É incrível, mas uma salada simples, dessas compostas por pepino, tomate, cenoura, beterraba e cebola, consumida antes ou durante o almoço, percorre cerca de 20 mil quilômetros antes chegar à mesa do paraense. Apesar de ter a segunda maior extensão territorial do Brasil, o Pará não consegue ser auto-suficiente na produção das frutas, verduras e dos legumes mais consumidos no Estado. Até manga a Cidade das Mangueiras tem comprado de fora. O produto vem, principalmente, de Petrolina (PE). Já a cebola, que no Brasil está fora de safra, percorre mais de dez mil quilômetros da Holanda até Belém.
A principal consequência negativa de todo esse vai-e-vem está no preço final repassado aos consumidores na Centrais de Abastecimento do Pará (Ceasa). O empresário Gilberto Rodrigues, que tem um box na Ceasa, conta que, não raramente, o frete de alguns produtos sai mais caro que o próprio legume. Ele dá como exemplo o tomate, pelo qual ele paga R$ 10 por caixa ao caminhoneiro responsável por trazer a carga. 'Caso esse fosse um produto produzido aqui (no Pará) o preço final poderia ser reduzido em até 20%', garante. Uma caixa de tomates com 28 quilos custa na Ceasa, em média, R$ 45.
E é assim com quase todos os produtos comercializados hoje na Ceasa. Entre os que mais percorrem quilômetros para chegar a Belém estão os de origem internacional. Os mais conhecidos do gênero são as peras e maçãs argentinas. A novidade, porém, está na cebola, que agora, na época da baixa brasileira, é comprada da Holanda. A maior parte da viagem acontece por navio até São Paulo. De lá, o produto sobe em direção ao Norte, de carreta ou caminhão.
Na Ceasa, uma saca de cebola holandesa com 20 quilos custa R$ 35. O que não deixa de ser, também, uma lição de concorrência, já que a diferença no preço é mínima quando o produto levado à Ceasa é produzido no Brasil. 'Essa é mais uma prova de o frete é, realmente, o que encarece o produto comprado fora de Belém', reitera Gilberto. A cebola holandesa, segundo ele, em nada deve para a brasileira e a saída do produto agrada o comerciante.
O também empresário Armando Morikaua acredita que falta incentivo do Poder Público para que a produção paraense tome rumos diferentes. 'Não é só plantar. É preciso investir em pesquisa. O solo aceita determinadas sementes, mas é preciso um tratamento especial. Tudo bem que se gastaria mais num momento inicial. Mas depois que a fórmula fosse encontrada as coisas melhorariam para o consumidor'.
Como exemplo, Morikaua aponta o Mangustão e o Hanbutan, frutas de origem asiática, mas que hoje são cultivadas em larga escala em várias cidades paraenses. Outro exemplo dessa falta de vontade em desenvolver culturas essenciais para o povo do Pará em solo paraense está a compra da manga produzida na cidade de Petrolina. A espécie regional do produto também é vendida na Ceasa, mas é a manga conhecida como bacuri, plantada fora do Estado, a que mais agrada os clientes. A diferença de preço entre as duas é de quase 100%. 'Para ser a cidade das mangueiras, Belém precisa comprar manga de fora', ironiza a dona-de-casa Benedita Azevedo.
Estradas
Os destinos que levam ao prato do paraense são variados e, por isso mesmo, intensos. A movimentação de carretas e caminhões é constante na Ceasa do Pará. Descanso para o motorista só mesmo enquanto a carga é retirada dos veículos. Depois disso é levantar, lavar o rosto e seguir o caminho de volta porque, como se sabe, o produto carregado é altamente perecível e não pode esperar por muito tempo. O mineiro Osvaldino Gonçalves Nunes, que trabalha como caminhoneiro há 30 anos, conta que a burocracia acaba sendo o pior dos entraves para que o produto chegue ao destino sem qualquer comprometimento de validade.
'A gente faz um esforço danado para chegar aqui (em Belém), a gente faz a nossa parte, mas quando chega nas barreiras de fiscalização ‘nós’ trava. Já teve dia que passei três horas para pegar a nota fiscal de volta. Três horas para o tipo de carga que carrego é crucial'. Para o caminhoneiro, o Estado poderia providenciar alguma estratégia que priorizasse as cargas cujo prazo de validade é altamente curto.
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