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Certamente a mãe natureza não foi pródiga em atributos físicos ao criar o caranguejo, porque o bichinho é feio! Patas peludas, terríveis tenazes, se se agarrarem a um dedo incauto... Olhos saltados, desconformes; maneira esquisita de se locomover: a modo um bêbado, sem rumo certo: vai para trás, vai pros lados, prá frente, em
reta, nunca! Como se não bastasse, vive entocado no lamaçal, nos furos fundos dos mangues, é preciso técnica para agarrá-lo, senão... Mas, em compensação ele é gostoso, muito gostoso! Depois de bem limpinho e preparado é o momento de destroça-lo e comê-lo, chupando cada pedacinho e se as cascas vão para a lixeira, guarda-se o mais importante, o casco onde, depois de escolhida, a carne é servida ali, bem temperada, coberta com farofa de manteiga e, de quebra, uma polpuda azeitosa, à guisa de enfeite.
Caranguejo "toc-toc" e casquinho de caranguejo. Duas delícias, imprecindíveis na mesa do paraense.

Toc-toc

O primeiro é o modo mais simples de prepará-lo. Depois de quebrá-los ao meio e de bem lavados _ melhor utilizar uma escovinha para livrá-los de qualquer resquício de lama _ numa panela grande, com pouca água, aproximadamente meio litro, arrumá-los em camadas e entre uma e outra, colocar sal, deixando espaço suficiente para que a tampa fique bem ajustada. Assim, cozidos no vapor, não perderão a gordura contida no casco. Depois de prontos, vão para a mesa, acompanhados de farinha de mandioca, da grossa e de molho de pimenta. Uma tábua e uma pequena marreta completam o quadro. São necessárias técnica para quebrá-lo e prática para liberar a carne das cascas. Com o tempo, quem não sabe, acaba por aprender. A primeira coisa que se arranca do peito do caranguejo é o chamado "umbigo". Por tradição, no Pará, dão-nos às crianças para que o chupem bem. Segundo a crença popular, curumim que chupa umbigo de caranguejo não faz xixi na cama, nem na rede, à noite.

Casquinho de caranguejo

O preparo do casquinho, em si, não tem mistério. O problema está em se saber e bem, retirar a carne do caranguejo. Haja paciência! É preciso livrá-la de todas as possíveis lasquinhas, porque se no momento de saboreá-lo uma dessas lascas penetrar no vão dos dentes, além de doloroso é difícil de ser removida. De resto, é temperar-lhe bem a carne com alho, coentro, cebola e limão, refogá-la no azeite português, de preferência, arrumar as porções no casquinho e, como já se disse, cobrir com a farofa, enfeitar com a azeitona (opcional) e preparar-se para comer um dos melhores acepipes do mundo. Ah! Uns pingos de molho de pimenta são indispensáveis.

Outros pratos

No Pará, a variedade de pratos feitos com caranguejo é muito grande. Assim, acrescentando-se à carne, leite de coco puro, natural ou industrializado, ervilhas e arroz, temos o "caranguejo soçaite". Misturando-se a carne, bem temperada, com ovos batidos, eis a torta ou frigideira de caranguejo. As empanadas são, igualmente, deliciosas: batem-se as claras em neve, juntam-se-lhes as gemas, incorpora-se bem óleo quente numa frigideira, com o auxílio de uma colher coloca-se uma porção da mistura, recheia-se, rapidamente, com a carne temperada e, com uma escumadeira vai-se formando o pastel. Tão logo esteja dourado, retira-se da frigideira deixando-o sobre papel apropriado para escorrer bem o óleo, tornando-se sequinho.

Unha de caranguejo

Além desses, há as pizzas, sopas, rocamboles e, a grande pedida: a famosa unha de caranguejo, sem dúvida, o salgadinho mais conhecido nestes pagos vendido das lanchonetes melhor equipadas aos botecos da periferia; nas ruas, em tabuleiros levados por adultos e crianças; nos restaurantes sofisticados, como entrada, enfim, em qualquer lugar de Belém e, por extensão, aos outros, do Estado, a unha de caranguejo pontifica, soberana.

Como é feita?

Muito simples. Estando as patas livres das cascas, temperá-las com sal e limão. À parte, refogar uma porção da carne de caranguejo, suficiente para o número de patas. A massa externa é muito diversificada: há quem utilize pão, macaxeira (aipim), massa cozida de trigo, etc. Mas, eis a receita de uma das melhores: após cozinhar batatas, descascá-las e passá-las pelo espremedor, acrescentar uma generosa colher de manteiga e um pouco de leite de gado. Levar esse purê ao fogo, até que os ingredientes fiquem bem incorporados. Após, acrescentar farinha de trigo, a suficiente, até que a mistura fique bem encorporada e desgrude do fundo da panela. Sal, a gosto. Pôr essa mistura numa travessa e deixar esfriar. Untar as mãos com óleo. Colocar uma porção da massa no côncavo da mão, acrescentar a unha e mais a carne temperada, fechando a massa sobre si, modelando perfeitamente e apertando bem para que não corra o risco de abrir-se no momento de frigi-la. Em seguida, passar em ovos batidos e em farinha de pão, comprimindo bem para incorporar ao bolinho. Fritá-las, de preferência em uma panela, com óleo quente e bastante a modo cobrir as "unhas" até que estejam bem douradas. Então, colocá-las em uma peneira ou em outro recipiente devidamente forrado com papel absorvente para livrá-las do excesso de gordura.
Depois, é sentar-se confortavelmente e saboreá-las, devagarinho, sem pressa alguma. Não esquecer a cerveja bem gelada, a Coca-Cola, o whisky, café e água que seja, a lista é longa, a escolha é individual, porque o prazer é mesmo dado pelo despropósito da gostosura. Palavra de paraense.