foi inaugurada
a Praça Santuário. Um ano depois, o arraial
foi transferido para um terreno ao lado da Basílica,
no espaço onde, no passado, funcionou o cinema “Moderno”.
Um altar monumento se ergue
no centro da Praça Santuário
A Praça que fica em frente à Basílica
foi chamada, por muitos anos, de Largo de Nazaré,
ou, simplesmente, Largo. Também foi “Justo Chermont”.
Por um breve tempo, atendeu pelo nome de CAN, que significava
Conjunto Arquitetônico de Nazaré. Hoje ela é “Praça
Santuário” e abriga, no lado interno do calçadão
gradeado, bem ao centro da cruz formada pelos canteiros,
um pavilhão que acolhe o altar monumento. Protegido
por paredes de vidro, o altar, que se eleva sobre duas escadarias
de granito, é utilizado para celebrações
especiais, como as missas da chegada do Círio, as
campais, durante a quadra, a do Mandato e as que anunciam
a saída e chegada das procissões. No andar
de baixo do altar há salas para serem utilizadas por
emissoras de rádio, depósito e banheiros. A
praça, que também possui uma concha acústica
e um monumento em mármore, em honra de Nossa Senhora
de Nazaré, e uma grande cruz foi projetada pelo arquiteto
Roberto Martins e pelo senhor Rubi Campos, com recursos do
Governo Federal, conseguidos através do então
deputado federal Jorge Arbage.
Auto, miriti e “Pavulagem” fazem a alegria da
cidade, antes do Círio
Belém vira uma festa, nos dias que antecedem o Círio.
Na noite da sexta-feira, quando a imagem peregrina já está no
município de Ananindeua, um grupo com mais de 500
artistas, dos quais pelo menos 120 são músicos,
dançarinos, ritmistas, cantores e folcloristas ganha
as ruas da Cidade Velha, encenando o “Auto do Círio”.
O evento, realizado pelo Núcleo de Arte e Escola de
Dança da Universidade Federal do Pará, é um
grande cortejo, que já virou tradição.
Na manhã de sábado, enquanto a procissão
fluvial se dirige a Belém, a Associação
dos Artesãos de Abaetetuba monta as barraquinhas onde
são expostos delicados brinquedinhos feitos da polpa
da palmeira conhecida como Miriti. Antes da criação
da feira, que originariamente era montada na Praça
do Carmo, passando, em seguida, para a Praça Frei
Caetano Brandão, os vendedores de brinquedos de miriti
arrumavam as peças apenas em girândolas de duas
hastes e percorriam o trajeto do Círio, oferecendo
miniaturas coloridas de meios de transporte, sobretudo os
barcos, animais, objetos domésticos, atividades regionais,
figuras humanas, cata-vento, casas, berlindas e mobílias.
As atrações especiais são os grandes
barcos, que reproduzem, com perfeição, o meio
de transporte mais comum na Amazônia. Até hoje,
os vendedores ambulantes de miriti enchem de graça,
cor e movimento os sonhos de crianças de todas as
idades.
Quando a Romaria Fluvial chega à escadinha do Cais-do-Porto,
o grupo “Arraial do Pavulagem”, hoje ligado ao
Instituto homônimo, já está concentrado
e realiza um “arrastão”, rumo à Praça
do Carmo, onde acontece um grande show. No caminho, o grupo é embalado
pelo ritmo do boi-bumbá e de outros sons amazônicos,
fazendo uma viagem pela diversidade cultural do Pará.
Os brinquedinhos de miriti e o roncar dos roc-roc, um brinquedo
sonoro feito também de miriti, alegram o cortejo.
Tudo isso é feito em honra da Virgem Maria de Nazaré.
No caminho da devoção, muitas homenagens
para Nossa Senhora de Nazaré
Desde o momento em que deixa a Basílica, no início
da tarde da sexta-feira que antecede o Círio, a imagem
de Nossa Senhora de Nazaré não pára
de receber homenagens. Ao longo das romarias, não
há momento em que não se ouçam aplausos,
gritosde “viva Nossa Senhora de Nazaré!” e
queimas de fogos; ou não haja chuva de papel picado
ou de pétalas de rosa. No Ver-o-Peso, as embarcações
que trazem os devotos do interior também são
ornamentadas e viram uma atração à parte,
diante do mercado enfeitado com balões. Na casas e
edifícios residenciais, diante dos quais a berlinda
passa, muitas famílias mantêm a tradição
de colocar toalhas brancas ou bordadas na janela. Pequenos
oratórios são construídos e, de ano
para ano, os prédios são enfeitados de forma
criativa, com berlindas, réplicas enormes da imagem
da santa e muitos balões. Faixas de pano contendo
mensagens em homenagem à Nossa Senhora e outdoors
são espalhados pelas ruas. Tudo para dizer, da forma
mais simples ou da mais suntuosa, o quanto a cidade ama a
Virgem Maria de Nazaré.
Entre tantas manifestações de devoção
e agradecimento, as homenagens que acontecem, ao longo do
trajeto do Círio, são as que mais chamam a
atenção. As tradicionais envolvem foguetório
e música. A primeira delas acontece no momento em
que a berlinda encontra a corda, em frente ao mercado que é o
símbolo da cidade. Lá, os peixeiros realizam
uma queima de fogos. Mais adiante, quando passa em frente
ao antigo edifício de O LIBERAL, no boulevard Castilhos
França, as Organizações Romulo Maiorana
prestam comovente homenagem à Senhora, acionando a
sirene do Jornal. Minutos depois é a vez dos Estivadores
dispararem milhares de foguetes. Em seguida, idêntica
manifestação é promovida pelos Arrumadores
do cais do Porto.
Quando alcança a “Presidente Vargas”,
e ao longo de toda a avenida, a imagem é saudada por
instituições bancárias, que decoram
suas fachadas com temas religiosos e promovem shows com grandes
nomes da música brasileira. Órgãos públicos
se vestem de alegria para louvar Nossa Senhora. Na Praça
da República, um coral de mil vozes canta para a Padroeira.
Na avenida Nazaré, as homenagens prosseguem. Instituições
de ensino, clubes e empresas fazem festa para ver Nossa Senhora
de Nazaré passar.
A história recente do Círio tem registrado
um número cada vez maior de homenagens, mas nenhuma
delas obriga a berlinda a estacionar. Ela pára porque
o povo quer assistir às manifestações
artísticas.
Fascículo 1 - O Início
Fascículo 2 - Procissões
Fascículo 3 - Carros e Promesseiros
Fascículo 4 - Basílica de Nazaré
Fascículo 5 - O Almoço
Fascículo 6 - Arraial, Miriti e Festa
Fascículo 7 - Eventos, Imagens e Diretoria
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