Belém 08 de Março de 2013
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Vicente Salles morre aos 81 anos no Rio
 
 
 

CULTURA

Ele é referência obrigatória sobre a história dos negros no Pará

MÁRCIA CARVALHO

Da Redação

O Brasil perdeu na madrugada de ontem um dos maiores estudiosos da cultura negra na Amazônia. O historiador, antropólogo e folclorista paraense Vicente Salles morreu aos 81 anos, no Rio de Janeiro. Debilitado por conta de uma forte anemia, ele sofreu uma parada cardiorrespiratória no Hospital Casa de Portugal, onde estava internado para exames desde 27 de fevereiro. Segundo a viúva Marena Salles, 74 anos, o velório será realizado na manhã de segunda-feira (11), no Cemitério do Caju, na capital carioca, onde o corpo será cremado.

"Sabíamos que ele estava frágil por causa da anemia, mas ninguém esperava que isso fosse acontecer", disse Marena, em entrevista por telefone. O casal mudou-se para o Rio de Janeiro há um ano, após 35 anos morando em Brasília. "Mas nunca nos desligamos de Belém. Ele sempre era convidado a ministrar aulas, lançar livros ou receber homenagens, por isso volta e meia estávamos na cidade, duas ou três vezes por ano", conta.

Pais de Marcelo, Mariana e Márcia, Vicente e Marena completariam 48 anos de casados em junho. "Ele era uma pessoa muito calma e tranquila, e também um observador atento: sabia tudo que estava acontecendo ao seu redor. Acho que o vi zangado apenas umas três vezes em toda a sua vida. Se eu pudesse voltar atrás, casaria com o mesmo homem de novo".

Autor de 25 livros e mais de 50 microedições - obras que ele produzia em pequenas tiragens, distribuídas para bibliotecas e centros de pesquisa - Vicente Salles lançou títulos fundamentais sobre a cultura amazônica, como "O Negro no Pará", "Vocabulário Crioulo" e "A Modinha no Grão-Pará". "Sua importância para a historiografia da Amazônia é inquestionável, sobretudo pelos estudos que realizou sobre a presença do negro na região. Sua obra é um divisor de águas por revelar um sujeito que estava excluído da história", diz a jornalista e historiadora paraense Rose Silveira, atualmente radicada em São Paulo, onde está finalizando a tese de doutorado "O Cidadão e a Poronga - A Peleja de Vicente Salles Contra a Exclusão do Negro da História do Pará".

Rose Silveira conta que o historiador entrou em contato com ela um dia após ser internado, já que os dois se encontravam regularmente para as entrevistas do projeto. "Ultimamente, ele reclamava que não conseguia mais dedicar tanto tempo ao trabalho quanto gostaria. Isso o deixava chateado. Mas no telefone ele estava animado, não se mostrou cansado ou ofegante. E ainda disse brincando: ‘Vamos ver se o preto velho me salva de novo’".

REPERCUSSÃO

Em Belém, autoridades, intelectuais, músicos e estudiosos lamentaram a perda do historiador. A Assembleia Legislativa do Pará realizou um minuto de silêncio. "Eu era amigo pessoal e grande admirador de Vicente Salles, por conciliar extrema humildade com singular genialidade", disse o deputado estadual Edmilson Rodrigues (PSOL), que se comprometeu a colaborar para que obras inéditas, como sua rica pesquisa sobre o lundu, sejam publicadas.

A Universidade Federal do Pará (UFPA) e a Universidade da Amazônia (Unama) publicaram notas de pesar. "Não só a UFPA perdeu, como também as culturas paraense e brasileira perderam um grande nome, um pesquisador que ressaltou a riqueza da produção artística e intelectual local e nacional, que produziu, organizou e sistematizou a cultura erudita e popular do Pará e da Amazônia", disse Emmanuel Tourinho, reitor em exercício da UFPA.

Flávio Nassar, pró-reitor de Relações Internacionais da UFPA e amigo pessoal de Vicente Salles, destacou a relevância da obra do pesquisador. "A vida dele trouxe luz para revelar uma outra história do Pará, tanto o lado bom como o lado ruim, pois ele desfez a ilusão de que no Estado a escravidão foi branda".

A reitora da Unama, Ana Célia Bahia, lembrou que o antropólogo foi a primeira personalidade a receber o título de doutor Honoris Causa da instituição, em junho de 2002. "Ele sempre dedicou sua vida ao ensino e à pesquisa - sobretudo da cultura amazônica e da literatura feita sobre o Pará, assim como pelo seu trabalho de recuperação e registro de valores e de manifestações culturais da região amazônica".

O Instituto de Artes do Pará (IAP) também lamentou a morte do escritor, antropólogo e pesquisador paraense. "Foi um excepcional escritor e pesquisador das coisas do Brasil e da Amazônia. Seus trabalhos ficarão perenes na historiografia brasileira. O IAP teve a honra de publicar três livros de Vicente, de vital importância para a compreensão da história da música e da cultura negra no Pará. São eles: "O Negro no Pará", "Vocabulário Crioulo" e "A Modinha no Grão-Pará".

Em abril deste ano, o IAP lançará o inédito terceiro livro da trilogia do negro de Vicente Salles, chamado "Os Mocambeiros", cujos direitos foram cedidos ao instituto. Ao longo da existência deste instituto, Vicente Salles foi um de seus grandes parceiros e suas obras estão imortalizadas em seu acervo editorial. Vicente também dá nome ao "Prêmio IAP de Literatura", na categoria "Ensaio". "A morte de Vicente é uma grande perda para a sociedade brasileira, em especial para o povo paraense. A Cultura do Pará perde um de seus grandes nomes. O IAP está de luto".

SÍMBOLO

A professora Zélia Amador de Deus estava em Brasília para uma reunião no Ministério da Educação quando recebeu a notícia. "Fiquei consternada. Vicente Salles teve um papel fundamental para nós do movimento negro do Pará. Com sua pesquisa, que representa a mudança de paradigmas, ele foi um aliado importante nessa luta. Perdemos um símbolo muito forte".

O músico Salomão Habib destaca que o historiador foi sua grande inspiração para a pesquisa sobre o músico negro Tó Teixeira, que resultou em livros, CDs e DVDs que terão lançamento no próximo dia 20. "Vicente Salles foi o primeiro a registrar o Tó Teixeira tocando. Esse registro, de 1976, seria transformado depois num compacto. Sua bibliografia foi minha principal referência nessa pesquisa que durou mais de 20 anos. Sua importância para o estudo da musicalidade brasileira é a mesma de Benedito Nunes para a filosofia", compara.

Em 1993 Vicente Salles disponibilizou parte de seu acervo para o Museu da UFPA, onde atuou como diretor durante dois anos. O Acervo Vicente Salles reúne atualmente cerca de 15 mil volumes de livros e quase 100 mil recortes de jornais sobre temas diversos, além de cartuns, fotografias de época, cordéis, peças de teatro, teses, folhetos e cartazes. O grande destaque é a coleção de 4,5 mil partituras, manuscritas e impressas, um material que foi digitalizado há seis anos e hoje pode ser consultado como acervo de áudio.

Foi também durante sua atuação no MUFPA que Vicente Salles implantou projetos de pesquisa sobre a cultura popular do cantochão paraense, bandas de música e edição de partituras musicais em computador.

Para a diretora do Museu da UFPA, Jussara Derenji, Vicente Salles tem características que o definem como um brilhante pesquisador: "Ele se dedicou a uma área diversificada de atuação. Pesquisou a presença do negro, o folclore, a música e a dança no Pará. Sua prioridade era distribuir essa informação, por isso continuamente ele alimentou o acervo do museu que leva o seu nome, além de distribuir suas pesquisas em pequenas publicações. Tudo isso era um esforço que pouco se vê entre grandes pesquisadores".

LEGADO

Entre os trabalhos mais importantes de Vicente Salles estão os livros "História do Teatro do Pará", "Vida do Maestro Gama Malcher" e "Negro do Pará – Sob o Regime da Escravidão" e "Santarém: Uma Oferenda Musical". A Editora da UFPA (ed.ufpa) publicou dois deles: "Maestro Gama Malcher: A Figura Humana e Artística do Compositor Paraense", coedição Editora da UFPA e Secretaria de Estado de Cultura do Pará, 2005; e "Épocas do Teatro no Gão-Pará ou Apresentação do Teatro de Época", tomos 1 e 2, Editora da UFPA, 1994.

Atualmente a editora está trabalhando na produção de um livro inédito de autoria de Vicente Salles. Com o título "Traços & Troças. O Desenho de Crítica e de Humor no Pará", a obra foi aprovada para publicação pelo Conselho da Editora em maio de 2012 e tem lançamento programado para a XVIII Feira pan-Amazônica do Livro. "Nosso planejamento incluía a presença de Vicente Salles para uma sessão de autógrafos", diz a diretora da editora, Simone Nenno. O livro é resultado de pesquisa ampla e cuidadosa sobre a caricatura no Pará, desde o final do século XIX até os primeiros anos do XX.

 
   
 
   
   
     
 
 
 
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