Bar do Parque

Bar do ParqueTendo por teto o azulino dos céus e livre de paredes a abreviar-lhe o horizonte, o Quiosque (para os íntimos) é nossa maior instituição boêmia

No melhor romance policial americano deste século (O Longo Adeus, de Raymond Chandler), um personagem, reiniciando mais uma rodada de drinques dos muitos que consumirá no desenrolar da trama, fala sobre a melhor hora para se tomar o primeiro trago do dia, no final da tarde, ao cair do sol:
Gosto de bares assim, logo que abrem para a noite, diz. _ Quando o ar interior ainda está fresco e limpo, tudo brilha e o cara do bar dá uma última olhada em si mesmo no espelho, para ver se a gravata está no lugar e se o cabelo está bem penteado. Gosto das garrafas limpas no fundo do bar e dos belos copos brilhantes, dessa expectativa toda.
Esta descrição de Terry Lennox (o nome do personagem) desceria redondinha caso fôssemos escrever sobre um bar como o, vamos ver, como o Cosa Nostra, antes das baforadas de cigarro e do hálito alcoolizado dos freqüentadores embaçarem o ambiente e o espelhamento dos cristais da casa.
Com o Bar do Parque a história é outra _ bem como o cenário, o décor. Ai do cliente que se dependurar no balcão do quiosque para apreciar o reflexo das garrafas limpas e o brilho dos copos. Quanto à gravata e ao cabelo bem penteado do atendente... Mas se a vista interna não compensa, a recompensa vem do lado de fora.
Tendo por teto o azulino dos céus (que me perdoem os bicolores; a propósito, sou Tuna) e livre de paredes a abreviar-lhe o horizonte, o entardecer _ trazendo a brisa guajarina que beija e balança _ o Bar do Parque é o cenário ideal para um primeiro e relaxante gole de cerveja. A não ser que o céu se encrespe e mande um toró daqueles. Aí o jeito é correr, copo e cerveja nas mãos, e disputar um abrigo na lateral do Teatro do Paz, vizinho mais que centenário.

A geração dos Pinto

A família Pinto (nenhum parentesco, infelizmente, com o autor destas linhas), atual proprietária do bar, assumiu seu controle em 1959. Proprietária, pero no mucho, já que o bar, localizado em praça pública, é arrendado junto à Prefeitura. Por isso, toda e qualquer reforma precisa de autorização municipal (Secom, Fumbel e Funverde respondem pelo acompanhamento fiscal e arquitetônico do local).
Desde o ano em que passou a administrar o bar, os Pinto já realizaram diversas modificações em torno do quiosque (muitos, os íntimos, só tratam o Bar do Parque por quiosque), que os boêmios tradicionalistas nem sempre aprovam.
De procedência portuguesa, os Pinto já estão em sua terceira geração do lado de dentro do balcão do Bar do Parque. Manoel Hermes Pinto, o atual administrador (sua mãe, Terezinha Pinto, é a dona), herdou o negócio do pai, Joaquim da Silva Pinto, morto em fevereiro do ano passado. Joaquim, por sua vez, que chegou a Belém em 1954, vindo da lusitana Santa Maria da Feira, trabalhou como balconista para o pai, tempo de juntar uns trocados e comprar a parte paterna no empreendimento, em 1972.
Aliás, repetindo o pai, por volta de 1978, com seus doze anos, Manoel se virava como balconista no bar. Outra das tradições herdadas, a festa das Filhas da Chiquita Bacana, já incorporada ao calendário boêmio da cidade, ele luta para manter.

Sarney e as Filhas da Chiquita

Curiosamente, foi um carioca o idealizador dessa festa que é uma das caras de Belém. Iniciando-se na noite que antecede o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, ela se estende por toda a madrugada e só termina quando a procissão aponta na Presidente Vargas, fazendo as vezes de ponte entre o profano e o sagrado. E a procissão ainda ganha a adesão dos festeiros mais resistentes.
Longe de ser um evento representativo da melhor sociedade paraense, a festa das Filhas da Chiquita ostenta em seu currículo pagão a presença de ilustres visitantes, que festa de muita gente boa tudo faria para receber. Em 1985, por exemplo (a primeira versão da festa é de 1980), o então presidente José Sarney deixou o Hilton Hotel, onde estava hospedado, e, de improviso, resolveu atravessar a rua e conferir, in loco, de onde vinha o som contagiante do carimbó. Cumprimentou alguns foliões daquele carnaval fora de época e chegou a prometer (político jamais renega sua origem) uma flauta nova ao Borboletas do Mar, conjunto que animava a noite com seu carimbó de Marapanim (se lembrar, na próxima festa, em outubro, vou conferir com o pessoal do conjunto, que continua vindo de Marapanim para tocar no arraial das chiquitas, se a promessa foi cumprida). Os jornais do dia seguinte registraram, na primeira página, a presença de Sarney entre as Filhas da Chiquita, com direito a bigode e jaquetão.
Outro ilustre, e imprevisto, visitante saiu direto do trabalho para conhecer o embalo. Era o ator Raul Cortez, de banho recém-tomado, saído direto do camarim da peça que estrelava, há pouco apresentada no Teatro da Paz. Corria o remoto ano de 1984. Flagrado pelos organizadores, Cortez não se furtou ao convite para fazer a entrega, no auge da festa, de um dos prêmios mais cobiçados entre a comunidade gay, o Veado de Ouro.
Mesmo sem reeditar a animação e irreverência de festas passadas, Manoel Pinto (nada a ver com o outro comprido e famoso habitante das imediações, o edifício Manoel Pinto da Silva) insiste não só em preservar a festa das Filhas da Chiquita Bacana, como também outra das instituições herdadas: a de baixar as portas do bar (forma de dizer, uma vez que o bar não tem portas) logo após o encerramento da festa e a passagem da procissão.
O outro único dia em que o Bar do Parque não funciona, a quarta-feira de cinzas, corre o risco de ceder o lugar ao dia 22 de fevereiro, data que nenhuma folhinha traz assinalada, mas que lembra a morte do ex-proprietário Joaquim da Silva Pinto, homenagem póstuma sobre a qual os bebuns ainda não emitiram nenhuma opinião.
Em tempo: o carioca criador da festividade das Filhas da Chiquita é o sociólogo Luiz Bandeira (nenhum parentesco com o "Chembra", o jornalista Euclides Bandeira, ou o cantor Walter Bandeira), visto pela última vez coisa de uns três, quatro anos atrás, quando retornava, em definitivo, ao Rio de Janeiro.

Ruy Barata e a sede eterna

Por falar em homenagens, cá entre nós, acho que se enganaram de parque na hora de instalar uma estátua em louvor ao poeta Ruy Barata. Em vez de estar no Parque da Residência, o chumbado (por favor, não me entendam mal, me refiro à estátua) Ruy sentir-se-ia em casa no Bar do Parque _ em casa propriamente não, que ele iria preferir estar no bar, onde efetivamente estaria, se sentindo como que em casa; bem, vocês já pegaram o espírito da coisa.
Ali, com a mão direita eternamente em forma de concha, a sustentar o queixo, o cigarro pendendo entre os dedos fura-bolo e o pai-de-todos, com a outra mão o poeta pediria, com a paciência dos imortalizados, pressa no aviamento da cuba-libre, ao que Sérgio, o garçom, responderia, com sua voz de barítono e bigode-cantinflas, que o pedido estava sendo passado na manteiga. Huumm, bem que se poderia, para compor um conjunto dois-em-um, despejar uma camada de bronze sobre o Sérgio, fixando-o também em forma de estátua, a providenciar, ad infinitum, a cuba do Ruy. Como ele trabalha no bar há 22 anos, e muitos dos fregueses já estão habituados com a "manteiga" no pedido, ninguém iria notar sua demora para trazer as bebidas. Mesmo sua imobilidade passaria despercebida.
Quanto ao nosso Paranatinga, com seu fígado de bronze, ferro ou qual venha a ser o material a forjar-lhe as entranhas da estátua, estaria para sempre imune aos efeitos da ressaca. A lamentar apenas o fato de, lá pelas tantas, ele não poder se dar ao luxo de, amparado nos braços de morena musa grega recendendo a patchuli, embarcar num táxi e sumir na noite belenense, rumo a violões e outros cantos.

E assim, aos tropeções, caminhamos

Polêmico pela própria natureza que o cerca (além das árvores, bichas, travestis, traficantes e drogados, bêbados, arruaceiros, putas e seus clientes, cafetões e demais fauna urbana que sai à caça noturna), o Bar do Parque conquistou o legítimo direito de ser proclamado como nossa maior instituição boêmia.
Ao longo de suas 24 horas de funcionamento, ele é freqüentado por diversos segmentos sociais. No final da madrugada, feito um coração materno que não recusa os filhos ingratos, recebe gente vinda de bares onde já foram permitidas todas as saideiras antes de cerrar as portas. Os últimos boêmios ainda se confraternizam e os cultores da boa forma física dão suas voltas matinais, parando no quiosque para hidratar o organismo com uma água mineral. A manhã avança e já são os funcionários que trabalham nos arredores que param para um cafezinho, uma coalhada. E assim caminha a humanidade papa-chibé. Os bebedores noctívagos de dez, quinze, vinte anos atrás, trocaram a noite pelo dia e agora, acompanhados da família, aproveitam a manhã domingueira de sol para tomar uma cervejinha.
Como não poderia deixar de ser, a crise afetou o consumo no bar. Num dia de bom movimento, são vendidas de 20 a 26 grades de cerveja, algo entre 480 e 624 garrafas. Nos piores dias, nunca se vende menos de cinco grades, 120 garrafas. Para atender à legião diária de freqüentadores, o bar conta com quatro garçons (o já citado Sérgio, chefe da turma, mais o meu xará Elias, Nonato e Carlos) e seis atendentes, que trabalham no interior do quiosque, e três cozinheiras, pessoal que se distribui em três turnos de trabalho, sob a gerência geral do famoso Pelé, que já trabalhava com o pai de Manoel desde os tempos da Garapeira, situada no Telégrafo. O garçom Abaeté e os balconistas Barros, Sardinha e Sabará se aposentaram.
É de se imaginar que a vida de garçom no Bar do Parque é bastante movimentada, sujeita a altos e baixos, como teve oportunidade de comprovar Antônio, um dos garçons da velha guarda. Na tentativa de apartar uma briga, ele foi agarrado e jogado da parte elevada do bar pela lendária turma da Bailique. Falando em lenda, o Abaeté informatizou-se antes da popularização da máquina de calcular eletrônica. Com a rapidez de uma dessas máquinas, ele processava a despesa num átimo de segundo, incluindo na conta, inclusive (dependendo da graduação etílica do consumidor), as garrafas bebidas na mesa ao lado. A conta era dada por concluída, as somas devidamente multiplicadas, quando o Abaeté tilintava o abridor no gargalo da garrafa mais próxima.
Bem, para arrematar essa reportagem metida a crônica, convido o leitor a me acompanhar até o Bar do Parque para dividirmos uma cerveja. Sentemos naquela mesa lá ao fundo, tendo por abrigo a copa encortinada das mangueiras. Ergamos as taças, ou melhor, os copos chinfrins num brinde, desejando vida longa ao Bar do Parque. E vamos embora enquanto é tempo, que os bárbaros, e os chatos, estão chegando.