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A procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré em Belém do Pará é uma das maiores manifestações de fé do mundo católico. Uma pequena imagem da Virgem de Nazaré é transportada da Catedral de Belém para a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré. Um trajeto de aproximadamente 4 quilômetros que percorre as principais ruas da cidade, no segundo domingo de outubro. Por onde passa, a Santa é homenageada com a queima de milhares de fogos de artifício. Junto com a imagem, vai um cortejo de milhares de pessoas.

Nas ruas outra multidão se acotovela para ver a berlinda com a Santa passar. São pessoas unidas pela fé na Virgem. Esse fenômeno se repete há mais de 200 anos - demonstração do fervor religioso de um povo. Aliás, mais que isso - uma demonstração da cultura de um povo. O Círio de Nazaré mobiliza durante meses a população de Belém, do pará e do Brasil. Tem gente que vem de longe para paraticipar da festa.

• O Círio não é só uma procissão: é uma festa que dura quinze dias e que para muitos paraenses tem mais ou tanta importância quanto o Natal. Na semana que antecede o Círio os romeiros vão chegando a Belém. De barco, canoa, navio, carro, ônibus e avião. Muitos trazem consigo os ingredientes para o almoço do domingo do Círio, todos à base de comidas típicas: pato, maniva, farinha d'água, jambu, tucupi - nomes exóticos que compõem o mais brasileiro dos banquetes. Banquete dos deuses - deuses indígenas da Amazônia.

• História: No final da Idade Média, os portugueses devotos já levavam as imagens de seus santos padroeiros de uma aldeia a outra. O cortejo, que nem sempre era breve, às vezes atravessava a noite. Para iluminar o caminho e louvar o homenageado, os fiéis levavam grandes velas. Como muitas tradições lusitanas, essa também atravessou o mar e chegou à colônia. No Brasil, o hábito de fazer procissões e clarear os passos caiu no gosto do povo. Mas apenas nas terras do Grão-Pará a palavra Círio, que vem do latim cereus e, etimologicamente, significa “grande vela de cera”, tornouse sinônimo de procissão e de uma procissão específica: a de Nossa Senhora de Nazaré. Com o tempo, outras romarias ganharam essa denominação, mas o grande, o maior entre todos os Círios, é o de Nazaré.

O primeiro Círio de Nazaré foi às ruas numa tarde de quarta-feira. A história perde-se no tempo e o que se sabe é que a manifestação aconteceu para que o presidente da Província do Pará, o capitão-mor D. Francisco de Souza Coutinho, pudesse cumprir uma promessa feita à santinha, cuja imagem havia aparecido na antiga Estrada do “Maranhão”, ou do “Utinga,” nome como também era conhecido o caminho de terra que, hoje, estaria localizado no bairro de Nazaré.

D. Francisco planejava realizar, na capital, uma grande feira agropecuária e de artigos produzidos no interior. Do Marajó viriam bois e animais domésticos; de Mocajuba e Cametá chegariam patos, tartarugas e perus da região; do extremo Norte, das terras que hoje pertencem ao estado do Amapá, seriam trazidos cacau e castanha; o Acará mandaria cuias, guaraná, vassouras e tipitis; o Baixo Amazonas participaria com cerâmica e frutas. Seria um grande evento, ao qual Sua Excelência não poderia faltar. Três meses antes, D. Francisco adoeceu e sua ida à Feira estava praticamente cancelada.

Quase um século antes, uma imagem de madeira havia sido encontrada às margens do igarapé do “Murutucu”. Esse igarapé, conhecido como “da Santa”, depois chamado de “das Pedras”, era afluente do igarapé das “Pedreiras”, cortava a propriedade de Plácido José de Souza. Ninguém deve procurá-lo, hoje, na geografia de Belém, porque, como outros tantos, foi aterrado.

Plácido era um homem simples e devoto. Não se sabe exatamente que profissão exercia: fala-se que seria lenhador. Mas poderia ter sido caçador ou agricultor. Isso não é importante. O que conta é que, ao retornar para casa, encontrou a imagem de uma santa, esquecida (ou deixada) sobre pedras, às margens do igarapé. Como o registro pertence mais ao domínio da lenda do que propriamente ao da História, contase que a imagem também poderia ter sido achada entre os galhos de uma árvore. O certo é que Plácido José de Souza levou para casa a santinha, envolvida com um manto de seda brilhante. No dia seguinte, quando foi procurará-la, encontrou o pequeno altar onde a guardou completamente vazio.

Sem poder imaginar quem a havia tirado dali, (era improvável, no último ano do século XVII, em plena floresta amazônica, que os ladrões de peças sacras estivessem na ativa!) voltou ao local onde a encontrou e eis que estava lá, quietinha, como se houvesse retornado ao lar. Plácido recuperou a santinha e levou-a, novamente, para casa. No dia seguinte, ela não amanhecera onde fora deixada e já era possível saber seu paradeiro. Não há memória de quantas vezes o teimoso Plácido a reconduziu e ela voltou - sozinha! - para o seu lugarzinho de origem. Certo de que sua santinha gostaria de ficar exatamente na beira do igarapé, ele construiu um pequeno oratório, que batizou de “O Coração do Humilde”. O Governador da época, curioso, talvez descrente, mandou buscar a imagem e trancou-a, sob proteção policial, em um dos cômodos do Palácio.No dia seguinte, ela reapareceu em seu nicho original. Brotava, assim, na alma do paraense, a devoção à Virgem Maria de Nazaré.

De 1700, ano em que a imagem foi encontrada, até 1793, data da realização da Feira idealizada por D. Francisco de Souza Coutinho, a confiança em Nossa Senhora de Nazaré só fazia aumentar. As pessoas vinham de longe para pedir a ajuda da Mãe de Jesus. O Presidente da Província sabia disso e valeu-se do auxílio de Nossa Senhora, prometendo que, se ficasse curado e pudesse participar da Feira, cujos preparativos começaram em 1791, levaria a imagem até o Palácio do Governo e, de lá, sairia em procissão até a capelinha, edificada no lugar onde Plácido, àquela época já falecido, construiu o primeiro oratorio. Milagrosamente, D. Francisco ficou curado e, na noite de 7 de setembro de 1793, a senhora foi levada ao Palácio. Nascia, ali,o Círio de Nazaré.

Na primeira procissão, como a diocese estivesse sem um Bispo titular, o Capelão do Palácio conduziu a imagem no colo. O cortejo seguiu pela margem do igarapé do Piri até chegar ao arraial. Consta que 1.932 soldados vinham à frente dos vereadores e do palanquim que trazia a imagem da santa, ao lado do qual seguiam o Presidente e o Vigário. Ao centro, seguiam cavaleiros fidalgos,usando casacos pretos e chapéus de três bicos e formavam alas. O esquadrão de cavalaria e seus clarins embelezavam o evento. Um agradecido D. Francisco de Souza Coutinho, já totalmente recuperado, prestigiou a Feira, durante todas as noites.

A procissão em honra de Nossa Senhora de Nazaré saia da Cidade Velha, tal como acontece hoje, e, para chegar ao local onde a santa foi foi achada, era preciso atravessar a cidade, através da mata. Quando escurecia, os fiéis acendiam os seus círios. Em 1800, o presidente da Província, Souza Coutinho, mandou fazer em Portugal uma grande vela, que abria a procissão. Era mais um hábito da “terrinha” que chegava ao Pará. A romaria crescia de ano para ano e, em 1803, surgia a alegoria de D. Fuas Roupinho. Vinte e três anos mais tarde, era introduzido um carro com formato de castelo, onde estavam hasteadas bandeiras das nações cristãs. Esse mesmo carro levava homens que, ao longo do percurso, soltavam foguetes.

Em 1855, apareceram, de um só vez, mais três carros: a Barca dos Milagres, o Anjo Custódio e a Berlinda. A Barca dos Milagres era representada pelo brigue “São João Batista”, para lembrar o ajuda de Nossa Senhora a doze marinheiros que conseguiram escapar de um naufrágio. Eles invocaram o seu nome e se salvaram. Os outros não tiveram a mesma sorte, ou melhor, o mesmo amparo. O navio autêntico foi substituído por uma réplica em tamanho menor. O carro do Anjo Custódio foi construído para que a filha do primeiro vice-presidente da Província, Ângelo Custódio, pagasse uma promessa. A Berlinda, um dos mais bonitos símbolos do Círio, tinha o formato de um pequeno coche português.

Numa data não especificada, (talvez fosse 1868; talvez fosse 1885) uma tempestade quase inviabilizou a realização do Círio. Para evitar surpresas causadas pelo tempo, a procissão teve seu horário alterado e passou a sair de manhã, quando, no segundo semestre, raramente chove em, Belém. A partir de então, nunca mais se ouviu falar em Círio começando à tarde. Surgiam, ao mesmo tempo, sem que ninguém prestasse atenção, três tradições: a do Círio matinal (hoje, é verdade, devido à quantidade de pessoas, a procissão avança pela tarde.

Em 2000, chegou à Praça Santuário às 16 horas!), o almoço em família e a corda, que foi usada para desatolar a berlinda do lamaçal que se formou, às proximidades do Ver-o-Peso, num dia em que o rio Pará, muito cheio, transbordou. Até 1881, o Círio saía do Palácio do Governo. A partir de 1882, um acordo entre o bispo D. Macedo Costa e o presidente da Província, Justiniano Ferreira Carneiro, fez com que o cortejo partisse da igreja da Sé. Era mais uma tradição que se inaugurava. A data de realização do Círio, contudo, ainda não estava definida. Há registros de Círios em setembro, outubro ou novembro. Em 4 de janeiro de 1886, a Sagrada Congregação dos Ritos marcou o último domingo de outubro para a realização da festa de Nazaré. Posteriormente, fixouse o dia do Círio no segundo domingo de outubro.

Bem diferente de hoje, quando o Círio é motivo de confraternização e não de brigas, no século XIX, mais exatamente em 1878, a procissão gerava discórdia. Questões envolvendo o bispo D. Macedo Costa e o governador José da Gama Malcher, por causa da construção da nova igreja de Nazaré, levaram a Diocese a proibir a realização do Círio. Um cortejo, de caráter puramente civil, foi às ruas, sem a presença de um religioso sequer. O mesmo aconteceu em 79. Somente em 1880 Estado e Igreja se entenderam e o Círio voltou a ser comandado pela Diocese, que passaria a ter o domínio do templo.

   
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