Corda, anjos, romeiros, promessas,culinária, mãos... o Círio tem tantos elementos a serem retratados que fica fácil entender o porquê de tantos artistas beberem nessa fonte. A celebração parece despertar além da fé, a capacidade de criação e imaginação em milhares de pessoas. E nas produções audiovisuais não é diferente: o Círio é terra fértil para os cineastas.
A cada ano surgem novos documentários, curtas, filmes, videos-arte e diversos títulos com essa temática. A manifestação é tão rica que sempre vai permitir novas abordagens. E como indicar produções audiovisuais com essa temática não é nada fácil, a tarefa fica, então, com os cineastas.
Para a diretora do curta 'Quero ser anjo', Marta Nassar, o filme 'A Corda', do paulista Fado Almeida, se destaca nesse cenário. 'A corda é apenas um detalhe do todo e grandioso que é o Círio. Esse diretor foi buscar os detalhes das mãos, dos pés das pessoas que estão nessa corda, é quase um close. É um olhar do detalhe diante da grandiosidade. Fora que a plasticidade do trabalho ficou muito bonita', comenta Marta.
O símbolo religioso também é destacado pelo cineasta Vitor Lima, diretor do filme 'Mãos de Outubro'. 'Gosto de um que se chama A Corda - Procissão dos Excluídos, de Moisés Magalhães e Ronaldo Passarinho Filho. Através de depoimentos de promesseiros e de membros da igreja, aborda a grande polêmica que se tornou a corda nos anos 90, com os desatrelamentos e cortes feito por militares e membros da própria Diretoria da Festa. O que nem todos sabem é que a corda nunca se rompeu, nunca se quebrou. É quase impossível um material daquela grossura se romper, mesmo com toda a força da multidão', disse Lima.
A cineasta Priscilla Brasil, diretora do filme 'Filhas da Chiquita', sugere o mini-documentário 'A realidade da Multidão'. 'É um mini-doc bem bonitinho sobre o Cirio, dos meus amigos Gustavo Godinho e Vladimir Cunha'.
Artista X Obra
Mãos de outubro - Entrelaçando as mãos que rezam, que tocam o sino, que costuram o manto, o filme é o
registro das pessoas que, direta ou indiretamente, participam da construção desta manifestação religiosa. 'Quis retratar o Círio de uma forma diferente e usá-lo como dispositivo para a elaboração de um panorama de fé. É importante deixar isso claro, porque desde a sua concepção eu não queria que o filme ficasse restrito ao rótulo de filme de Círio. É muito mais que isso, é uma visão universal sobre a fé, sobre o humano e o sobre-humano', conta Vitor.
O filme não é trabalhado em forma de narrativa, mas como uma espécie de colcha de retalhos onde só aparecem as mãos.'Estas têm, primeiramente, sua importância técnica. É a partir das mãos que operários, estilistas, escultores, decoradores, fogueteiros, tocadores de sinos,se valem para tornar a festa real, concreta. É como se suas impressões digitais fizessem parte do elemento como um todo, causando singular comoção. Temos, por outro lado, as mãos como elos espirituais, presentes no singelo ato de benzer-se, de juntá-las antes de começar a oração, de esticá-las em direção à imagem de Nossa Senhora ou aos céus, para pedir ou agradecer. Portanto, o interesse está centrado nas mãos e no seu agir, e não exatamente na figura de seus donos ou dos bens produzidos por estes', explica Lima.
O filme ainda não foi lançado. A previsão é que seja exibido ainda esse ano.
Quero ser anjo - A história de duas meninas, em que uma delas representava Nossa Senhora e a outra um anjo
na época do Natal, sempre encantou a cineasta Marta Nassar. 'Existia uma disputa entre as garotas porque uma delas sempre fazia a Nossa Senhora, mas ela queria ser o anjo, porque era mais bonito, tinha uma fantasia melhor. Ai um dia, ela se revoltou, se vestiu de anjo e subiu em um guarda-roupa da casa onde tinha uma arma. Então ela atirou gritando quero ser anjo, quero ser anjo. Eu sempre achei isso muito engraçado, porque é um paradoxo. Primeiro porque ela é uma criança que quer aparecer, que quer ser reconhecida e segundo porque ela está vestida de anjo com uma arma na mão', disse Marta.
Marta então resolveu misturar essa história, com outras lembranças e criar um documentário. 'Usando da minha licença poética, misturei tudo e fiz uma relação com o Círio, coloquei o Círio de cenário da história, porque ele é mais familiar para mim. E ser anjo no Círio é quase ser uma celebridade'.
Filhas da Chiquita - Contar o que acontece quando 2 milhões de católicos e 40 mil gays ocupam o mesmo lugar no espaço é o que pretende o documentário de Priscilla Brasil. Nele é mostrado como o Círio convive com a festa
da Chiquita, maior manifestação profana e o mais tradicional encontro gay da Amazônia que ocorre no mesmo dia, na mesma hora e na mesma rua. 'Nunca vi o conflito entre profano x sagrado, homossexuais e igreja tão condensado em um espaco só', disse a cineasta.
O tema igreja e homossexualidade é polêmico e no filme essa relação conturbada e o que pensa a Igreja fica bem claro no depoimento de um padre. 'O padre tem suas convicções, evidentemente, não são as minhas. Eu sou sempre a favor da tolerância - e de alguma forma o filme é sim sobre isso. Acho a questão da tolerância uma das principais questões do mundo. Se a gente resolver como tolerar quem é diferente da gente, o resto a gente resolve rapidinho", acredita Brasil.
Outras produções
Naza- 15'. Direção: SILVIO FIGUEIREDO. Documentário sobre a Festa do Círio de Nazaré, que ocorre anualmente em Belém-PA, Brasil. A festa é marcada por várias procissões, onde a principal reúne mais de um milhão de pessoas nas ruas da cidade. Além das procissões, uma série de festas, encontros e reuniões acontecem durante o período.
Os Promesseiros. Direção: Chico Carneiro. Conta a trajetória de quatro amigos da cidade de Castanhal, que há muitos anos cumprem promessa de, às vésperas do Círio de Nazaré, virem remando numa canoa, durante quatro dias, pelos rios Inhangapi e Guamá até Belém, pernoitando nas casas dos ribeirinhos e constatando as mudanças no percurso, especialmente quanto ao meio ambiente.
Na corda do Círio. 42' Direção: Renato Barbieri. Documentário para a tv sobre a maior manifestação religiosa do Brasil.
O Pato Atropelado no Tucupi – 7' - Menino vai comprar pato na feira, mas a ave escapa do paneiro e foge. Procurado pelo garoto em todos os cantos da feira, o pato tenta atravessar a rua e é atropelado. Só assim o menino o recupera e o leva pra mãe cozinhar o famoso pato no tucupi pro dia do Círio de Nazaré.
A Corda - Procissão dos Excluídos. Direção: Moisés Magalhães e Ronaldo Passarinho Filho. Filme em 16 mm rodado em outubro de 1999 durante o Círio de Nazaré. A idéia é contar a história do Círio através dos depoimentos de promesseiros e membros do clero. O documentário foi dividido em quatro blocos de 10 minutos. Durante as filmagens, a corda se rompeu, rendendo imagens muito interessantes.