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• Promesseiros: A figura do promesseiro está de tal modo ligada à corda, que os demais pagadores de promessa às vezes nem chamam tanta atenção. São muitos os que levam velas da altura do próprio corpo, quase sempre embrulhadas em papel cor de rosa. Casinhas de madeira, de isopor ou de papelão, réplicas de um sonho realizado com a ajuda de Nossa Senhora de Nazaré, desfilam sobre a cabeça do devoto agradecido. Quem enfrentou mais dificuldade equilibra um tijolo, como sinal de que conseguiu levantar moradia. Do mesmo modo são levadas na procissão as mais variadas peças, com formato de órgãos ou membros humanos, confeccionadas em cera. Homens constroem barcos de madeira ou de miriti – uns bem grandes, outros menores – para dizer, no silêncio de seu gesto, que escaparam do naufrágio graças à ajuda de Nossa Senhora. Há aqueles que, tendo muito a agradecer, fazem o percurso de 4,5 quilômetros de joelhos, com a colaboração de quatro ou mais pessoas, que vão forrando o asfalto com pedaços de papelão e amparando o peregrino. Alguns arranjam maneiras tão diferentes de manifestar gratidão, que acabam entrando para o imaginário popular: o homem que se cobre de caranguejos é um deles. Há o que carrega uma cruz tão pesada que necessidade de ajuda, tal como Jesus, pelo meio do caminho.

E há quem leve imagens ou um quadro com a uma gravura da Senhora. Todos estão no Círio, invariavelmente de pés descalços, certos de que têm compromisso a honrar. A eles se juntam os que trajam mortalha feita de tecido barato, para lembrar quem lhes valeu, na hora da morte que não veio, e os muitos “anjinhos”, com suas roupas de cetim e asas feitas de penas, que escaparam, pela intercessão de Maria de Nazaré, de ser anjos no céu e vestiram fantasia angelical. A nenhum faltou ajuda providencial no instante em que nenhum recurso humano poderia ser mais forte do que a fé. Mas entre os que pagam promessa, quem vai na corda sabe, como poucos, o significado da palavra sacrifício.

corda1• Corda: A corda surgiu quase que por acaso, quando a berlinda, ao passar pelo Ver-o-Peso, ficou atolada e foi necessário utilizar uma corda para puxá-la. No passado chegou a ser excluída da procissão. Ao longo dos anos, muita coisa mudou, mas a fé dos promesseiros permaneceu intacta. Eles já ficaram separados – homens para um lado, mulheres para outro – e, no meio do arco que formavam, iam autoridades civis e militares, clero, seminaristas, diretoria da Festa, religiosas, leigos de irmandades, jornalistas e alguns convidados. Havia penetras, muitos penetras, que desejavam espaço num lugar considerado privilegiado. Em 1966 foi criado um crachá que, colocado à altura do peito, identificava quem era convidado. No começou a prática deu certo, mas, depois de muitas críticas, por causa da idéia de privilégio, foi abolida.Para tentar resolver a questão de quem ia mais próximo à berlinda, foi instituído um sistema de faixas coloridas, cuja distribuição ficaria a cargo das paróquias. Uma nova corda foi colocada atrás da berlinda. O problema dobrou de tamanho e, em vez de uma corda, eram duas.

Muitos esforços têm sido feitos a fim de que seja encontrada a fórmula ideal para a corda. A Diretoria da Festa decidiu, em 1995, que a corda seria atrelada à berlinda, à altura do Mercado de Peixe. Desde então, os guardas de Nossa Senhora conduzem a berlinda até lá, sem corda. Milhares de promesseiros aguardam esse momento. Nos últimos anos, tem sido inevitável o desatrelamento da berlinda e a corda só chega à Praça Santuário, depois de a procissão haver sido encerrada. Quando berlinda e corda cumprem, juntas, (ou não) o percurso, os promesseiros, assim que alcançam a esquina das avenidas “Nazaré” com “Generalíssimo Deodoro”, se ajoelham e levantam a corda, como a mais completa e fervorosa homenagem à Nossa Senhora.

Em 2004, um sistema de “etapas” foi criado para substituir o antigo formato em “u” e ajudar a conduzir a corda que, naquele ano, teve 400 metros de comprimento, com duas polegadas de espessura. A peça (na verdade, chegam a Belém duas cordas, porque, às vezes, ao final da Trasladação, uma precisa ser substituída, já que muita gente, querendo levar uma lembrança, fatia a corda), em titam torcido de sisal oleado, é confeccionada no município de Cuité, a 230 quilômetros de João Pessoa. Para ajudar na organização dos promesseiros foi criada uma Associação, que conta com a participação de cerca de cem pessoas, de diferentes profissões, que nem sempre têm promessa a pagar. O amor à Nossa Senhora move o gesto. Ao longo do ano, eles se reúnem para a tarefa de evangelização e atos de caridade. No Círio, são uma espécie de braço direito da Diretoria da Festa.

carro de milagres• Carro dos milagres: O carro dos milagres foi introduzido no ano de 1805, por pedido da Rainha de Portugal, dona Maria I, para lembrar o primeiro milagre relatado da Virgem de Nazaré, que salvou o fidalgo dom Fuas Roupinho da morte num abismo. O carro dos milagres é o depositário das ofertas feitas à Virgem pelos fiéis, em reconhecimento pelas graças alcançadas: réplicas de casas que o romeiro conseguiu, de embarcações salvas do naufrágio, de partes do corpo humano em cera, curadas por intervenção da santa.

• Fogos: A queima de fogos é outro elemento intimamente ligado ao Círio de Nazaré. O traslado da imagem da Virgem do Colégio Gentil Bittencourt (onde fica durante o ano a imagem que participa da procissão, porque a original encontrada por Plácido fica permanentemente na Basílica) é saudado com fogos. Durante a procissão, os vendedores do mercado do Ver-O-Peso queimam fogos durante a passagem da berlinda, assim como os estivadores, que tradicionalmente fazem a maior queima de fogos de toda a quadra nazarena.

O encerramento das festividades, que acontece dois domingos depois, também é marcado por fogos de vista. Os fabricantes mais tradicionais são famílias de fogueteiros da cidade de Vigia, a cidade mais antiga do Pará. Numa tradição que passa de pai para filho.

Os fogos de artifício são outro elemento quase imutável do Círio de Nazaré. Desde o início, a procissão é precedida por foguetes e houve até o Carro Dos Fogos que vinha à frente. Com o tempo, o Carro dos Fogos passou a representar um elemento perigoso e foi eliminado, mas a passagem da pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré sempre vai ser saudada com muito barulho.

imagem• Sé: A igreja da Sé, tal como a Basílica, também nasceu modesta. Era uma construção pequenina, de barro, coberta de palha, edificada logo após a fundação de Belém. Os padres da Companhia de Jesus restauraram-na em 1653 e durante 96 anos, graças a uma série de reformas, funcionou como matriz. Com a constituição do Bispado no Pará, no início do século XVIII, a então igreja de Nossa Senhora da Graça ganhou direitos e honra de Sé episcopal.


O rei D. João V ordenou, em 1723, que, no mesmo local, fosse edificada a Catedral. A pedra fundamental, contudo, só foi lançada em 3 de maio de 1748. O prédio ficaria concluído em 8 de setembro em 1771, data da natividade de Nossa Senhora. O arquiteto italiano Antônio José Landi acompanhou uma parte da obra e teria feito uma interferência no desenho original da fachada. A construção da Catedral demorou 18 anos e houve, inclusive, temores infundados de que as paredes não sustentariam a abóbada da capela-mor. Um século se passou entre a inauguração e o trabalho de embelezamento, empreendido pelo décimo bispo do Pará, D. Antônio de Macedo Costa. De 1882 a 1892, D. Macedo Costa tornou o prédio mais atraente e deu à Catedral o imponente órgão Cavaille-Coll, que funciona até hoje.

séO Bispo também escolheu peças de ferro, na época a preços bem em conta, disponíveis em catálogos estrangeiros, para ornar o interior da Catedral. Entre elas estão os púlpitos, que ganharam uma pintura imitativa de madeira e dão a impressão de terem sido entalhados e não fundidos. O altarmor foi um presente do papa Pio IX e do imperador Pedro II, em 1886, com a assinatura de Luca Carimini.

Embora seja dedicada à Nossa Senhora da Graça, sob o altar-mor o ícone existente é o de Santa Maria de Belém. Parte da decoração da Sé foi feita por De Angelis e Capranesi. Depois deles, outros artistas trabalharam no templo, introduzindo a pintura que imita mármore e é conhecida pelo nome de escaiola. A sagração da Catedral A igreja da Sé recebe a imagem da Padroeira na noite de Trasladação e, no dia seguinte, vê o Círio patir aconteceu no dia 30 de abril de 1892.

• Basílica: Os caminhos do Círio, há décadas, são os mesmos. Nas duas extremidades do grande rio de fé há marcos da religiosidade do povo do Pará, que podem ser vistos, simbolicamente, a um só e mesmo tempo, como a nascente e a foz da confiança na Senhora de Nazaré. Os marcos de partida e chegada são os templos que acolhem a imagem peregrina. A Basílica, edificada no local onde a imagem “verdadeira” foi encontrada e está até hoje, é o ponto final do Círio. A Catedral é a Igreja Mãe. Para ela se dirige a Trasladação e de lá saí o Círio, no segundo domingo de outubro. Basílica e Catedral assinalam momentos especiais da festa de Nazaré e contam, na imponência silenciosa de sua arquitetura, parte da história de uma devoção.

basilicaO templo que abriga a imagem “verdadeira” de Nossa Senhora de Nazaré foi construído ao lado da antiga igreja, que era simples e cuja finalização aconteceu entre 1874 e 1875. A cidade não gostou do prédio e uma grande Basílica foi construída. O padre barnabita Emílio Richeter, que recebeu a paróquia empobrecida, determinou que se fizesse uma grande economia para tocar a obra. Em 1908, o visitador da Ordem dos Barnabitas, padre Luiz Zoia, veio a Belém e deu a idéia de edificar um novo templo, mais apropriado às proporções já alcançadas pela devoção, ao lado do que já existia, para não interromper as funções religiosas.

A proposta era construir em Belém um prédio inspirado na Basílica de São Paulo Extramuros, de Roma. O desenho foi feito em Gênova por Coppedé e pelo engenheiro Pedrasso. A decoração recebeu assinatura do professor Grolla e do engenheiro Tiago Bola. No dia 24 de outubro de 1909, o arcebispo D. Santino Coutinho colocou a primeira pedra da basílica, que foi edificada sobre uma cripta, necessária para a elevação do terreno, que protegeria o prédio da umidade e daria ao estilo basilical a imponência que ele exige.

A cerimônia foi prestigiada pelo governador Augusto Montenegro, pelo prefeito Antônio Lemos, por autoridades de vários setores e pelo povo. Sete anos mais tarde estavam prontos a cripta, as paredes, o telhado e uma torre. Padre Affonso de Giorgio embelezou a basílica, mandando colocar os vitrais,os forros, os mosaicos, as estátuas, os altares, os estofamentos, as portas de bronze e a fachada.

• Barraca da Santa: Quando o primeiro Círio foi realizado, o Governo local havia programado a realização de uma feira agropecuária, com a produção de vários municípios. Logo depois, surgiu uma pequena cabana, onde eram vendidos objetos e alimentos. A renda era destinada à Capela da santinha. Com os anos, a cabaninha virou espaço para que fossem leiloadas, ao final da festa, as ofertas que o povo trazia para Nossa Senhora. Como aumentava sem parar, a devoção trazia a Belém um número cada vez maior de devotos. A Barraca da Santa crescia e lá passaram a ser servidas refeições. Mudaram os tempos, mudaram os costumes.

Em vez de famílias patrocinando as noites na Barraca, os Governos do Estado e do Município, além de repartições públicas, bancavam as noites. A organização tomava corpo e, no final da década de 60, a programação da festa trazia a relação dos noitários. Participar de um jantar na Barraca da Santa era sinônimo de prestígio. Receber convite para estar em um evento
dessa natureza era sinal de bom relacionamento na sociedade. Além disso, alguns noitários preparavam um cardápio tão bom, que acabava virando tradição.

Se para muitas pessoas ser distinguido com um convite para jantar na Barraca da Santa, localizada ao lado da Basílica, era uma festa, para entidades religiosas e assistenciais, que passaram a ter direito a uma parte do lucro, esse era um instante privilegiado, pois garantia uma forma de conseguir mais ajuda para as causas que defendiam. Que o digam a República de Emaús,o Movimento Focolari e o Encontro de Casais com Cristo, entre outros. Na década de 90, a comida já era feita na cozinha industrial da Barraca que, constantemente, ganha melhorias.

De todas as noites, a que mais se reveste de caráter humanitário é promovida pela Diretoria da Festa, na segunda-feira após o Círio. Os convidados são pessoas carentes da comunidade, pedintes de rua, ou escolhidas em asilos, creches ou orfanatos. Eles jantam na Barraca, sendo servidos pelos diretores da Festa e suas esposas: é a noite dos eleitos.

• Arraial: O arraial de Nazaré é tão antigo quanto o Círio. Quando a primeira procissão chegou à ermida onde ficava a imagem encontrada por Plácido, já estava montada a grande feira agrícola idealizada por D. Francisco de Souza Coutinho. Com o tempo, começaram a surgir barraquinhas que eram usadas para venda de comidas típicas e ofereciam espaços para a realização de jogos e sorteios. Entre 1860 e 1940, um grupo, chamado “Sociedade do Descanso”, alugava cadeiras para as famílias que desejavam apreciar o movimento da festa. Na segunda metade do século XIX, a iluminação do arraial passou a ser feita por gás de hidrogênio carbonado. Belém contava, então, com a espantosa quantidade de 700 lampiões. Antes mesmo que a cidade recebesse o fornecimento de luz elétrica, o arraial de Nazaré já exibia, em 1892, nas quatro esquinas do que hoje é a Praça Santuário, pontos do novo sistema de iluminação, que só viria a ser inaugurado dois anos mais tarde.

arraialAcredita-se que as três grandes samaumeiras já existiam em 1873, com o mesmo tamanho de hoje, porque aparecem numa litogravura assinada por Carlos Wiegandt, naquele ano. Também no final do século XIX foi construído um pavilhão, chamado de “Flora”, que, na verdade, era um barracão sustentado por troncos de árvores, onde aconteciam apresentações de dança e de pequenos espetáculos. Novos tempos chegavam ao arraial, que viu o “Flora” ser demolido e, em seu lugar, surgir o coreto das “Vestais”. O novo espaço, agora uma praça digna desse nome, abrigava, em cada canto, coretos menores. Os anos 30 trouxeram novidades. O arraial ganhava brilho com a presença do circo e o produtor Félix Rocque deu ao velho arraial ares de sofisticação, trazendo a Belém os maiores nomes da música brasileira e astros internacionais. A cidade se vestia de festa para ir ao arraial. As moças mandavam fazer vestidos novos e as famílias sabiam o quanto era elegante ir à novena e, em seguida, passear no arraial, vendo bandas de música tocar no coreto. A época romântica do arraial foi, aos poucos, se acabando. Os coretos sumiram. Bares tradicionais, como o “Soberano”, fecharam. Os arcos, que eram quatro, (dois na avenida Nazaré com a avenida Generalíssimo Deodoro e com a travessa 14 de Março; um na Generalíssimo com a Brás de Aguiar; e outro nas avenidas Governador José Malcher com Generalíssimo Deodoro) hoje são dois: restaram apenas os da avenida Nazaré. Uma nova praça foi construída e o arraial popularizou-se.

Era o fim de um tempo elegante. Aos poucos, as antigas rodas-gigantes e o garboso “cavalinho” a lenha foram cedendo lugar a brinquedos mais modernos, trazidos por parques de diversão de outros Estados. Em 1981 foi inaugurada a Praça Santuário. Um ano depois, o arraial foi transferido para um terreno ao lado da Basílica, no espaço onde, no passado, funcionou o cinema “Moderno”.

auto do cirio• Auto do Círio: Belém vira uma festa, nos dias que antecedem o Círio. Na noite da sexta-feira, quando a imagem peregrina já está no município de Ananindeua, um grupo com mais de 500 artistas, dos quais pelo menos 120 são músicos, dançarinos, ritmistas, cantores e folcloristas ganha as ruas da Cidade Velha, encenando o “Auto do Círio”. O evento, realizado pelo Núcleo de Arte e Escola de Dança da Universidade Federal do Pará, é um grande cortejo, que já virou tradição. Este ano, por falta de patrocínio, o Auto do Círio não vai às ruas, deixando orfãos centenas de fãs da cultura popular.

• Brinquedos de miriti: Os brinquedos do Círio são um espetáculo à parte durante as festividades de Nossa Senhora de Nazaré e se tornaram elemento indispensável da quadra nazarena. São serpentes, aves, barcos, carrosséis, bonecos, feitos de caranã - a polpa dos galhos de uma palmeira, ''Mauritia Vinifera'', conhecida por miriti ou buriti e pintados com as cores fortes da Amazônia. Os brinquedos são fabricados em Belém e outras localidades, mas a maior parte vem do município vizinho de Abaetetuba. A chegada dos brinquedos em Belém já se transformou num ritual para muitos belenenses. No sábado, chegam as embarcações com os vendedores que se reúnem no Largo do Carmo, no bairro da Cidade Velha, primeiro bairro da capital. Lá os brinquedos são colocados em girândolas. Os vendedores ganham as ruas da cidade, dando um colorido único à festa.

miriti

   
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